segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Entonces, dónde estabas? (Pablo Neruda)

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Hemos perdido aún este crepúsculo.
Nadie nos vio esta tarde con las manos unidas
mientras la noche azul caía sobre el mundo.
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He visto desde mi ventana
la fiesta del poniente en los cerros lejanos.
A veces como una moneda
se encendía un pedazo de sol entre mis manos.
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Yo te recordaba con el alma apretada
de esa tristeza que tú me conoces.
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Entonces, dónde estabas?
Entre qué gentes?
Diciendo qué palabras?
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Por qué se me vendrá todo el amor de golpe
cuando me siento triste,
y te siento lejana?
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Perdemos ainda este crepúsculo
Ninguém nos viu esta tarde de mãos dadas
enquanto a noite azul caía sobre o mundo.
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Vi da minha janela
a festa do poente nos cerros longínquos.
Às vezes, como uma moeda,
acendia-se um pedaço de sol entre as minhas mãos.
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Eu recordava-te com a alma apertada
por essa tristeza que tu me conheces.
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Nesse momento, onde estavas?
Entre que gentes?
Dizendo que palavras?
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Porque me virá todo o amor de repente
quando me sinto triste
e te sinto distante?
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sábado, 28 de agosto de 2010

A Fundação de Moçâmedes (Namibe), no Sul de Angola, por uma Colónia Vinda do Brasil (Ano de 1849)

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Mapa de Angola. Moçâmedes corresponde ao actual Namibe (área assinalada)
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Nota Prévia
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No longo e difícil processo de consolidação territorial da sua colónia de Angola, os Portugueses enfrentavam, a meio do século XIX, o desafio de cobiçosas potências estrangeiras, desejosas de os substituírem naquelas paragens.
É certo que a presença lusitana em Angola datava de 1482, ano em que os navios de Diogo Cão chegaram à embocadura do rio Zaire e se estabeleceram relações, ao princípio amistosas, com o povo Bacongo.
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Contudo, mais de três séculos depois, a ocupação do território, com a respectiva delimitação de fronteiras, estava ainda muito longe daquilo que veio a ser já no século XX (mapa acima).
Os Portugueses tinham nesta altura duas grandes preocupações: a ocupação da costa sul, para baixo de Benguela, e a subsequente penetração para o interior, praticamente dominado pelas tribos africanas (no Sul, e de ocidente para leste, essas tribos pertenciam sobretudo aos grupos Herero, Nhaneca-Humbe e Ambós).
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Baía de Moçâmedes (Namibe)
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A zona de Moçâmedes, posteriormente baptizada de Namibe, era vital para os Portugueses.
Com efeito, não se poderia pensar em progredir para leste, com ideias de ocupação do território, sem possuir à retaguarda, junto ao mar, uma posição solidamente estabelecida.
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A preocupação começara umas décadas antes, com o envio de várias expedições de exploração e reconhecimento às paragens meridionais.
As mais famosas foram as que ordenou o governador de Angola, barão de Moçâmedes, em 1785 (uma por mar e duas por terra).
Mais tarde, em 1839, veio uma corveta comandada pelo capitão-tenente Pedro Alexandrino da Cunha, que estabeleceu contacto com os povos da zona (Cuvales, do grupo Herero).
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Foi decidida a instalação de uma colónia em Moçâmedes, encravada entre as águas da baía e o deserto. Chegaram alguns comerciantes, oriundos sobretudo de Benguela e de Luanda. Nasceram feitorias na praia. E, em 1840, decidiu-se a construção da fortaleza de S. Fernando.
O impulso não tardou contudo a afrouxar, sobretudo devido à escassez de europeus. Parecia fora de dúvida que, sem uma qualquer reviravolta, dificilmente poderiam os Portugueses sonhar com a transformação da baía na estratégica rampa de lançamento para o interior.
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Welwitschia Mirabilis, unicamente existente no deserto do Namibe
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Foi então que, de Pernambuco, no Brasil, chegou uma petição às autoridades lusitanas.
Algumas dezenas de Portugueses, queixando-se de problemas de convívio com grupos de nativistas brasileiros (ocorridos posteriormente à independência daquela antiga colónia portuguesa, datada de 1822), solicitavam que fosse providenciada a sua retirada para qualquer ponto do império português.
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Agarrando-se ao apelo desses candidatos a colonos verdadeiramente tombados dos céus, o Governo ofereceu-lhes o embarque para a longínqua baía angolana, onde, amparados pelas autoridades, deveriam fundar uma colónia agrícola.
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Assim que os peticionários manifestaram o seu assentimento, Lisboa agiu com de­termina­ção e desusada celeridade, despachando para águas brasileiras o brigue de guerra Douro.
No dia 23 de Maio de 1849 o navio saiu do Recife de Pernambuco rumo às costas de África, escoltando a barca Tentativa Feliz.
Seguiam a bordo, nessa primeira leva, cento e setenta e quatro refugiados.
Os Portugueses estavam prestes a apresentar-se em força às portas dos desertos meridionais de Angola.
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Os Colonos Vindos do Brasil
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"(...) Em Lisboa, nas sessões do Parlamento de 12 e 14 de Junho de 1849, discute-se finalmente a proposta que autoriza o Governo a fundar uma colónia agrícola em Moçâmedes, no Sudoeste de Angola, e a transferir para lá os refugiados do Brasil.
Quando estes vogam já pelo Atlântico há cerca de três semanas, a Oposição resol­ve bater-se com afinco contra o projecto. Regateia até à exaustão a verba de dezoi­to contos de réis metálicos consagrada ao empreendimen­to. Um deputado salta com o Alentejo para o debate e proclama que todo aquele esforço seria muito mais bem empregado nas planícies agrestes do Sul português, onde, ainda por cima, há ca­rência de braços para o trabalho.
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O ministro abespinha-se e replica que a entidade menos própria para influir sobre quaisquer cidadãos para irem para esta ou aquela região é o Governo. Quanto às intenções dos portugueses de Pernambuco, fica de uma vez por todas a saber-se que eles não desejam retornar à Pátria para se meterem a colonizar o Alentejo. Provavelmente não fa­zem finca-pé quanto à ida para Moçâmedes: mas o que sem dúvida pretendem é virar costas ao Brasil e pas­sar-se para África.
A proposta acaba aprovada por maioria de votos.
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A muitas centenas de milhas destas discussões inflamadas, a barca Tentativa Feliz, escoltada pelo brigue de guerra e pejada de gente que mal pode mexer-se no tombadilho atravancado de bagagens, continua a sua carreira para Angola. Empurradas por ventanias contrárias ou tolhidas pela brusca calmaria de verdadei­ros mares de leite, as embarcações começam a atrasar-se.
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Para agravar as coisas, declara-se entre os passageiros um surto de varíola. Cinquenta e seis pes­soas são atingidas pela doença e jazem desfiguradas pelas pústulas. O médico do brigue anda numa roda-viva entre os dois barcos. Auxiliam-no o patrão da barca, um bar­beiro e o chefe da colónia de emigrantes. Mas a epidemia cedo ofe­rece à escuridão dos abismos atlânticos os corpos de oito vítimas - três adultos e cinco crianças.
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No auge do infortúnio, de olhos perdidos na espuma deslizante das vagas ou em remo­tos horizontes de esperança, os emigrantes entoam os seus vi­bran­tes hinos de fé. Depositam apesar de tudo uma confiança inquebran­tável na sua estrela. E, também, em Bernardino Castro, o chefe carismático que os trouxe até ali.
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Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, um beirão de Nogueira do Cravo, povoação vizinha de Oliveira do Hospital, vai nos quarenta anos à data da viagem.
É um homem moreno e seco, de sulcos vincados no rosto ossudo e grave. Possui cabelos escuros e lisos, que contrastam com a fina barba de colar, precoce­mente embranquecida, que lhe escorre de orelha a orelha por baixo do queixo. A sisudez da fisionomia atenua-se com o fulgor de uns olhos miúdos e insinuantes.
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Este emigrante de marcada personalidade tem vivido uma existência rocambo­lesca. Aos vinte anos é aluno de leis em Coimbra, mas passa fugazmente pelos bancos universitários. Seduzido pela causa do rei Miguel, integra como tenente de caçado­res um contingente de voluntários e mergulha a fundo nas lutas em que libe­rais e absolutistas se chacinam mutuamente.
Após a capitulação de Miguel, Bernardino compromete-se num plano que visa devolver o trono ao soberano exi­lado. Descoberta a conspiração, furta-se por uma unha negra à captura e esgueira-se das montanhas da Beira para Lisboa.
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Em 1839, desfeitas as ilusões, asila-se no Brasil, em Recife de Pernambuco, onde ganha a vida como professor de um colé­gio. Dado às letras, publica um romance - Nossa Senhora de Guararapes - e uma arrojada História Geral, em seis volumes, que remexe os dias da Humanidade desde as enevoadas narrativas do Antigo Testamento até à história re­cente de Portugal e do Brasil.
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É pela sua pena que o Governo português toma co­nhecimento das violências perpetradas no Brasil contra os cidadãos lusos. É ele o autor da pe­tição por essa altura dirigida a Lisboa. É ainda Bernardino quem lança entre os compatriotas de Pernambuco a entusiástica campanha da aventura africana.
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A viagem prolonga-se há mais de dois meses e não se vislumbram indícios do litoral de África.
Os emigrantes suspeitam de que se tenha deixado de contar com eles no porto de destino. Bernardino Castro conferencia com o coman­dante do bri­gue e pede-lhe que siga na dianteira a fim de prevenir o desembarque. O Douro distancia-se da Tentativa Feliz na noite de 26 de Julho.
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Os refugiados rompem agora as trevas, silenciosos e cismadores, embalados pelo marulhar das vagas contra o costado da barca. Quando nasce o dia, não há sinais do Douro nem de terra. Tornam então a elevar-se os cânticos religiosos por sobre as reverbera­ções metálicas do oceano.
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A 4 de Agosto, mortificados por setenta e quatro dias de na­vegação, os passageiros têm enfim à vista, coados pelo véu pardacento de um dia de cacimbo, os desertos fulvos das costas de Moçâmedes. Quando se internam na baía, onde paira a silhueta familiar do Douro, enxergam, com um re­colhimento an­gustiado, as fugidias pinceladas de vegetação da foz do rio Bero, a mo­notonia dos areais sem fim, o recorte severo da fortaleza de S. Fernando. Sobressaindo na de­solação, erguem-se os seus novos lares - meia dúzia de choupanas de pau-a-pique e alguns barracões de paredes de madeira e coberturas de palha.
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O desânimo dos emigrantes face ao despojamento daqueles lugares encontra al­gum consolo no calor da recepção que lhes é dispensada. Com efeito, pressen­tindo na sua chegada o novo alento de que carecem para sobreviver, os pou­cos europeus da baía submergem-nos numa onda de júbilo.
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Quando, a 5 de Agosto de 1849, os passageiros da barca tomam lugar nos batéis e iniciam o de­sembarque, o brigue salva alegremente com as suas bocas de fogo, no que é imi­tado pela artilharia da fortaleza logo que eles saltam em terra. Silvam foguetes no espa­ço, trespassando a cortina de cacimbo e estralejando, longínquos e amorteci­dos, por sobre a quietude do deserto. Na praia há abraços, risos e promessas. Soam vi­vas aos recém-chega­dos, às autoridades, à rainha Maria Segunda e a Portugal.
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Alojados nos barracões que constituiriam a sua morada provisória, e mantendo com os cuvales das vizinhanças relações de uma cordialidade distante, os colonos esquadrinharam meticulosamente os subúrbios da povoação. Procuravam os terre­nos mais aptos para as culturas. Informados das inundações periódi­cas do Bero, exteriorizaram algum optimismo sobre as possibilidades da região.
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A 16 de Agosto Bernardino Castro viajou por mar até Luanda, onde se avistou com o go­vernador-geral e conheceu Sérgio de Sousa, o primeiro governador nomeado para Moçâmedes. Com este volveu ao Sul em 12 de Outubro. No dia seguinte, Sousa tomou posse do cargo. Durante as comemorações nocturnas, as águas serenas da baía faiscaram sob o clarão dos archotes, que luziam feericamente nos esconsos desalinhados da povoação.
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A 14 de Outubro elegeu-se o Conselho Colonial de Moçâmedes, órgão consultivo do Governo, onde Bernardino Castro ganhou, natu­ralmente, assento. Repartiram-se de imediato os campos marginais do rio e tive­ram começo as lides agrícolas.
A pena de Bernardino esboça um cenário de bucólica azáfama nesses primeiros dias de efectiva ocupação do Sul de Angola pelos Portugueses:
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É um bulício, Moçâmedes; uns edificam casas na povoação que escolhe­ram para habitar; outros nas faldas da serra dos Cavaleiros, no sítio chama­do dos Namorados, e que dista uma légua; outros arroteiam terras nas Hortas; outros, no sítio da Olaria, a légua e meia de distância, mas com em­barque próximo, onde se vai fazer tijolo e telha; outros, na várzea da União, duas léguas longe daqui; outros, enfim, no vale dos Cavaleiros, que dista três léguas e que é onde se vão levantar os primeiros laboratórios sacarinos; lá se vê um carro carregado de caibros; há ali pretos conduzindo junco e tábuas; acolá, as autoridades, montadas em bois, percorrendo e medindo os terrenos; noutra parte se quebra pedra, que se vai carregando juntamente com o barro; as paredes para as casas crescem visivelmente (...) .
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Igreja de Santo Adrião, Moçâmedes (Namibe), de construção posterior à época aqui referida
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Católicos devotados, os colonos somente a 1 de Novembro de 1849 viveram o conforto espiritual da sua primeira missa em Moçâmedes.
Como não houvesse ain­da pároco na povoação, recorreu-se aos préstimos do padre Matias Rebelo, de Benguela, que se achava de passagem pela baía a bordo da corveta Oito de Julho.
Instalou-se um altar portátil numa dependência inacabada da fortaleza e a corveta forneceu uma profusão de pavilhões de cores vivas, que alegraram as paredes despidas.
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Às dez da manhã, a banda do navio abriu a marcha de um concorrido cortejo que, galgando o morro, se encaminhou com vagar solene para o templo provisório. Incorporavam-se na procissão os marinheiros e a oficia­lidade da Oito de Julho, a guarnição da fortaleza, as autoridades, os colonos e muitos dos escra­vos e libertos trazidos para a baía.
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A missa contou com a presença de convidados especiais - alguns cuvales do Giraul que estavam de visita a Moçâmedes.
Nesse dia histórico, associados àquela multidão de brancos possuídos de pia excitação, os Cuvales testemunharam, curiosos e circunspectos, os estranhos ritos litúrgicos dos seus novos vizinhos. Deleitaram-se sobretudo com as melodio­sas intervenções da banda, que sublinhavam a espaços as falas indecifráveis do celebrante.
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Terão prova­velmente sofrido um susto na altura da elevação da hóstia, quando, sem aviso, as peças da fortaleza estrondearam numa descarga súbita, en­quanto os foguetes as­so­biavam ruidosamente pelos céus da baía. Mas sentiam-se fascinados. E a impres­são que lhes causaram aqueles cerimoniais permaneceria para sempre guardada nas suas memórias.
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Fazenda dos Cavaleiros, de Bernardino de Abreu e Castro
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Não obstante as grandes esperanças iniciais, foram calamitosos os primeiros anos dos colonos de Moçâmedes. Eles não tardaram a experimentar na carne e no espírito a dolorosa dimensão da terra, plena de sortilégios e oportunidades, mas simultaneamente pródiga em amargas surpresas.
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O triénio de 1850 a 1852 foi um período de calores sufocantes e águas escassas. O leito do rio Bero - o Nilo de Moçâmedes, como lhe chamava Bernardino Castro - tornou-se numa língua de arei­as crestadas, as margens revestidas por uma crosta acastanhada de lodo velho e seco.
Os homens vagueavam abatidos por ali acima, até muitas léguas da foz. Dos céus, patrulhados por ruidosas esquadrilhas de corvos, não se despegava um sinal de chuva. Os colonos remediavam-se com as cacimbas escavadas nas proximida­des do rio ou nos quintais das residências.
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As primeiras águas, empurradas do pla­nalto, desapareceram com celeridade no chão martirizado. A colónia vacilava. Bernardino não media esforços para revigorar os ânimos, apelando à fé e à resis­tência num estilo de ressonâncias bíblicas: Só será salvo o que perseve­rar até ao fim!
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Cobertos de andrajos e com os víveres esgotados, os colonos so­breviviam graças à caridade dos seus compatriotas de Benguela e Luanda. Foi num quadro destes que a povoação viu apesar de tudo ampliada a sua população branca: a 26 de Novembro de 1850 desembarcaram na baía mais cento e sete colonos oriundos de Pernambuco. Outros núcleos, mais reduzidos, se lhes seguiram, pro­venientes do Rio de Janeiro e da Baía. Cerca de três centenas de refugiados procu­ravam agora dar corpo ao projecto português no Sul de Angola.
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Rio Bero
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As águas, abundantes, chegaram de um dia para o outro, escoadas das distantes cadeias montanhosas. Juntamente com o húmus providencial vieram na correnteza algumas exóticas novidades - carcaças de elefantes, búfalos, antílo­pes e outros animais, arrebatados ao sertão pela violência das enxurradas.
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Apareceram três ze­bras a rebolar nas águas tumultuosas, recupe­rando-se uma delas, a única que mos­trava sinais de vida.
Uma ser­pente descomunal emergiu bruscamente dos cachões de espuma amarelada como um demónio do rio e infiltrou-se, coleante e agressiva, na várzea dos Cavaleiros, a três léguas da foz, onde Bernardino de­marcara os seus terrenos. Quando o bicho investiu contra os bois espavoridos das manadas, colonos e serviçais viveram ins­tantes de sobressalto e emoção antes que conseguissem pôr cobro à ameaça.
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Das águas brotou igualmente a ressurreição de Moçâmedes.
Isso deveu-se em parte ao sucesso das fazendas ribeirinhas, onde se espraiavam a perder de vista os campos de cana-de-açúcar, algodão, tabaco, vinhas e árvores de fruto.
Progrediu também a indústria do charque, carne salgada e seca pelos sistemas uru­guaio e brasileiro.
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Alguns moradores meteram-se esperançosamente aos caminhos do mar e retornaram com os barcos a transbordar. Os quintais cobriram‑se de estrados de caniço, onde o peixe secava exalando um cheiro acre.
A baía passou a ser procu­rada por embarcações ávidas de géneros frescos, predominando os baleeiros norte-americanos que devassavam os refúgios dos cetáceos entre a costa angolana e a ilha de Santa Helena. Moçâmedes prospe­rava e, em 1855, seria elevada à catego­ria de vila (...)" (*)
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(*) - José Bento Duarte - Senhores do Sol e do Vento - Histórias Verídicas de Portugueses, Angolanos e Outros Africanos - Editorial Estampa - Lisboa - Portugal (1999)
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quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Partido Social-Quê?... (Das Perigosas Gentes...)

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"Quando Passos Coelho assumiu a liderança do PSD (Partido Social Democrata) e se pronunciou sobre a revisão constitucional, garantiu que o seu partido não iria mexer no equilíbrio de poderes consagrados no actual texto e que constitui matéria a respeito da qual existe um grande consenso na sociedade portuguesa.
Afinal são trinta anos em que a grandeza e a flexibilidade da Constituição se revelaram capazes de harmonizar os interesses democráticos e superar as mais díspares dificuldades.
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Dir-se-á assim que Passos Coelho faltou à palavra, porque a proposta de revisão mexe de forma profunda nos poderes dos órgãos de soberania e o mínimo que se pode dizer é que desequilibra e rompe o consenso estabelecido no exercício constitucional.
.Custa a entender esta enorme tontaria que procura ser "vendida" à opinião pública como um acto com grande sentido de futuro.
Nada mais enganador.
A proposta do PSD parece um projecto irrealista, pensado para um País que não tem nada a ver com Portugal.
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Revela uma agenda ideológica desligada do País, concebida por gente pertencente a uma elite urbana que não conhece "os cantos à casa".
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Por exemplo, quando se pretende substituir "justa causa" por "razão atendível", mais não se faz do que instituir um conceito de livre arbítrio, eliminando um critério de justiça que o actual texto consigna em relação aos despedimentos.
O direito existe para proteger os mais fracos e para limitar o abuso de poder dos mais fortes.
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O propósito do PSD vai ao arrepio deste princípio basilar dos estados civilizados.
Outra fotografia do projecto da revisão constitucional do PSD é bem elucidativa.
Propõe a criação de um Conselho Superior da República com a função de nomear todos os gestores públicos e de passar certificados de idoneidade.
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Ou seja, introduz um conceito moral que, como já se viu noutras ocasiões, é um absurdo ao substituir critérios de competência por valores morais como se um grupo, qualquer que ele seja, pudesse aferir a idoneidade de um cidadão quando não foi condenado pelos tribunais.
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Por último, e a mais grave de todas as propostas, é a ideia sinistra de acabar ou reduzir o Estado Social.
Acabar com o ensino público, acabar com o SNS (Serviço Nacional de Saúde).
.Estes neoliberais de pacotilha pensam que os portugueses têm condições para pôr os filhos a estudar em colégios particulares de alto custo ou que podem recorrer às clínicas dos hospitais particulares para se tratar.
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O PSD, com esta proposta, deve mudar de nome.
Deixa de ser um partido social-democrata.
Deve retirar das paredes as fotos dos grandes vultos da social-democracia, fazer novos estatutos e escolher nova sigla." (*)
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(*) - Emídio Rangel - Correio da Manhã - Lisboa - Portugal - Julho de 2010. (Negritos da Torre)
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quarta-feira, 25 de agosto de 2010

España! (Chabrier)

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Poucas composições terão captado com tão fina sensibilidade a alma da grande Espanha como esta Rapsódia de Emmanuel Chabrier, ele próprio um francês (1841-1894).

Inspiradíssimo o arranjo de imagens de Alpe2006.

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terça-feira, 24 de agosto de 2010

Navios Antigos - 2

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(Clicar nas imagens para ampliar)
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sábado, 21 de agosto de 2010

O Terramoto de Lisboa (1755) e o Marquês de Pombal

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De repente deu-se uma catástrofe que esmagou o reino e, acidentalmente, firmou o poderio do marquês de Pombal por vinte e dois anos.
Foi essa catástrofe o grande terramoto de Lisboa em 1755.
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Na límpida manhã de 1 de Novembro, quando todas as igrejas se encontravam cheias devido à festa de Todos-os-Santos, sentiu-se um forte abalo no subsolo da cidade.
Esse primeiro abalo durou seis minutos e consistiu numa série de violentas vibrações.
Ao mesmo tempo, relata um inglês, testemunha ocular, ouviu-se um barulho subterrâneo, estranho e horroroso, semelhante ao ribombar, cavo e longínquo, do trovão.
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A seguir mudou a natureza do abalo, sendo as casas sacudidas de um lado para o outro com um movimento análogo ao de uma carroça arrastada com violência por cima de pedras irregulares.
Um capitão de navios, cuja embarcação se encontrava ancorada no Tejo, disse ter visto a cidade a andar para trás e para diante, como uma seara a ondular com o vento.
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As igrejas desabaram em cima dos fiéis. Padres houve que ficaram debaixo dos destroços dos altares. Fidalgos foram esmagados dentro das suas carruagens. Ruas inteiras ficaram arruinadas. O céu obscureceu-se com as enormes nuvens de pó e de cal que subiam das ruínas.
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Houve, então, um intervalo de cinco minutos, durante o qual os sobreviventes, tomados de pânico, correram pelas ruas, muitos caindo de joelhos, levantando para o céu imagens sagradas.
A este intervalo seguiu-se outro sacão, muito mais violento do que o primeiro. Durou três minutos e foi acompanhado por uma sucessão de gigantescas ondas do Tejo, que inundaram as ruas da parte baixa. Todos os grandes edifícios que tinham resistido ao primeiro abalo, mas que por ele haviam sido sacudidos, desabaram então, caindo sobre a multidão que enchia as vielas apertadas.
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Foi durante o segundo abalo que o novo cais de D. João, em frente do Paço, inteiramente construído de mármore e dispendiosíssimo, se subverteu por completo com toda a gente que lá se encontrava. Ao mesmo tempo, grande número de barcos e de pequenos navios ancorados ali perto, todos cheios de fugitivos, eram engolidos como por um turbilhão.
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Parece que a força do tremor de terra foi tão extraordinária sob o leito do rio como por baixo da própria cidade, atirando as âncoras dos navios acima da superfície da água. Em certa ocasião, o rio ergueu-se até quase vinte pés e a seguir desceu, deixando os navios em seco.
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Mais de duas terças partes de Lisboa caíram em ruínas. O magnífico palácio da Patriarcal, construído por D. João V, o arsenal, a livraria de D. João, com cinquenta mil volumes e manuscritos, o histórico Palácio Real e o Paço da Inquisição, a Bolsa do Trigo e a velha Casa da Índia, com os seus preciosíssimos relatos dos grandes navegadores, trinta mosteiros e vinte conventos – tudo ficou destruído.
Os palácios de quarenta e dois fidalgos ficaram reduzidos a escombros. Mas todas as classes sofreram. Igrejas, palácios, casas de negócio e choupanas eram agora montões de ruínas informes.
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Toda esta destruição levara apenas quinze minutos a consumar-se. No entanto, os horrores do 1.º de Novembro não tinham ainda acabado.
Quando começou a escurecer, viu-se a cidade a arder em mais de cem pontos diferentes. Como o dia de Todos-os-Santos era uma festa religiosa de grande importância, os altares das igrejas e capelas encontravam-se iluminados desde muito cedo com inumeráveis velas de cera, que lançaram o fogo às tapeçarias e às madeiras.
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O incêndio, ao alastrar, juntou-se ao fogo das fornalhas das cozinhas. É impossível chegar a qualquer resultado concreto quanto ao número de vítimas, por não haver nenhum censo da população exacto e a maior parte dos registos paroquiais se terem perdido. Os números avançados pelos historiadores contemporâneos vão até oitenta mil vítimas, mas é impossível saber ao certo.
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O incêndio durou três dias, e a capital caiu na mais completa anarquia. A maior parte dos sobreviventes fugiram aterrorizados para os montes vizinhos, acampando em cabanas e tendas, enquanto alguns elementos da população, juntamente com criminosos fugidos das prisões, correram a saquear as ruínas fumegantes e a roubar os cadáveres que se encontravam pelas ruas. Os mortos jaziam aos montes, especialmente à porta das igrejas, muitas delas também em ruínas.
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Em alguns lugares – escreveu um inglês, que arriscou a vida em busca de um amigo – havia coches com os donos, os cavalos e os cavaleiros quase feitos em bocados; aqui eram mães com os filhos nos braços; ali eram damas ricamente vestidas, padres, frades, cavalheiros, operários; uns com a espinha e as pernas partidas; outros com enormes pedras em cima do peito; outros ainda quase sepultados no meio do entulho…
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A praça fronteira à patriarcal encontrava-se cheia de coches, carros, cadeirinhas, cavalos e mulas, abandonados pelos boleeiros e pelos ajudantes.
Os nobres e o clero, que assistiam ao serviço divino quando começou o terramoto, fugiram com toda a precipitação, cada um deles para onde o pavor o levava. Isto, porém, não me impressionou tanto como o terror dos pobres animais, que pareciam ter a noção da sua triste sorte. Alguns tinham morrido, outros estavam feridos, mas a maioria, que havia ficado ilesa, ficou ali a morrer de fome.
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No meio da crise houve apenas um homem que não perdeu a cabeça.
Foi o marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Melo, 1.º ministro do rei D. José, o político que governava o País com mão de ferro.
A sua casa fora poupada no meio da destruição geral. Saiu então na sua carruagem e correu ao palácio de Belém, onde a família real se achava reunida, presa do maior desespero.
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O rei estava irresoluto e desvairado, a Corte banhada em lágrimas. A cada passo chegavam notícias com pormenores do desastre ainda mais horríveis. Os gritos de dor misturavam-se com as invocações desesperadas aos santos.
No meio da confusão geral, anunciaram a chegada do marquês de Pombal, que logo se dirigiu à presença do rei. Conta-se que se terá então travado o seguinte diálogo:
- Que se há-de fazer? – perguntou o rei. Que se há-de fazer para aplacar este castigo da Justiça Divina?
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Pombal terá retorquido com o dito mais célebre que lhe é atribuído:
- Senhor! Enterrar os mortos e cuidar dos vivos!
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O rei, a partir de então, passou a olhar para Pombal com uma espécie de pasmo. A educação de D. José e as tradições próprias do ambiente haviam-lhe dado uma tendência para a superstição, que o fez considerar sinal particular da Divindade o facto de a casa de Pombal ter sido poupada pelo terramoto.
Desde esse momento, o rei viu nele um instrumento mandado pela Providência na hora da necessidade.
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O marquês de Pombal despediu-se do rei com autorização para tomar todas as medidas que entendesse. Dirigiu-se imediatamente para o centro da catástrofe, penetrando no meio das ruínas. Durante vários dias viveu na sua carruagem, redigindo éditos e ordens, despachando e recebendo correios, animando a população e exortando-a a trabalhar na obra de salvação.
Ao longo de cada dia apenas bebia uma tigela de caldo, que lhe era levada pela esposa, a qual tinha de abrir caminho até à sua carruagem por cima dos escombros das ruas.
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O 1.º ministro seleccionou três assuntos de urgência imediata: o restabelecimento da ordem, o fornecimento de géneros alimentícios e o enterro dos mortos.
Expediu ordens ao marquês de Abrantes, comandante supremo das tropas, para que mobilizasse todas as que pudesse.
Grupos de soldados foram mandados extinguir os incêndios, enquanto outros faziam guarda aos edifícios que se sabia conterem riquezas.
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Nomearam-se doze magistrados para os doze bairros da cidade, com ordens para reunirem todos os homens válidos, os quais deviam abrir caminho pelo meio dos escombros, retirando os cadáveres e salvando os feridos.
Tinham de arranjar também em cada bairro um lugar seguro, convenientemente guardado, para a recolha de objectos de valor; construir fornos e cozinhas; receber instruções do cardeal patriarca para sepultar os mortos de acordo com um plano a estabelecer.
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Os fugitivos da cidade arruinada tinham sido em número tal, que se tornava difícil arranjar quem trabalhasse. Os magistrados foram então autorizados a prender todos os desocupados a que pudessem lançar mão, obrigando-os a trabalhar acorrentados na limpeza das ruas.
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Convocando com rapidez as tropas da província, o marquês de Pombal mandou-as cercar a cidade a 6 de Novembro. Depois fê-las avançar concertadamente para o centro da mesma, prendendo todos os malfeitores e vagabundos que encontraram pelo caminho.
Quanto aos ladrões apanhados em flagrante, esses foram imediatamente enforcados.
Um decreto do mesmo dia determinava que as forcas se construíssem o mais altas possível para melhor servirem de exemplo…
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O Marquês de Pombal, 1.º ministro de Portugal, com Lisboa reconstruída a seus pés
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Estas foram somente algumas das muitas providências assumidas pelo 1.º ministro.
Os decretos que as estabeleciam saíam em nome do rei, mas eram ditados ou até escritos apenas pelo Marquês de Pombal.
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A palavra “génio” perdeu hoje muito do seu sentido. Mas a actividade quase sobre-humana demonstrada por Sebastião José na ocasião do terramoto pode justificar que se lhe chame “génio”, na verdadeira acepção da palavra.
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A sua acção durante a crise gravou-se para sempre no espírito dos seus compatriotas.
Depois do auge do desastre, começou a reconstrução da cidade. E ainda hoje, passados dois séculos e meio, a parte ribeirinha de Lisboa continua a exibir, na traça dos edifícios e no risco geométrico e desafogado das artérias, a marca forte do marquês de Pombal.
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Por isso se lhe chama a Baixa Pombalina - justíssima homenagem a um invulgar governante de Portugal…
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Adaptado de: Marcus Cheke - O Ditador de Portugal (Marquês de Pombal) - Livraria Civilização Editora – Porto – Portugal – 1946.
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terça-feira, 17 de agosto de 2010

Memórias Egípcias - 2

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1 - Aqueduto do Nilo
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2 - Pirâmides e Esfinge
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3 - Templo de Karnak (a)
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4 - Templo de Karnak (b)
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5 - Templo de Karnak (c)
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6 - Nilo
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7 - Mesquita de Boulak
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8 - Mesquita de El Ghoree
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9 - Templo de Luxor
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10 - Templo de Baalbec
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11 - Pirâmides de Gizé
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12 - Templo de Kalabshe
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13 - Aspecto do Cairo
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Artista --> David Roberts - Escócia (1796-1864)
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