sábado, 30 de maio de 2015

Do Amor e das Infidelidades no Portugal do Século XVIII (1)

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“Sabem como no tempo de D. João V se chamava aos maridos infelizes?
É o bispo do Grão-Pará que o diz: chamavam-lhes “cucos”.
Porquê?
Frei Joseph Queiroz não entra em pormenores. Mas sabe-se.
O cuco é uma ave que tem o mau costume de pôr os ovos no ninho dos outros – por antítese, o século XVIII chamou “cuco” ao marido que deixava entrar os outros no ninho dele.
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Havia, segundo os papéis dos conventos e as mercuriais do tempo, muitas espécies de “cucos”.
Os maridos infelizes foram pitorescamente classificados pelos moralistas portugueses de 1700, existindo ainda, nalgumas terras da Beira, a tradição remota dessa classificação.
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"Cuco", em geral, era o marido duma mulher infiel;
“ante-cuco”, o homem casado com mulher que fora doutro antes do casamento, mas que se portava bem depois de casada;
“recuco”, o marido de mulher que fora doutro ou doutros antes do casamento e que continuava a portar-se mal depois de casada;
“chiscismelro”, o marido que sabia das infidelidades da companheira e não se importava com elas;
“ribeirinho”, o marido consentidor, que ainda por cima recebia e obsequiava os amantes da mulher;
finalmente, “assombrado”, o marido que estivera para ser “cuco” por um triz, mas que o não chegara a ser por milagre.
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Desde as salas do Paço até às vielas da Madragoa, desde as casas solarengas de cunhais de armas, até às hortas do Ducado gralhantes e bezoantes de povo, a Lisboa fidalga do século XVIII transbordou de “cucos” e de “recucos”, de “chiscismelros” e de “ribeirinhos”, de “ante-cucos” e de “assombrados”.
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Foram tantas, entre nós, as intrigas amorosas, tantos os maridos infelizes e tão frequentes os escárnios públicos a que eles estavam sujeitos, que as circunstâncias aconselharam a publicação do alvará de 26 de Setembro de 1769 e obrigaram o marquês de Pombal a mandar proibir, sob pena de Aljube, por outro alvará célebre, que se persistisse na brincadeira de mau gosto de andar a pendurar chavelhos, de noite, pelas portas de toda a gente.
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Como explicar a revoada de infelicidades dos maridos setecentistas?
Pela frágil virtude da mulher portuguesa, que, na opinião do duque de Châtelet, “excedia no galanteio todas as mulheres da Europa"? Decerto. Mas não lhe façamos a injustiça de a culpar a ela só. A grande razão dos desastres conjugais na sociedade lisboeta do século XVIII está, mais ainda, no ciúme dos maridos.
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No ciúme? Mas o ciúme não é um efeito?
Não. Foi uma causa.
Os portugueses passaram sempre por ser os homens mais ciumentos do mundo. “Ciumentos e beatos”, diz Montesquieu, em 1723.
Muito dados a ciúmes”, insiste Dalrymple, que nos visitou em 1774.
«Vis, soberbos, escarnecedores, presunçosos, ignorantes e excessivamente ciumentos das mulheres”, acrescenta o duque de Châtelet, espécie de jornalista impertinente que visitou em 1777 o marquês de Pombal.
E o alemão Link conclui, em 1797, num repelão de mau humor: “ciumentos e tenebrosos”.
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Há nestas impressões dos estrangeiros que nos visitaram, nem sempre rigorosamente delicadas, uma evidente sugestão da Espanha; mas ainda fica uma grande parte de verdade para Portugal.
O português do tempo de D. João V e de D. José foi ciumento por índole, por fatalidade, por herança, por carácter, por essa desconfiança taciturna que lhe adveio da sua hereditariedade torva de beatos e de inquisidores, por essa orgulhosa hipertrofia do sentimento da posse que constituiu nele a noção fundamental da honra.
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O seu ciúme obstinado e violento explica todos os seus desastres matrimoniais.
O seu errado conceito da nobreza do lar e do respeito patriarcal da família, levando o português a fechar a mulher a sete chaves, a guardá-la estiolada em recâmaras e oratórios, a mandá-la espiar por lacaios e mochilas, a acusá-la da sua própria beleza como dum crime, a afligi-la de desconfianças que eram vexames, a torturá-la de suspeitas que eram afrontas, — foi criando pouco a pouco, mesmo nas mais dóceis, mesmo nas mais recatadas, um natural instinto de revolta, um irreprimível sentimento de dignidade ofendida, que foi a razão suprema de todos os adultérios e a dolorosa justificação de todos os crimes.
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Refugiado na noção estreita de moral conjugal que lhe apresentava a mulher como uma baixela de prata, fechada e aferrolhada todo o ano para só sair da arca por festas, — o marido português do século XVIII, na preocupação absorvente de não ser enganado, fez tudo quanto era preciso para não poder deixar de o ser.
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Foi à sua educação de cavalariça e de mosteiro, de picadeiro e de oratório; foi à sua falsa noção do respeito pela mulher; foi, acima de tudo, ao supersticioso horror que à sua fidalguíssima carcaça causava a ideia de ser “cuco” – que ele deveu, incontestavelmente, a glória de o ter sido.”
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Fonte: Júlio Dantas, “O Amor em Portugal no Século XVIII”, Livraria Chardron, Porto, Portugal, ano de 1916, págs. 215-218..
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domingo, 24 de maio de 2015

A gula dos portugueses, o marquês de Pombal e o abade de Alcobaça

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"Um dia, um colega meu, condiscípulo desde os bancos da Escola Médica e bromatologista distinto, pediu-me que lhe dissesse o que se comeu e como se comeu em Portugal no século XVIII, século que passa, e com razão, por ter sido aquele em que se comeu mais - e pior.
Vou satisfazer o desejo do meu amigo (…).
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Nós somos, evidentemente, um país de intoxicados.
Não erraria muito quem fosse até ao extremo paradoxal de atribuir aos erros e às exuberâncias da cozinha portuguesa todos os desastres políticos que nos têm afligido.
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A nossa planturosa cozinha de artríticos, duma abundância monacal, com leitões e vitelas inteiras nadando em molho dentro de bandejas de prata, tem, pelo menos, graves responsabilidades nas grandes catástrofes nacionais.
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Ainda há-de aparecer um filósofo de bom humor que demonstre, quando finalmente se der valor aos infinitamente pequenos da História, que Tânger e Alcácer-Kibir, por exemplo, foram dois casos vulgares de hiper-intoxicação alimentar.
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O português comeu sempre muito -, com a agravante de ter comido sempre mal (…).
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(…) O marquês de Pombal, mais sóbrio, vendo que no próprio paço se comia desordenadamente, voltou a fazer o que já no século XIII fizera Estêvão Anes, e publicou, em 1765, o regulamento da ucharia e cozinha da casa Real.
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Mas desse regímen de sobriedade, que ele estabeleceu também na sua economia doméstica, resultou pouco depois um episódio curioso, quando o abade de Alcobaça, que oferecera ao marquês um jantar formidável, foi convidado, por seu turno, para jantar na casa da rua Formosa.
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 Já no fim do banquete, para que Sebastião José de Carvalho [marquês de Pombal] mandara preparar uma coberta de princípios de copa, outra de potagens, outra de massas, outra de assados e outra de doces e frutas, com dez pratos diferentes cada uma, o marquês notou com estranheza que o gigantesco abade tinha comido devoradoramente de todos os cinquenta pratos sem beber um só gole de vinho, e fez-lho notar, com a maior cortesia, apontando o Xerez, o Porto, o velho Rheno e o Lacrima Christi que o rodeavam em garrafas de vidro doirado:
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- Vossa Reverência não quis honrar os vinhos da minha frasqueira…
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O abade acabou de mastigar um bocado de lombo, poisou o garfo de prata sobre a toalha de rendas, e, acostumado aos intermináveis jantares do convento, respondeu, com a maior naturalidade do mundo:
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- É que eu, senhor marquês, só começo a beber vinho do meio do jantar em diante…
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Todo o poema da gulodice monástica do século XVIII está nesta ingénua frase do dom abade de Alcobaça.”
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Júlio Dantas, Figuras d’Ontem e d’Hoje
(Como se comia em Portugal no século XVIII),
Livraria Chardron, Porto, Portugal, ano de 1914  (págs. 171-178).
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quarta-feira, 20 de maio de 2015

Fim de linha. Sem perdão.

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Há qualquer coisa aqui de que não gostam
da terra das pessoas
ou talvez
deles próprios
cortam isto e aquilo e sobretudo
cortam em nós
culpados sem sabermos de quê
transformados em números estatísticas
défices de vida e de sonho
dívida pública dívida de alma
há qualquer coisa em nós de que não gostam
talvez o riso
esse desperdício.
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Trazem palavras de outra língua
e quando falam a boca não tem lábios
trazem sermões e regras e dias sem futuro
nós pecadores do Sul nos confessamos
amamos a terra o vinho o sol o mar
amamos o amor e não pedimos desculpa.
Por isso podem cortar
punir
tirar a música às vogais
recrutar quem os sirva
não podem cortar o Verão
nem o azul que mora aqui
não podem cortar quem somos.
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Manuel Alegre, ‘Resgate’, in “Bairro Ocidental”.
Dom Quixote. 2015
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sexta-feira, 15 de maio de 2015

David Olère, Judeu, no Inferno dos Alemães

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Auto-retrato de David Olère. No campo de Auschwitz.
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David Olère foi um pintor e escultor judeu, nascido na Polónia em 1902 e falecido na França em 1985. Foi prisioneiro dos Alemães, no campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, de 1943 a 1945.

Naturalizado francês em 1937, combateu pela nova pátria integrado em forças de infantaria. Após a derrota diante das tropas nazis, viu-se desmobilizado e sem emprego.

Detido pela polícia francesa colaboracionista em Fevereiro de 1943, acabou nas mãos dos Alemães, que o deportaram para Auschwitz com centenas de outros Judeus. Tornou-se o prisioneiro n.º 106 144.

Libertado pelas tropas norte-americanas em princípios de Maio de 1945, empenhar-se-ia depois em testemunhar, através de desenhos e pinturas como estas, a pavorosa experiência que tinha vivido.

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quarta-feira, 6 de maio de 2015

Desejos

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Desejo a vocês...
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
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Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho.
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender um nova canção
Esperar alguém na estação
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Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu.
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Carlos Drummond de Andrade (Brasil)
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domingo, 3 de maio de 2015

Mães...

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