domingo, 27 de junho de 2010

Sentimental (Carlos Drummond de Andrade)

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Ponho-me a escrever teu nome
com letras de macarrão.
No prato, a sopa esfria,
cheia de escamas
e debruçados na mesa
todos contemplam esse romântico trabalho.
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Desgraçadamente
falta uma letra,
uma letra somente
para acabar teu nome!
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- Está sonhando? Olhe que a sopa esfria!
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Eu estava sonhando...
E há em todas as consciências
um cartaz amarelo:
"Neste país é proibido sonhar."
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Carlos Drummond de Andrade - Brasil (1902-1987)
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sábado, 26 de junho de 2010

Os Espanhóis, os Cavalos e os Índios das Grandes Planícies

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Havia séculos que os Índios americanos habitavam as Grandes Planícies quando chegaram os Europeus.
Nada, porém, modificou tanto a sua vida como a brusca aparição dos Espanhóis com os seus cavalos.
Não se pode dizer ao certo de que forma se apoderaram os Índios destes animais. Provavelmente, alguns cavalos feridos ou coxos terão sido abandonados e outros talvez roubados.
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Por exemplo, nos anos de 1540-1541, durante a espantosa expedição do espanhol Coronado - que, levado pela miragem do ouro, marchou desde o noroeste do México até ao Kansas -, teriam sido perdidos alguns cavalos, muito provavelmente furtados pelos Índios.
Nos anos seguintes, tornou-se frequente que estes espantassem os cavalos dos invasores para em seguida os capturarem.
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Estes cavalos acabariam por multiplicar-se nas Grandes Planícies, pelo que, duzentos anos depois da expedição de Coronado, praticamente todos os índios das pradarias se tinham tornado hábeis cavaleiros.
As pinturas rupestres de Newspaper Rock, no Estado do Utah, apresentam uma das mais antigas reproduções de um índio a cavalo.

Desde que passaram a dispor de cavalos, os Índios deixaram de percorrer a pradaria a pé em busca de alimentos e de água. Montando rápidos corcéis, podiam agora caçar os búfalos com maior facilidade.

Alguns cavalos eram especialmente treinados para as expedições de caça, outros para a guerra, havendo sempre procura de novas montadas (em que guerreiros a cavalo, brandindo os seus laços, perseguiam e capturavam cavalos das manadas selvagens que vagueavam nas planícies).
E foi montando estes animais, descendentes dos que os Espanhóis tinham levado séculos antes da Europa, que os Índios se tornaram os temíveis adversários do avanço da colonização branca do Oeste Americano.

.Adaptado de: Great Adventures that Changed Our World - (Pinturas de Alfred Jacob Miller e Albert Bierstadt)

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sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Saramago - Portugal (1922-2010)

. Nascido na Azinhaga do Ribatejo, Portugal, 16 de Novembro de 1922.
Falecido hoje, 18 de Junho de 2010, em Lanzarote, Espanha.
Prémio Nobel da Literatura - 1998.
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“Vai sair a procissão de penitência.
Castigámos a carne pelo jejum, maceremo-la agora pelo açoite.
Comendo pouco purificam-se os humores, sofrendo alguma coisa escovam-se as costuras da alma.
Os penitentes, homens todos, vão à cabeça da procissão, logo atrás dos frades que transportam os pendões com as representações da Virgem e do Crucificado.
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Seguinte a eles aparece o bispo debaixo do pálio rico, e depois as imagens nos andores, o regimento interminável de padres, confrarias e irmandades, todos a pensarem na salvação da alma, alguns convencidos de que a não perderam, outros duvidosos enquanto se não acharem no lugar das sentenças, porventura um deles pensando secretamente que o mundo está louco desde que nasceu.
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Passa a procissão entre filas de povo, e quando passa rojam-se pelo chão homens e mulheres, arranham a cara uns, arrepelam-se outros, dão-se bofetões todos, e o bispo vai fazendo sinaizinhos da cruz para este lado e para aquele, enquanto um acólito balouça o incensório.
Lisboa cheira mal, cheira a podridão, o incenso dá um sentido à fetidez, o mal é dos corpos, que a alma, essa, é perfumada.” (*)
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(*) José Saramago - Memorial do Convento - Editorial Caminho - Lisboa - Portugal - 1982.
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quarta-feira, 16 de junho de 2010

Gravuras Antigas

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Retrato de Mulheres Malgaxe - Madagáscar - África
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Desenho de Bida - Ano de 1882
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(Clicar na imagem para ampliar)
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domingo, 13 de junho de 2010

A Mulheres na Idade Média

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O Cristianismo herdou do mundo judaico uma mentalidade contrária ao desempenho de determinadas funções pela mulher.
Esta, por exemplo, não podia aceder ao sacerdócio nem equiparar-se ao homem, do qual, em muitos casos, era simples propriedade.
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Isso era claramente evidenciado no último dos mandamentos dados por Jeová a Moisés:
Não desejarás a mulher do teu próximo, nem desejarás a sua casa, nem o seu campo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu asno, nem nada de quanto ao teu próximo pertence.
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O Cristianismo medieval manteve esta formulação do mandamento e o seu sentido de propriedade, de modo que já no século XIV, falando do sétimo mandamento, o bispo segoviano Pedro de Cuéllar ainda assinalava que, em caso de necessidade, todos os bens eram comuns excepto a mulher, porque o acto carnal não é coisa comum, pois a mulher não é dos varões, mas deve ser uma de um.
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Na prática, a sociedade medieval reconhecia à mulher um estatuto muito superior ao de simples propriedade do pai ou do marido e concedia-lhe personalidade jurídica própria.
O Cristianismo, embora nem considerasse a possibilidade de admitir as mulheres no sacerdócio, criou para elas conventos e mosteiros.
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Os textos escritos para formação das mulheres, das monjas e das que pertenciam às classes privilegiadas, testemunham a imagem que delas se tinha na sociedade medieval e o papel que lhes estava reservado.
Para as monjas redigiram-se regras e tratados desde muito cedo, embora quase sempre com um claro sentido familiar.
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No século VI, o bispo Cesário de Arles escreveu uma série de conselhos morais para a irmã, Cesária, que entrara para um convento, e o eclesiástico Leandro de Sevilha, na sua obra A Formação das Virgens, instava a irmã, Florentina, a perseverar na vida monástica, afastando-se das mulheres laicas e do trato com homens, especialmente os jovens, e a praticar as virtudes do pudor, da humildade e da paciência, bem como as leituras piedosas.
Mas destas leituras devia excluir livros do Antigo Testamento como O Cântico dos Cânticos, por nele se insinuarem os atractivos carnais do amor humano.
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A preparação monástica tornou possível o aparecimento nos conventos de monjas cultas como a abadessa Hildegarda de Bingen (1098-1179), escritora multifacetada e conselheira de bispos, papas e imperadores.
Ou Herrade de Landsberg (1125-1195), a quem se deve a obra intitulada Jardim das Delícias.
Ou, ainda, as hispânicas Leonor López de Córdova, Teresa de Cartagena e Isabel de Villena.
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Quando Teresa de Cartagena escreveu Arvoredo dos Enfermos, alguns “prudentes varões e, igualmente, mulheres discretas” estranharam que uma dona pudesse ter escrito tal obra.
Então ela redigiu em sua defesa uma nova obra (Admiração da Obra de Deus), na qual reivindica para a mulher a possibilidade de aprender e de escrever num plano de igualdade com o homem.
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Escreveu Teresa:
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Ninguém se admira de que o homem escreva livros porque assim tem acontecido desde tempos imemoriais, e todos se admiram de que uma mulher possa estar à sua altura.
Mas tão fácil é para Deus meter as ciências no entendimento dos homens como no da mulher, embora se considere o cérebro feminino imperfeito e não tão hábil nem suficiente como o dele, e, se Deus o quiser, a mulher terá entendimento equiparável ao masculino na altura oportuna e conveniente, como e quando Ele achar que é mister.”
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As monjas não foram as únicas mulheres cultas, como se pode ver com Dhuoda de Septimânia (século IX) ou com Cristina de Pizan (século XV).
A primeira escreveu entre os anos de 841 e 843 o tratado pedagógico mais antigo do mundo ocidental, o Manual para o Meu Filho.
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A segunda, filha de um médico ao serviço da corte francesa, foi autora de A Cidade das Damas (1405), obra que escreveu em resposta à opinião de tantos homens – clérigos e laicos – que faziam do insulto às mulheres um modo de vida.
No seu Espelho das Damas, a mesma Cristina de Pizan propôs-se combater a opinião de "filósofos, poetas e moralistas que parecem falar a uma só voz para chegarem à conclusão de que a mulher, má por essência e por natureza, sempre se inclina para o vício".
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Ajudada pela Razão e pela Justiça, Cristina de Pizan passa em revista na sua obra as mulheres que se destacaram ao longo da história, rebate a ideia masculina de que não devem estudar e opõe-se aos que impedem que o façam as "suas filhas, esposas ou familiares, alegando que os estudos arruinariam os seus
costumes".
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Em alguns países medievais, como Castela ou a Inglaterra, reconheciam-se à mulher plenos direitos para chegarem, mesmo, a reinar.
Noutros, como Aragão, esta transmitia os seus direitos aos filhos varões, mas não os exercia pessoalmente, dando-se, em muitos casos, prioridade à sucessão masculina.
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No último degrau da escala, muito longe da mulher ideal celebrada pela poesia dos trovadores, encontravam-se as camponesas ou as mesteirais, das quais pouco se ocupam os textos. Dedica-se alguma atenção às mulheres públicas, embora apenas para preservar a saúde corporal e espiritual dos seus clientes.
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A prostituição era um mal menor que os municípios se encarregavam de organizar e manter dentro de limites territoriais a fim de impedir conflitos.
A regulamentação do trabalho das prostitutas, em lugares como Salamanca, durante o reinado dos Reis Católicos, ia desde a nomeação dum “pai de mancebia”, responsável pelo bom funcionamento da casa, até à proibição de que elas se vestissem como as mulheres decentes, a exigência de inspecções médicas periódicas e a proibição de venda de comida ou bebida na casa pública.
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(Adaptado de História de la Humanidad - Edad Media - Direcção de David Solar e Javier Villalba - Editorial Oceano - Barcelona - Espanha).
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quarta-feira, 9 de junho de 2010

Da História do Cinema - Velhos Filmes

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1 - 1933

2 - 1941
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3 - 1933



4 - 1941

5 - 1942

6 - 1941

7 - 1936

8 - 1957


9 - 1954


10 - 1941


11 - 1941

12 - 1941

13 - 1949


14 - 1962


15 - 1952
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domingo, 6 de junho de 2010

Magnífica Luciana Rabello e o "Chorinho" Brasileiro (Os gloriosos destinos do velho cavaquinho português)

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Luciana Rabello nasceu em Petrópolis, Brasil, no ano de 1961.
Pertence a uma família proveniente do Nordeste Brasileiro, onde – como ela própria explica – se mistura o sangue de portugueses, espanhóis, holandeses, alemães, negros e índios.
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Luciana, como vão poder confirmar daqui a pouco, é uma extraordinária cavaquinista (tocadora de cavaquinho), embora se tenha iniciado, ainda criança, pelo violão, e tenha estudado também piano clássico durante cinco anos.
É, igualmente, compositora.
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O avô materno, José de Queiroz Baptista, foi o seu primeiro e único professor. Começou a tocar aos 6 anos e, aos 13, já compunha.
Em 1975 integrou, com o irmão Raphael Rabello, o grupo “Os Carioquinhas”, especializado em choro (ou chorinho), uma das mais famosas e características expressões musicais do Brasil.
Começava assim, aos 14 anos, a carreira magnífica de Luciana Rabello, numa época em que, como ela diz, para muita gente “o choro era coisa de velho…”.
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Primeira mulher a tocar cavaquinho profissionalmente, Luciana estreou-se em disco aos 16 anos.
No início da década de 1980 viajou pela Europa, actuando como solista de choro em espectáculos de Toquinho (que tocava violão).
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A partir de então, tornou-se na cavaquinista preferida de vários maestros brasileiros de 1.ª linha.
Em 1999 fundou, com Maurício Carrilho, a Acari Records, que administra desde o ano de 2000. Trata-se da primeira gravadora a dedicar-se, exclusivamente, ao choro. Tem hoje muitas dezenas de títulos no seu catálogo.
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Os filhos de Luciana Rabello, Ana e Julião, são também músicos reconhecidos. Diz-se, e é verdade, que eles “estão seguindo as pisadas de mamãe…”.
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O choro, cujos executantes são chamados de chorões, é um género musical com cerca de 140 anos de existência. Mas há quem diga que as suas origens remotas se acham no ano de 1808, quando a Família Real portuguesa chegou ao Brasil refugiada da ameaça militar napoleónica que alastrava na Europa.
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Com a corte lusitana foram para o Brasil instrumentos como o piano, o clarinete, o violão, o saxofone, o bandolim e o cavaquinho, bem como danças de salão europeias (valsa, mazurca, quadrilha, modinha, xote e, principalmente, a polca).
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Os novos instrumentos, as novas músicas e a reforma urbana entretanto operada criaram o caldo de cultura que levaria ao surgimento do choro.
Surgiu um novo estrato social, a classe média (funcionários públicos, instrumentistas de bandas militares e pequenos comerciantes).
Algumas dessas pessoas passaram a formar conjuntos para tocar “de ouvido” aquelas músicas, combinando-as com os ritmos africanos já enraizados na cultura brasileira.
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E, assim, nos quintais dos subúrbios do Rio de Janeiro se foi impondo a primeira música urbana tipicamente brasileira: o choro.
O choro resultou, portanto, da criatividade com que os músicos populares executavam, ao seu jeito, a música importada que se ouvia nos salões e bailes da alta sociedade por meados do século XIX.
A música dos chorões, porém, evoluiu - e em breve se distinguia bastante da que se tocava nos salões da nobreza carioca.
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Da esquerda para a direita: violão de sete cordas - violão - bandolim
flauta - cavaquinho - pandeiro.
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Esta designação (choro) deve-se ao carácter plangente, choroso, da música que esses pequenos conjuntos faziam.
As primeiras combinações instrumentais giravam em torno de um trio constituído por flauta (para os solos), o violão (acompanhamento, como se fosse um contrabaixo) e, claro, o cavaquinho, que fazia um acompanhamento mais harmónico, rico de acordes e variações.
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Os primeiros chorões, improvisadores por definição, não tinham regras fixas para o número de executantes ou para os instrumentos musicais admitidos. Por isso, o leque se foi alargando com a passagem do tempo (como pode ver acima).
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O choro exige do músico um completo domínio do instrumento e uma percepção apuradíssima dos códigos e senhas que se encaixam em gigantescos improvisos.
Ainda hoje, o bom músico de choro tem como condição básica ser também um bom improvisador
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No princípio da década de 1980, como se disse, Luciana Rabello, então com pouco mais de 20 anos, actuou como solista de choro nos espectáculos de Toquinho.
É de um desses espectáculos a peça que seguidamente vos apresento.
Trata-se de uma famosa composição ("Brasileirinho") de Waldir Azevedo, um popularíssimo artista de choro e, também ele, um virtuoso do cavaquinho.
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Os Brasileiros, como sabemos, transformaram e enriqueceram a língua portuguesa: pronunciam-na com todas as sílabas e embeberam-na numa mistura fina de açúcar e canela.
Ora, nesta espantosa interpretação, Luciana mostra o que os Brasileiros fizeram do cavaquinho português: afinaram-no ao seu jeito e deram-lhe o perfume inebriante da sonoridade tropical.
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Quanto a Luciana Rabello, a gente não sabe bem o que mais admirar nesta intervenção.
A fantástica demonstração de talento?
A imperturbável serenidade da execução?
A beleza invulgar da artista?
Pensando bem, creio que anda tudo pelo mesmo - elevadíssimo - nível.
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Comprovem aqui --> http://www.youtube.com/watch?v=MfIdOfeWK2A
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Para os amigos brasileiros que tiverem curiosidade em saber como soava (e soa) o velho cavaquinho português - que deu origem ao vosso cavaquinho dos chorões -, deixo uma interpretação dos "Cavaquinhos do Paranho" (Trofa - Portugal).
Trata-se de um Malhão Minhoto, a música alegre e comunicativa de muitas festas e romarias do Norte Português:
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