sábado, 27 de dezembro de 2014

O QUE FAREI SEM EURÍDICE?

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 Sugestão musical, texto e tradução da ária: Albina de Castro
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Ópera: "Orfeu e Eurídice"
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Ária: "Che farò senza Euridice?"
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Duração: 4' 53"
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Compositor: Christoph W. Gluck (1714-1787)
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Mezzo-soprano: Grace Bumbry (St. Louis, Missouri, EUA, n. 1937)
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Responsabilidade técnica: Addiobelpassato (começo da ária aos 10")

 
 

 
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A voz plangente e maravilhosa de Grace Bumbry evoca o lamento doloroso de Orfeu, destroçado pela perda da sua muito amada Eurídice.
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Eurídice, mordida por uma cobra durante a perseguição do infame Aristeu, perdera a vida e descera às trevas do mundo inferior, o Reino dos Mortos. Aí a procurara Orfeu, tocando a sua lira mágica e enfrentando mil perigos.
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Hades, comovido pela agonia daquela música desesperada, permitiu a Orfeu que reconduzisse a sua Eurídice, através de caminhos tenebrosos, até à luz do sol, mas com a condição de nunca olhar para ela até lá chegar.
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Orfeu cumpriu a condição quase até ao fim. Quando, porém, se virou, uma única vez, para confirmar se Eurídice o seguia, esta transformou-se de novo num espectro e, lavada em lágrimas, com um grito de agonia, foi outra vez arrastada para o Reino dos Mortos.
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Orfeu, trespassado de saudade e de dor, cantou então o hino pungente de todos os grandes amores perdidos nesta vida: Che farò senza Euridice?

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O que farei sem Eurídice?
Aonde irei sem o meu amor?
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Eurídice! Eurídice!
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Oh Deus!
Responde!
Responde!
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Eu continuo puro e teu fiel!
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O que farei sem Eurídice?
Aonde irei sem o meu amor?
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Eurídice! Eurídice!
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Ah! Já não espero
nem socorro, nem esperança
Nem do mundo, nem do céu!
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O que farei sem Eurídice?
Aonde irei sem o meu amor?
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(Albina)
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terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Novo livro sobre Angola - "Namibe, Terra da Felicidade"

Na capa: a misteriosa welwitschia mirabilis, só encontrável no deserto do Namibe
 
 
(CLIQUE NAS IMAGENS PARA AMPLIAR)
 
Deu recentemente entrada na Torre uma nova e imperdível publicação sobre Angola, mais especificamente uma monografia de 215 páginas dedicada à província do Namibe (ex-distrito de Moçâmedes, no tempo português), território que preenche o sudoeste do país.
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A obra, patrocinada pelo Governo Provincial do Namibe e empenhadamente apoiada pelo governador Rui Falcão, foi editada pela Chá de Caxinde (Luanda).  Contém ao longo dos textos, em excelente papel, numerosíssimas e belas ilustrações, algumas de grande raridade.
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Segundo informa a UCCLA (União das Cidades  Capitais de Língua Portuguesa), este trabalho corporiza a primeira monografia sobre uma província da Angola independente, ficando, também por isso, a constituir um marco histórico.
 
Foi lançada, pelas autoridades governamentais, na cidade capital do Namibe.
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Dama mucubal regalando-se com o seu cachimbo (foto Rurukina)
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Namibe, Terra da Felicidade teve a coordenação de Miguel Anacoreta Correia e Maria Eleutéria Ornelas, e integrou o contributo de diversos investigadores e especialistas das temáticas abordadas, alguns deles nascidos no Namibe.
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A capital Namibe (ex-Moçâmedes), anos 60
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Com um Prefácio do governador do Namibe, Rui Falcão, e uma Introdução de Miguel Anacoreta Correia, o trabalho divide-se em 4 partes:
 
1.ª PARTE - MEIO FÍSICO, RECURSOS NATURAIS, POPULAÇÃO
 
2.ª PARTE - HISTÓRIA - DAS ORIGENS À INDEPENDÊNCIA
 
3.ª PARTE - NAMIBE: UM OLHAR NO PRESENTE
 
4.ª PARTE - UM OLHAR PARA O FUTURO
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As vaidosas himbas são rainhas de elegância e de beleza (foto Dror Yalon)
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Os textos de Namibe, Terra da Felicidade tiveram as seguintes autorias (com as respectivas págs. entre parêntesis):
 
1.ª PARTE
Fauna e Flora (25-26) - Prof. Augusto Manuel Correia
Grupos Humanos no Namibe (43-48) - Dr. Ildeberto Madeira
Mbali, Quimbares. Kimbar. Tyimbari (48-49) - Dr. Ildeberto Madeira
 
2.ª PARTE
Das Origens à Independência (53-102) - Dr. José Bento Duarte
Da Independência à Actualidade (103-104) - Gen. H. Dolbeth e Costa
 
3.ª PARTE
Urbanismo (121-133) - Arq.º Vasco Morais Soares
O Namibe nas Letras (162-168) - Dr. Manuel Rodrigues Vaz
Centro de Estudos do Deserto (168-170) - Dr. Samuel Aço
Agricultura e Pecuária (174-178) - Prof. Augusto Manuel Correia
 
4.ª PARTE
Agricultura e Pecuária (188-192) - Prof. Augusto Manuel Correia
 
(Os textos não referenciados foram elaborados pela equipa de coordenação)
 
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O maravilhoso deserto do Namibe
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Como se diz na Introdução, Namibe, Terra da Felicidade "pode ser particularmente útil aos estudantes dos ensinos secundários e superior e seus professores, para funcionários públicos com responsabilidades de enquadramento e, também, para responsáveis por organizações da sociedade civil da Província; e ainda para todos aqueles que, por esta ou por aquela razão, têm interesse em melhor conhecer o Namibe, nomeadamente empresários ou candidatos a investidores, ou, apenas, turistas ou amigos de viajar pela leitura".
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São abundantes os pontos de interesse deste magnífico trabalho, desde o pequeno ao grande facto, da pequena à grande História... Apenas a título de exemplo, ficam apontamentos que nos permitem distinguir o que há muito é confundido (o deserto do Namibe não é o deserto do Kalahari); a província do Namibe (parte integrante de Angola) nada tem a ver com a Namíbia (país independente confinante com o sul de Angola), embora ambas partilhem o imenso deserto do Namibe.
 
É defendida a sugestiva e consistente tese de que as cavernas e furnas do Namibe terão sido, com outros lugares de África, um dos berços da Humanidade; há ainda as invasões dos povos hereros (mucubais, himbas, etc.) que aqui acharam os primitivos habitantes (cuissis, kuepes); os navegadores portugueses do século XV, com a tese de que a desgraça política de Diogo Cão, o herói português, terá nascido defronte das terras do Namibe; as produções literárias de um surpreendentemente vasto leque de autores nascidos no território; as semelhanças urbanísticas da capital com as urbes portuguesas do Algarve; a arte inesperada e impressiva dos Mbali; os dramas e as glórias das primeiras colonizações e da luta pela independência; e muitos, muitos outros elementos de interesse desta terra fascinante entre as mais fascinantes...
 
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O belo sorriso de um povo bom e inesquecível (foto Malanjino)
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Segundo informações que recolhemos,  os milhares de exemplares de Namibe, Terra da Felicidade destinaram-se essencialmente a Angola.
 
Em Portugal, os poucos exemplares restantes podem ser ainda encomendados aos balcões da FNAC.
 
Para entregas mais rápidas (prazo de 1 dia) é recomendado o contacto online com o distribuidor oficial português, Perfil Criativo, bastando escrever no motor de busca: Perfil Criativo. Loja. Namibe.
 
Se preferir o contacto por correio electrónico, use   info@perfilcriativo.net
 
Preço de venda ao público: € 20.
 
Boa e proveitosa leitura!
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terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Feliz Natal

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(Coros do povo Wagogo, África, num trabalho de Bovenga Na Muduma)
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quarta-feira, 23 de julho de 2014

Cixi, de Concubina a Imperatriz da China

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A Quetzal lançou recentemente a obra A Imperatriz Viúva - Cixi, a Concubina Que Mudou a China, um texto fascinante de Jung Chang (celebrada autora de Cisnes Selvagens).
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Cixi (1835-1908) é considerada por muitos a mulher mais importante da História da China. Proveniente de uma das mais antigas e ilustres famílias manchus, foi seleccionada, com apenas dezasseis anos, para fazer parte do numeroso harém do imperador chinês Xianfeng.
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Na corte, o seu nome próprio nem sequer ficou registado na altura, pois era considerada demasiadamente insignificante para justificar tal assento. Figurou, apenas, como "mulher da família Nala". Contudo, em menos de dez anos, esta jovem decidida abriu caminho para se tornar governante da China. Após a morte do imperador, tomou o trono aos regentes nomeados por ele e, durante décadas, até à sua morte (1908) teve nas mãos o destino de um terço da população mundial.
Cixi, também pronunciado Tzu Hsi, foi o seu nome honorífico, significando "amável e alegre".
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Cixi reinou em tempos historicamente conturbados, percorridos por grandes crises internas e externas. Mas conseguiu transformar profundamente o país, desenvolvendo todos os sectores e infraestruturas indispensáveis a um Estado moderno: indústria, caminhos-de-ferro, electricidade e comunicações.
Desempenhou também um papel importante em reformas sociais, abolindo, por exemplo, práticas de extrema crueldade, como a morte através dos mil golpes ou a tradição de ligar brutalmente os pés das mulheres.
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Sobre esta obra, escreveu The Economist: "A história extraordinária de Cixi tem todos os elementos de um conto de fadas: é bizarra, sinistra, triunfante e terrível".
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Por seu turno, o New York Magazine comentou: "Este livro de Jung Chang mergulha numa figura verdadeiramente fascinante: uma ferina consorte imperial que governou por detrás dos tronos de dois e sucessivos imperadores chineses e que conduziu a China até ao século XX. Uma história maquiavélica narrada pela autora da biografia definitiva de Mao".
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Leitura altamente recomendada pela Torre.
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JUNG CHANG, A Imperatriz Viúva - Cixi, a Concubina Que Mudou a China, Quetzal Editores, Lisboa, 2014 (520 pgs.).
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domingo, 13 de julho de 2014

Vai em Frente, Brasil: Levanta, Sacode a Poeira, Dá a Volta por Cima!

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Deixemos de lado a derradeira partida do Brasil, contra a Holanda, pois tratou-se de mero complemento da anterior, daquela que verdadeiramente conta, a do 1-7 frente à Alemanha. E a primeira ideia a reter é a de que, por mais traumatizante que tenha sido o jogo frente aos germânicos, o Brasil não deixou de ter potencialmente os melhores jogadores e o melhor futebol do mundo! Não existe entre os dois times, de modo nenhum, a diferença de qualidade que o resultado parece reflectir.
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Sucedeu ao Brasil, em versão um pouco mais cruel, mas por razões semelhantes, o que havia já ocorrido com Portugal: ambos os times cometeram o suicídio táctico de jogar abertamente com este adversário, concedendo-lhe espaços amplos, autênticas "avenidas", sem os quais a máquina germânica, comprovadamente, enguiça.
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Os alemães possuem um futebol eficaz - até demolidor - se lhes oferecerem ensejo para tal. Mas, colocada perante barreiras tácticas inteligentes e disciplinadas, a sua equipa não evidencia grande imaginação e é pouco versátil. Diante de colectivos compactos, com zonas de meio-campo convenientemente preenchidas, que defendam bem e lancem contra-ofensivas velozes e controladas, demonstram enormes dificuldades e caem num futebol recorrente, estereotipado, pobre de ideias e, por isso mesmo, ultrapassável.
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Afinal, o que fez de grandioso essa Alemanha tão enaltecida pelo seu futebol?
Para além das goleadas, muitíssimo consentidas, a Portugal e ao Brasil (irmãos até na ingenuidade de seu sistema de jogo), a soberba Alemanha ganhou dificilmente aos Estados Unidos (1-0) e França (1-0) e não conseguiu vencer, dentro dos 90 minutos regulamentares, nem o Gana (empate, 2-2) nem a Argélia (0-0 - o triunfo de 2-1 surgiu apenas no prolongamento)!
Na final, contra a Argentina, de novo um empate (0-0) no tempo regulamentar, e só as oportunidades perdidas e o estoiro físico dos argentinos lhes permitiram um triunfo injusto.
Onde, portanto, a máquina perfeita, demolidora, irresistível?
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O Brasil, para além da ausência de Neymar e de Thiago Silva, foi vítima do seu futebol aberto, generoso, alegremente individualista, quer dizer, do futebol que não pode, ou não deve ser jogado contra times frios e calculistas, de sistema geométrico e aproveitador, como têm a Alemanha e a Holanda. Recordem a Espanha, anterior campeão do Mundo, que resolveu abandonar a segurança do seu sistema táctico "tipo Barcelona" e jogar aberto com a Holanda, terminando esmagada por 1-5.
O Brasil foi ainda vitimado pela pressão emocional decorrente da "obrigação" de ter de ganhar por jogar em sua casa. Só uma quebra desse tipo pode explicar o que se passou na partida fatídica: sofrer 4 tentos em 6 minutos é absolutamente anormal para qualquer equipa, mesmo amadora, quanto mais para uma selecção como a brasileira!
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A Argélia, por exemplo, ensinou como se deve jogar contra a Alemanha - e a Argélia não é uma equipa de estrelas, joga inclusive com vários futebolistas de equipas secundárias, nomeadamente de Portugal.
Na partida Alemanha-Argélia (empate de 0-0, em 90 minutos), chegou a ser confrangedora a inépcia dos centro-campistas e atacantes germânicos diante daquela muralha verde, de onde brotavam, de vez em quando, contragolpes venenosos e perigosíssimos que estiveram à beira de provocar o primeiro grande escândalo do Mundial! Valeu aos germânicos, em diversas ocasiões, um goleiro como "São" Neuer...
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Na Europa, ainda há bem pouco tempo, o Real Madrid igualmente demonstrou na Champions League, diante do Bayern de Munique, como se deve fazer. O Bayern integra a maior parte dos titulares desta selecção alemã (a começar por "São" Neuer), mas, confrontado com o denso meio-campo e os contra-ataques madrilenos, acabou humilhado, em sua casa, por um contundente 0-4, que poderia facilmente ter evoluído para números impensáveis caso os espanhóis tivessem concretizado mais algumas das suas numerosas oportunidades.
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Não sei se Felipe Scolari teria coragem e margem suficientes, perante a exigente torcida brasileira, para impor, em certos jogos (como esse, diante da Alemanha), um futebol colectivo de contenção, compacto, astucioso, ficando de tocaia para vibrar o golpe - um futebol semelhante, afinal, ao que hoje praticou a Argentina e que transformou a Alemanha, durante a maior parte do tempo, numa equipa repetitiva, enervada, ineficaz e vulgar. Mas não tenham grandes dúvidas de que, no processo de reorganização do futebol brasileiro que decerto se vai seguir, o caminho passará também por aí. O Brasil tem de reaprender a jogar colectivamente para poder de novo impor-se ao "cinismo táctico" dos seus principais rivais.
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O golpe sofrido foi tremendo, mas acredito que desta derrota nascerá em breve uma selecção vigorosa e imparável. O Brasil é, pelas suas potencialidades, o país mais capaz de evoluir para um futebol pragmático e eficaz, apto a defrontar os modernos sistemas europeus, ou quaisquer outros, sem abdicar da fantasia e do perfume incomparável do seu maravilhoso futebol.
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Por isso, vai em frente, Brasil. Como disse a Presidente Dilma - e como diz a canção de Beth Carvalho -  "levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima!".
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Para alegria dos Brasileiros, dos Portugueses e de todos os apreciadores do futebol com magia! 
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Beth Carvalho - "Volta por Cima"
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domingo, 6 de julho de 2014

Palavras de Ontem - Rachel de Queiroz (Brasil)

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Na edição de 7 de Maio de 1960, na revista brasileira O Cruzeiro (capa acima), a grande jornalista Rachel de Queiroz publicou a seguinte crónica (respeita-se a grafia original):
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O drama da África do Sul
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Já tenho ouvido de muito brasileiro ingênuo ou mal-aprendido o comentário de que foi uma pena não se terem os flamengos fixado definitivamente no Brasil. Ah, outro galo nos cantara! Teríamos progresso, futuro e não êsse descalabro ibérico que nos legou a colonização portuguêsa...
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Pois isso que agora acontece na África do Sul é uma amostra do que seria de nós se a insurreição pernambucana não houvesse pôsto fora do Nordeste o invasor holandês. Flamengo pode ser muito bom na terra dêle. (Não posso dizer a frase corriqueira - que êles podem ser bons para as negras dêles, porque é para as negras dêles, evidentemente, que êles são péssimos,...).
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Flamengo tem altas virtudes, mas é um fato que sua atuação colonial durante mais de três séculos e em vários continentes demonstrou que êle não sabe conviver em harmonia com povos de origem racial diferente da sua. E eis por que tenho um certo mêdo dessas colônias holandesas que ora se estabelecem no Brasil. Muito boas, muito limpas, muito trabalhadeiras - mas não se estará formando em cada uma delas um quisto racial insolúvel, uma minoria intolerante e inassimilável?
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Ontem alguém perguntava: que é que faz com que um povo aparentemente instruído, polìticamente adiantado, acredite estùpidamente que nasceu para senhor, que a côr da sua pele e a conformação do seu nariz o fadam a desprezar e escravizar outros homens que têm pele e nariz diferentes?
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A resposta é simples: um dos aspectos mais invariáveis da natureza humana é a capacidade de acreditar sinceramente e até mesmo fanàticamente, naquilo que lhe convém. Se eu preciso de um negro para trabalhar no meu roçado ou na minha mina, imediatamente me convenço que o bem e o destino do negro não é vaguear à toa nos matos, mas plantar a minha cana ou cavar a minha mina. Para a mina ou para o eito é que Deus o pôs no mundo, não para uma inútil liberdade.
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Graças a êsse mecanismo da mente humana, as maiores monstruosidades se praticam - e sinceramente - em nome do bem. Êsse horrendo Hendrik Verwoerd, com as suas duas balas encravadas no rosto, provàvelmente se considera o mártir de uma causa santa. Todos sofremos a necessidade instintiva de praticar coisas certas, ou pelo menos de receber a aprovação da demais Humanidade, ante o que praticamos.
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Assim, se eu exerço um ato de violência contra outro ser humano, a minha censura, a minha consciência, o meu anjo-da-guarda, seja lá o que fôr, imediatamente me acusa pelo crime cometido. E eu, então, que não quero renunciar às vantagens da minha violência, mas também não quero ser chamado criminoso, invento para minha justificativa um motivo irretorquível, retumbante, se possível de caráter religioso, e portanto irrespondível, sob pena de sacrilégio.
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No caso do negro, falado acima: em vez de reconhecer que o escravizo, convenço-me de que o negro é um irresponsável, incapaz de viver sem a minha ajuda; o trabalho a que o forço é a disciplina indispensável ao seu próprio bem; sôlto, êle ficaria entregue à miséria, à bebida, ao pecado. No fim acabo me proclamando a benfeitoria do negro, destinada por Deus à sua salvação... Uma vez convencida disso, torno-me invulnerável. Crio mesmo um dogma em tôrno daquela convicção. Se sou govêrno, crio lei a respeito e faço ampla catequização. E todos os que se beneficiam do meu regime passam também a acreditar fanàticamente, e, o que é pior, sinceramente, na honestidade dos nossos postulados.
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Se não fôsse artifício da mente humana, muito mistério social não teria explicação. Êsses brancos da África do Sul, que friamente fazem massacrar negros desarmados, provàvelmente não são assassinos contumazes; talvez até sejam bons pais de famílias e tementes do que êles consideram a lei de Deus. O Sr. Jânio Quadros, comentando outro dia o drama da África do Sul, disse numa frase generosa que não compreendia como é que naquela terra havia igrejas. A mim parece que a explicação é esta: êles se convenceram do seu direito divino sôbre os negros, convenceram-se de que a Providência os destinou a oprimir e explorar aquela raça nascida para serva dos brancos. E, em vista disso, sentem-se em paz consigo, e ainda pedem trôco a Deus pelas suas boas obras.
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Fenômeno idêntico explica por que o Sr. Salazar, homem de rígida formação religiosa e celebrada moral privada, chefia uma ditadura de opressão e impostoria; é que Salazar se convenceu de que é o desejado, o Messias da gene portuguêsa. E quem se revolta contra a pessoa ou os privilégios do salvador é culpado não de oposição a um homem fanático e mau, mas de atentado contra a própria nacionalidade. Assim se justificaria Hitler nos paroxismos da sua loucura assassina; assim se justificam os brancos racistas dos Estados Unidos. Isso explica por que nas guerras ambos os beligerantes estão certos de que Deus está do seu lado.
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Aliás, assim também se justifica qualquer criminoso.
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Todos têm a sua alegação perfeita. Ninguém diz que matou ou roubou porque é mau, degenerado ou louco. O sujeito que isso confessasse a si mesmo, provàvelmente se suicidaria: dentro de tal evidência ser-lhe-ia impossível continuar a viver consigo próprio.
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Foi o que aconteceu com Judas, entre outros.
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Rachel de Queiroz (1910-2003)
 
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Sophia e o Ditador

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O Velho Abutre
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O velho abutre é sábio e alisa as suas penas
A podridão lhe agrada e seus discursos
Têm o dom de tornar as almas mais pequenas
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Sophia de Mello Breyner Andresen In Livro Sexto, 1962
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sexta-feira, 4 de julho de 2014

Sophia de Mello Breyner, a Esquerda e a Direita

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Nestes Últimos Tempos
 
Nestes últimos tempos é certo a esquerda fez erros
Caiu em desmandos confusões praticou injustiças
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Mas que diremos da longa tenebrosa e perita
Degradação das coisas que a direita pratica?
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Que diremos do lixo do seu luxo —  de seu
Viscoso gozo da nata da vida — que diremos
De sua feroz ganância e fria possessão?
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Que diremos da sua sábia e tácita injustiça
Que diremos de seus conluios e negócios
E do utilitário uso dos seus ócios?
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Que diremos de suas máscaras álibis e pretextos
De suas fintas labirintos e contextos?
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Nestes últimos tempos é certo a esquerda muita vez
Desfigurou as linhas do seu rosto
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Mas que diremos da meticulosa eficaz expedita
Degradação da vida que a direita pratica?
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(Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Nome das Coisas)
 
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quinta-feira, 3 de julho de 2014

Nestes Dias de Sophia - Manuel Bandeira, Sophia de Mello Breyner e as Três Mulheres do Sabonete Araxá

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Num dia de 1931, em Teresópolis, o poeta brasileiro Manuel Bandeira assinou este poema:
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Balada das Três Mulheres do Sabonete Araxá
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As três mulheres do sabonete Araxá me invocam, me bouleversam,
[me hipnotizam.
Oh, as três mulheres do sabonete Araxá às 4 horas da tarde!
O meu reino pelas três mulheres do sabonete Araxá!

Que outros, não eu, a pedra cortem
Para brutais vos adorarem,
Ó brancaranas azedas,
Mulatas cor da lua vem saindo cor de prata
Oh celestes africanas:
Que eu vivo, padeço e morro só pelas três mulheres do
[Sabonete Araxá!
São amigas, são irmãs, são amantes as três mulheres do Sabonete Araxá?
São prostitutas, são declamadoras, são acrobatas?
São as três Marias?

Meu Deus, serão as três Marias?

A mais nua é doirada borboleta.
Se a segunda casasse, eu ficava safado da vida,
[dava pra beber e nunca mais telefonava.
Mas se a terceira morresse... Oh, então nunca mais
[a minha vida outrora teria sido um festim!
Se me perguntassem: Queres ser estrela? queres ser rei?
[queres uma ilha no Pacífico? um bangalô em Copacabana?
Eu responderia: Não quero nada disso, tetrarca.
[Eu só quero as três mulheres do sabonete Araxá:

O meu reino pelas três mulheres do sabonete Araxá!
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Num outro dia, bastante mais tarde, a nossa Sophia de Mello Breyner Andresen celebrou assim esse saudoso poema da sua juventude:
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Manuel Bandeira
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Este poeta está
Do outro lado do mar
Mas reconheço a sua voz há muitos anos
E digo ao silêncio os seus versos devagar

Relembrando
O antigo jovem tempo quando
Pelos sombrios corredores da casa antiga
Nas solenes penumbras do silêncio
Eu recitava
"As três mulheres do sabonete Araxá"
E minha avó se espantava

Manuel Bandeira era o maior espanto da minha avó
Quando em manhãs intactas e perdidas
No quarto já então pleno de futura
Saudade
Eu lia
A canção do "Trem de ferro"
E o "Poema do beco"

Tempo antigo lembrança demorada
Quando deixei uma tesoura esquecida nos ramos da cerejeira
Quando
Me sentava nos bancos pintados de fresco
E no Junho inquieto e transparente
As três mulheres do sabonete Araxá
Me acompanhavam
Tão visíveis
Que um eléctrico amarelo as decepava

Estes poemas caminharam comigo e com a brisa
Nos passeados campos da minha juventude
Estes poemas poisaram a sua mão sobre o meu ombro
E foram parte do tempo respirado.
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quarta-feira, 2 de julho de 2014

Sophia a Partir de Hoje no Panteão Nacional

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Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), patriota, combatente da liberdade, defensora dos oprimidos, fascinante personalidade e genial poetisa portuguesa, foi hoje trasladada para o Panteão Nacional, em Lisboa, num justíssimo agradecimento do País à sua obra imorredoira.
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Miguel Sousa Tavares, brilhante escritor e jornalista, dedicou-lhe num dos seus livros o texto que abaixo se transcreve, o qual fica como uma das mais belas e comoventes homenagens de um filho a sua mãe.

Emerge deste retrato tocante uma Sophia tão viva, tão sem idade, tão cativantemente humana e, ao mesmo tempo, tão acima das coisas vulgares e previsíveis, que apetece imaginá-la doravante a descer em espírito à sua derradeira morada terrena, dançando com leveza nas noites misteriosas do panteão adormecido, recitando novos, inesperados e deslumbrantes poemas através de todas as eternidades... 

(Cavaleiro da Torre)
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E ela dança
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Às vezes, quando a casa estava adormecida à noite, ela dançava pela sala fora, tal qual como escreveu («bailarina fui mas nunca bailei»). Às vezes, convencia-se que havia ladrões em casa e acordava-me do sono para espreitar debaixo da minha cama, e às vezes havia ladrões a sério, com cara de assassinos e crachá da PIDE, que chegavam pela alvorada do dia, mas verdadeiramente ela não tinha medo dos ladrões nem dos esbirros do «velho abutre»: só tinha medo de fantasmas.
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Naquela casa, aprendemos cedo duas coisas sobre a poesia. A primeira, era que os poetas eram todos uns personagens extraordinários, que apareciam a horas imprevistas e diziam coisas surpreendentes. De todos, o mais fantástico era o Ruy Cinatti, que nos convenceu que era o nosso irmão mais velho, regressado de outra vida em Timor e que esteve à beira de conseguir transformar-nos em guerrilheiros contra a precária disciplina familiar. Vinham e iam constantemente poetas tristes ou alegres, cerimoniosos ou tumultuosos e até um, o Ruy Belo, que me levava à Luz ver o Benfica e jogava futebol comigo no jardim.
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A segunda coisa sobre poesia que aprendemos é que a poesia é para ser dita e para ser escutada: é oral, não cabe nos livros. Eu não sabia nada de aritmética, nem de botânica ou de mineralogia mas, aos dez anos, já tinha aprendido, de ouvido, a recitar sonetos de Shakespeare em inglês do século XVI, ou o «Erl König», do Goethe, em alemão. E quando ela trouxe para casa um disco com poemas do Lorca recitados em espanhol pela Germaine Montero, ouvi-o tantas, tantas vezes, que fiquei a saber de cor o imenso «Llanto por Ignácio Sanchez Mejia».
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À mesa, entre a sopa e o prato principal, dentro de um automóvel a caminho do sul ou na missa das 7 da tarde na Igreja da Graça, de repente ela começava a recitar poesia com a mesma naturalidade com que os outros falavam de coisas triviais ou respondiam em latim ao «orate, frates!» do padre. Às vezes, naquele terror que as crianças têm que os pais pareçam estranhos em público, apetecia enfiarmo-nos pelo chão abaixo quando, à mesa de um café no Chiado, ou numa loja, em plenas compras de Natal, ou caminhando connosco pela rua de mãos dadas (por vezes, distraída, perdia-nos), ela começava a recitar poesia em voz alta, como se o mundo inteiro à sua volta lhe fosse de repente absolutamente alheio.
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Um dia, no eléctrico a caminho de casa, ela fixou-se num letreiro, por cima de uma janela, que rezava assim: «se alguma janela o incomoda, peça ao condutor que a feche». E então, no meio daquele silêncio envergonhado dos passageiros, que fingem não ver e não se ouvir uns aos outros, ecoou a voz dela, clara e silabada, recitando um poema: «se alguma janela o incomoda, peça ao condutor que a feche e que nunca mais a abra.»
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A mim, todavia, ensinou-me o mais importante de tudo: ensinou-me a olhar. Ensinou-me a olhar para as coisas e para as pessoas, ensinou-me a olhar para o tempo, para a noite, para as manhãs. Ensinou-me a abrir os olhos no mar, debaixo de água, para perceber a consistência das rochas, das algas, da areia, de cada gota de água. Ensinou-me a olhar longamente, eternamente, cada pedra da Piazza Navone, em Roma, sentados num café, escutando o silêncio da passagem do tempo. Fez-me mergulhador e viajante, ensinou-me que só o olhar não mente e que todo o real é verdadeiro. Quem ler com atenção, verá que esta é a moral que atravessa toda a sua escrita.
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A outra lição decisiva foi a da liberdade. Não só a liberdade física, não só a liberdade na luta pela justiça, «num sítio tão imperfeito como o mundo», mas ainda a liberdade na busca de um caminho próprio onde as coisas tenham uma ética e façam sentido e, acima de tudo, a liberdade da nossa própria solidão. Prémios, condecorações, homenagens, são-lhe de tal forma alheios que ninguém mais o entende. Dêem-lhe, sim, silêncio e tempo, manhãs como a «manhã da praça de Lagos» e noites com «jardins invadidos de luar». E ela dançará. Ao longo das sílabas dos poemas, como dançava na minha infância.” (*)
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(*) Miguel Sousa Tavares, in “Não Te Deixarei Morrer, David Crockett”.
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Esta Gente
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Esta gente cujo rosto
às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova

E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
De um tempo justo
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. . (*) Sophia de Mello Breyner (Do livro GEOGRAFIA, 1967)


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domingo, 22 de junho de 2014

Missa Crioula


 
 Genial composição de Ariel Ramirez ,
aqui dirigida pela magnífica Rebecca Lord.
(Clique duas vezes na imagem para ampliar)
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domingo, 1 de junho de 2014

Seguro no ringue - O último combate

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"Costa saltou contra Seguro.
Se calhar ele pensava que o secretário-geral se encolhia...
Qual quê! António José Seguro subiu para o ringue, saltitando e dando ganchos no ar, com a pose de boxeur que se lhe conhece, queixo firme e discurso claro: "A minha consciência diz-me que eu tenho de continuar a lutar pelos valores e pelos princípios e habituem-se porque isto mudou."
Juro, ele disse isto, ontem. Na mesma frase, "tenho de continuar a lutar pelos valores" e "habituem-se porque isto mudou"!
No boxe chama-se a isso jabs, sucessão de golpes, esquerda-direita...
Em discurso parece contraditório, mas agora António Rocky Seguro quer passar a imagem de durão.
Ele adora desafios impossíveis, já antes queria passar por líder.
O outro quis encostá-lo às cordas do congresso. Com um jogo de pernas notável, o nosso Belarmino do Rato lançou-se para as primárias.
Eu explico o que isso quer dizer em boxe.
Suponhamos que o pugilista receia um KO, porque reconhece que o adversário é mais forte. Então, refugia-se nas cordas, dança, enfim, compra tempo.
Com um passado de ganhar por pouco, Seguro quer agora ganhar muito. Muito tempo.
O outro atrás dele para uma luta leal e ele às voltinhas à espera que o gong o salve.
Vocês vão dizer-me: "Mas ele vai ficar mal visto..."
Não sei. O erro mais visível de Seguro era ter o título de líder e sê-lo pouco.
 Agora, a fugir à luta, ele já ganha coerência. Já é ele.
Na política a coerência é importante." (*).(
(*) Ferreira Fernandes, Seguro à espera que o ‘gong’ o salve, in Diário de Notícias, Lisboa, 1-Junho-2014.
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