sexta-feira, 30 de abril de 2010

Grandes Quadros (F. G. Waldmüller - Áustria)

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O Aniversário da Avó
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Ferdinand Georg Waldmüller - Áustria (1793-1865)
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(Clicar na imagem para ampliar)
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quinta-feira, 29 de abril de 2010

Capitalismo Moderno e Finanças Virtuais - ou: A Era dos Novos Corsários

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"Quando o bando de saqueadores passa pela aldeia os aldeões entregam-lhe o que têm.
Fazem por manter a compostura e a humildade para lhes agradar.
Talvez assim partam mais depressa e escolham outra vítima do saque.
Assim se comportam os Estados perante os salteadores da modernidade.
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Primeiro foi a Grécia.
Agora é Portugal.
O Reino Unido, com uma situação económica que esteve, em termos relativos, pior do que a nossa, manteve-se, mesmo depois da falência quase generalizada dos seus bancos, com a sua avaliação intocável.
Porque será?
Porque é um jogo mais pesado.
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O facto de a correcção dos ratings da Grécia e de Portugal serem feitos no mesmo dia encaixa na narrativa que foi construída.
Quem tem dúvidas de que estas notações fazem parte dos ataques especulativos às dívidas dos países mais frágeis da União vive num Mundo de fantasia - não há fé mais ingénua do que a fé no equilíbrio purificador do mercado.
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Dirão que exagero.
Que as agências de rating não inventam a realidade.
Falso.
A realidade não precisaria delas quando falamos de contas que são públicas e auditadas, como são as dos Estados (recordo que em Portugal não houve, ao contrário do que aconteceu com a Grécia, encobrimentos oficiais do défice).
Os números estão aí para quem os queira analisar.
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Estas agências constroem narrativas para os especuladores (ou, na melhor das hipóteses, em vez de darem informação rigorosa, limitam-se a devolver aos mercados a sua própria histeria, acabando por ajudar a criar aquilo que anunciam).
E isso basta para que o virtual se torne real.
Os especuladores só querem saber se na realidade virtual em que jogam terão ganhos.
Como percebemos com o que nos levou a esta crise financeira internacional, enquanto for possível alimentar o jogo a realidade não interessa para nada.
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Dirão que exagero.
Que as agências de notação são competentes e que se não fossem deixariam de ser ouvidas pelos investidores.
Falso.
Devo recordar que a mesma Standard & Poor's, que agora corrige em baixa o rating português, foi obrigada, aquando do começo da crise, a corrigir num só dia a notação de mais de 90 activos financeiros ligados ao imobiliário.
Tinha falhado em todos.
Porque o jogo obrigava a alimentar a ilusão.
Como falhou na AIG e na Lehman Brothers.
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Vale a pena recordar que foram estas agências que só se aperceberam da catástrofe financeira do Dubai quando ela chegou aos jornais.
Que deram uma excelente nota à Islândia na véspera de o país ter entrado em falência.
Que avaliaram com um triplo A o que agora chamamos de activos tóxicos.
E aí estão a dar conselhos aos investidores sobre a credibilidade das contas dos Estados.
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Dirão que, mesmo assim, a vida é como é e que devemos fazer sacrifícios para lhes agradar.
Elas querem sangue.
O discurso sacrificial diz bem ao ponto a que deixámos que o capitalismo financeiro, que nada produz, nos levasse.
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Mas, ainda assim, nada chegaria para contrariar a profecia.
As mesmas agências que já ameaçavam cortes no rating se o PEC não fosse suficientemente austero, também ameaçavam cortes no rating se ele não apontasse para o crescimento económico.
E ameaçavam cortes no rating se prometêssemos as duas coisas e tal não fosse credível, coisa que nunca poderia ser.
Somos uma carta marcada a quem só resta esperar pela sua sorte.
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Dirão que exagero.
Que as agências de rating são independentes.
Falso.
Elas dependem dos investidores que têm dinheiro empatado no jogo.
Elas estão dependentes de vários interesses no mercado que lhes pagam os serviços.
No dia em que a Europa decidir, como já prometeu, avançar com uma estrutura dependente do Banco Central Europeu que possa ser árbitro e não apenas agente, talvez haja um contrapeso neste jogo viciado.
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Entretanto, com uma Europa cega e disposta a ver as suas aldeias (todas da periferia - porque será?) a serem saqueadas sem uma reacção à altura, teremos de aceitar resignados o triunfo da política da aparência - tem de parecer que vai haver sangue -, do capitalismo financeiro improdutivo e da acção sem rosto dessa entidade etérea à qual chamamos "os mercados".
Tudo é virtual menos os estragos que os salteadores deixam à sua passagem.
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Há dois anos todos os políticos juraram, perante a irresponsabilidade dos negócios financeiros imobiliários, em que estas agências tiveram o papel de promover lixo tóxico, que alguma coisa teria de mudar.
Também essa vontade era uma ilusão.
Os aldeões continuam entregues aos caprichos dos saqueadores." (*)
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(*) Daniel Oliveira - Expresso Online e blogue Arrastão (Lisboa - Portugal)
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terça-feira, 27 de abril de 2010

domingo, 25 de abril de 2010

"A Ilustre Casa de Ramires" (Eça de Queiroz) - O Encontro de José Casco com o Fidalgo da Torre

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NOTA PRÉVIA
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Neste famoso romance do português Eça de Queiroz, o jovem Gonçalo Mendes Ramires, Fidalgo da Torre, é o representante de uma velha e renomada nobreza.
Orgulhoso das glórias dos antepassados, que imagina personificar no presente, ele passa algum do seu tempo na biblioteca da mansão em que habita, na aldeia de Santa Ireneia, escrevendo uma novela épica sobre as remotas façanhas daqueles.
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Gonçalo, infelizmente, vive em permanentes aflições financeiras. Certa ocasião, visitado pelo lavrador José Casco dos Bravais, decide arrendar-lhe a Quinta da Torre por novecentos e cinquenta mil-réis anuais, compromisso solenemente celebrado com um aperto de mão e um farto copo de vinho.
Todavia, quando lhe aparece outro lavrador, o Pereira, a tentá-lo com mais cem mil-réis, Gonçalo – que é tão generoso como arrebatado e pusilânime – logo esquece o negócio fechado com o Casco para aceitar alvoroçadamente a nova oferta. E não pensa mais no assunto.
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Até que, decorrido um tempo, seguindo ele ligeiro e desprevenido por um atalho dos pinheirais, dá subitamente de caras com o lavrador enganado, o digno José Casco dos Bravais.
O relato desse memorável e inesperado encontro é apenas um dos exemplos da genialidade de Eça de Queiroz.
Confirmem a seguir.
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"(…) O Fidalgo da Torre chegara à esquina do muro da quinta, onde uma ladeirenta e apertada azinhaga a divide do pinheiral e da mata.
Do portão nobre, que outrora se erguera nesse recanto com lavores e brasão de armas, restavam apenas os dois umbrais de granito, amarelados de musgo, cerrados contra o gado por uma cancela de tábuas mal pregadas, carcomidas da chuva e dos anos.
E nesse momento, da azinhaga funda, apagada em sombra, subia chiando, carregado de mato, um carro de bois, que uma linda boieirinha guiava.
— Nosso Senhor lhe dê muito boas-tardes!
— Boas-tardes, florzinha!
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O carro lento passou. E logo atrás surgiu um homem, esgrouviado e escuro, trazendo ao ombro o cajado, de onde pendia um molho de cordas.
O Fidalgo da Torre reconheceu o José Casco dos Bravais. E seguia, como desatento, pela orla do pinheiral, assobiando, raspando com a bengalinha as silvas floridas do valado. O outro, porém, estugou o passo esgalgado, lançou duramente, no silêncio do arvoredo e da tarde, o nome do Fidalgo.
Então, com um pulo do coração, Gonçalo Mendes Ramires parou, forçando um sorriso afável:
— Olá! É você, José! Então que temos?
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O Casco engasgara, com as costelas a arfar sob a encardida camisa de trabalho. Por fim, desenfiando das cordas o marmeleiro que cravou no chão pela choupa:
— Temos que eu falei sempre claro com o Fidalgo, e não era para que depois me faltasse à palavra!
Gonçalo Ramires levantou a cabeça com uma dignidade lenta e custosa — como se levantasse uma maça de ferro:
— Que está você a dizer, Casco? Faltar à palavra! Em que lhe faltei eu à palavra?... Por causa do arrendamento da Torre? Essa é nova! Então houve por acaso escritura assinada entre nós? Você não voltou, não apareceu...
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O Casco emudecera, assombrado.
Depois, com uma cólera em que lhe tremiam os beiços brancos, lhe tremiam as secas mãos cabeludas, fincadas ao cabo do varapau:
— Se houvesse papel assinado, o Fidalgo não podia recuar!... Mas era como se houvesse, para gente de bem!... Até V. S.ª disse, quando eu aceitei: «viva! está tratado!...» O Fidalgo deu a sua palavra!
Gonçalo, enfiado, aparentou a paciência dum senhor benévolo:
— Escute, José Casco. Aqui não é lugar, na estrada. Se quer conversar comigo, apareça na Torre. Eu lá estou sempre, como você sabe, de manhã... Vá amanhã, não me incomoda.
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E endireitava para o pinhal, com as pernas moles, um suor arrepiado na espinha — quando o Casco, num rodeio, num salto leve, atrevidamente se lhe plantou diante, atravessando o cajado:
— O Fidalgo há-de dizer aqui mesmo! O Fidalgo deu a sua palavra!... A mim não se me fazem dessas desfeitas... O Fidalgo deu a sua palavra!
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Gonçalo relanceou esgazeadamente em redor, na ânsia dum socorro.
Só o cercava solidão, arvoredo cerrado. Na estrada, apenas clara sob um resto de tarde, o carro de lenha, ao longe, chiava, mais vago. As ramas altas dos pinheiros gemiam com um gemer dormente e remoto. Entre os troncos já se adensava sombra e névoa.
Então, estarrecido, Gonçalo tentou um refúgio na ideia de Justiça e de Lei, que aterra os homens do campo. E como amigo que aconselha um amigo, com brandura, os beiços ressequidos e trémulos:
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— Escute, Casco, escute, homem! As coisas não se arranjam assim, a gritar. Pode haver desgosto, aparecer o regedor. Depois é o tribunal, e a cadeia. E você tem mulher, tem filhos pequenos... Escute! Se descobriu motivo para se queixar, vá à Torre, conversamos. Pacatamente tudo se esclarece, homem... Com berros, não! Vem o cabo, vem a enxovia...
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Então de repente o Casco cresceu todo, no solitário caminho, negro e alto como um pinheiro, num furor que lhe esbugalhava os olhos esbraseados, quase sangrentos:
— Pois o Fidalgo ainda me ameaça com a justiça!... Pois ainda por cima de me fazer a maroteira, me ameaça com a cadeia!... Então, com os diabos! Primeiro que entre na cadeia lhe hei-de eu esmigalhar esses ossos!...
Erguera o cajado... — Mas, num lampejo de razão e respeito, ainda gritou, com a cabeça a tremer para trás, através dos dentes cerrados:
— Fuja, Fidalgo, que me perco!... Fuja que o mato e me perco!
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Gonçalo Mendes Ramires correu à cancela entalada nos velhos umbrais de granito, pulou por sobre as tábuas mal pregadas, enfiou pela latada que orla o muro, numa carreira furiosa de lebre acossada!
Ao fim da vinha, junto aos milheirais, uma figueira-brava, densa em folha, alastrara dentro dum espigueiro de granito destelhado e desusado.
Nesse esconderijo de rama e pedra se alapou o Fidalgo da Torre, arquejando.
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O crepúsculo descera sobre os campos — e com ele uma serenidade em que adormeciam frondes e relvas.
Afoitado pelo silêncio, pelo sossego, Gonçalo abandonou o cerrado abrigo, recomeçou a correr, num correr manso, na ponta das botas brancas, sobre o chão mole das chuvadas, até ao muro da Mãe-d'água.
De novo estacou, esfalfado. E julgando entrever, longe, à orla do arvoredo, uma mancha clara, algum jornaleiro em mangas de camisa, atirou um berro ansioso:
— «Oh! Ricardo! Oh! Manuel! Eh lá! alguém! Vai ai alguém?...»
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A mancha indecisa fundira na indecisa folhagem.
Uma rã pinchou num regueiro.
Estremecendo, Gonçalo retomou a carreira até ao canto do pomar — onde encontrou fechada uma porta, velha porta mal segura, que abanava nos gonzos ferrugentos. Furioso, atirou contra ela os ombros, que o terror enrijara como trancas.
Duas tábuas cederam, ele furou através, esgaçando a quinzena num prego. E respirou enfim no agasalho do pomar murado, diante das varandas da casa abertas à frescura da tarde, junto da Torre, da sua Torre, negra de mil anos, mais negra e como mais carregada de anos contra a macia claridade da Lua Nova que subia.
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Com o chapéu na mão, enxugando o suor, entrou na horta, costeou o feijoal. E agora subitamente sentia uma cólera amarga pelo desamparo em que se encontrara, numa quinta tão povoada, enxameando de gentes e dependentes!
Nem um caseiro, nem um jornaleiro, quando ele gritara, tão aflito, da borda da Mãe-d'água!
De cinco criados, nenhum acudira, — e ele perdido, ali, a uma pedrada da eira e da abegoaria! Pois que dois homens corressem com paus ou enxadas — e ainda colhiam o Casco na estrada, o malhavam como uma espiga.
Ao pé do galinheiro, sentindo uma risada fina de rapariga, atravessou o pátio para a porta alumiada da cozinha.
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Dois moços da horta e a filha da Crispola, Rosa, tagarelavam, regaladamente sentados num banco de pedra, sob a fresca escuridão da latada. Dentro o lume estralejava — e a panela do caldo, fervendo, rescendia. Toda a cólera do Fidalgo rompeu:
— Então, que sarau é este? Vocês não me ouviram chamar?... Pois encontrei lá em baixo, ao pé do pinheiral, um bêbedo, que me não conheceu, veio para mim com uma foice!... Felizmente levava a bengala. E chamo, grito... Qual! Tudo aqui de palestra, e a ceia a cozer! Que desaforo! Outra vez que suceda, todos para a rua... E quem resmungar, a cacete!
A sua face chamejava, alta e valente. A pequena da Crispola logo se escapulira, encolhida, para o recanto da cozinha, para trás da masseira.
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Os dois moços, erguidos, vergavam como duas espigas sob um grande vento. E enquanto a Rosa, aterrada, se benzia, se derretia em lamentações sobre «desgraças que assim se armam!», Gonçalo, deleitado pela submissão dos dois homens, ambos tão rijos, com tão grossos varapaus encostados à parede, amansava:
— Realmente! Sois todos surdos, nesta pobre casa!... Além disso a porta do pomar fechada! Tive de lhe atirar um empurrão. Ficou em pedaços.
Então um dos moços, o mais alentado, ruivo, com um queixo de cavalo, pensando que o Fidalgo censurava a frouxidão da porta pouco cuidada, coçou a cabeça, numa desculpa:
— Pois, com perdão do Fidalgo!... Mas já depois da saída do Relho se lhe pôs uma travessa e fechadura nova... E valente!
— Qual fechadura! — gritou o Fidalgo soberbamente. — Despedacei a fechadura, despedacei a travessa... Tudo em estilhas!
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O outro moço, mais desembaraçado e esperto, riu, para agradar:
— Santo nome de Deus!... Então, é que o Fidalgo lhe atirou com força!
E o companheiro, convencido, espetando o queixo enorme:
— Mas que força! A matar! Que a porta era rija... E fechadura nova, já depois do Relho!
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A certeza da sua força, louvada por aqueles fortes, reconfortou inteiramente o Fidalgo da Torre, já brando, quase paternal:
— Graças a Deus, para arrombar uma porta, mesmo nova, não me falta força. O que eu não podia, por decência, era arrastar aí por essas estradas um bêbedo com uma foice até casa do Regedor... Foi para isso que chamei, que gritei. Para que vocês o agarrassem, o levassem ao Regedor!... Bem, acabou. Oh! Rosa, dê a estes rapazes, para a ceia, mais uma caneca de vinho... A ver se para a outra vez se afoitam, se aparecem...
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Era agora como um antigo senhor, um Ramires de outros séculos, justo e avisado, que repreende uma fraqueza dos seus solarengos — e logo perdoa, por conta e amor das façanhas próximas.
Depois, com a bengala ao ombro, como uma lança, subiu pela lôbrega escada da cozinha. E em cima, no quarto, apenas o Bento entrara para o vestir, recomeçou a sua epopeia, mais carregada, mais terrífica — assombrando o sensível homem, estacado rente da cómoda, sem mesmo pousar a infusa de água quente, as botas envernizadas, a braçada de toalhas que o ajoujavam...
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O Casco! O José Casco dos Bravais, bêbedo, rompendo para ele, sem o conhecer, com uma foice enorme, a berrar — «Morra, que é marrão!...»
E ele na estrada, diante do bruto, de bengalinha! Mas atira um salto, a foiçada resvala sobre um tronco de pinheiro... Então arremete desabaladamente, brandindo a bengala, gritando pelo Ricardo e pelo Manuel, como se ambos o escoltassem — e ataranta o Casco, que recua, se some pela azinhaga, a cambalear, a grunhir...
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— Hem, que te parece? Se não é a minha audácia, o homem positivamente me ferra um tiro de espingarda!
O Bento, que quase se babava, com o jarro esquecido a pingar no tapete, pestanejou, confuso, mais atónito:
— Mas o sr. Doutor disse que era uma foice!
Gonçalo bateu o pé, impaciente:
— Correu para mim com uma foice. Mas vinha atrás do carro... E no carro trazia uma espingarda. O Casco é caçador, anda sempre de espingarda... Enfim estou aqui vivo, na Torre, por mercê de Deus. E também porque, felizmente, nestes casos, não me falta decisão!
E apressou o Bento — porque, com o abalo, o esforço, positivamente lhe tremiam as pernas de cansaço e de fome... Além da sede!
— Sobretudo sede! Esse vinho que venha bem fresco... Do verde e do alvarelhão, para misturar. (…)”
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A Ilustre Casa de Ramires - Eça de Queiroz - Portugal (1845-1900)
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sexta-feira, 23 de abril de 2010

A pequena oferta de um cavalheiro...

.. ( Clicar na imagem para ampliar)
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(Autor desconhecido)
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quinta-feira, 22 de abril de 2010

Tragédia Brasileira (Manuel Bandeira)

.Misael, funcionário da Fazenda,
com 63 anos de idade,
conheceu Maria Elvira na Lapa,
- prostituída,
com sífilis,
dermite nos dedos,
uma aliança empenhada
e os dentes em petição de miséria.
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Misael tirou Maria Elvira da vida,
instalou-a num sobrado no Estácio,
pagou médico,
dentista,
manicura...
Dava tudo quanto ela queria.
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Quando Maria Elvira se apanhou
de boca bonita,
arranjou logo um namorado.
Misael não queria escândalo.
Podia dar uma surra,
um tiro,
uma facada.
Não fez nada disso:
mudou de casa.
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Viveram três anos assim.
Toda vez que Maria Elvira
arranjava namorado,
Misael mudava de casa.
Os amantes moraram no Estácio,
Rocha, Catete,
Rua General Pedra,
Olaria, Ramos,
Bonsucesso,
Vila Isabel,
Rua Marquês de Sapucaí,
Niterói, Encantado,
Rua Clapp,
outra vez no Estácio,
Todos-os-Santos,
Catumbi,
Lavradio, Boca do Mato,
Inválidos...
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Por fim na Rua da Constituição,
onde Misael,
privado de sentidos
e de inteligência,
matou-a com seis tiros,
e a polícia foi encontrá-la
caída
em decúbito dorsal,
vestida de organdi azul.
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Manuel Bandeira - Brasil (1886-1968)
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quarta-feira, 21 de abril de 2010

Grandes Quadros (Goya - Espanha)

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Francisca Sabasa y García
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Francisco de Goya y Lucientes (Espanha) (1746-1828)
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(Clicar na imagem para ampliar)
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domingo, 18 de abril de 2010

A Palavra de Alá - O Encontro de Maomé com Deus

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" (...) Nos espaços agrestes da Península Arábica, durante os primeiros anos do século VII, vivem-se ainda, às vésperas da Revelação, os tempos pesados e abomináveis da ignorância.
Os destinos das tribos, e o de cada um dos homens, flutuam com os humores dos espíritos - os djins - e dependem da vontade de uma corte de deu­ses e deusas mais ou menos complacentes.
As pessoas abandonam-se à melopeia en­torpecente dos adivinhos, percorrem cami­nhos de peregrinação agarradas a bétilos e cele­bram ritos de adoração em torno de árvores, nascentes de água e calhaus sagrados.
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Mas nestas paragens, por estes dias, numa dimensão invisível aos mortais comuns, ocultam-se já ideias e imagens indiscutíveis, por enquanto fragmentadas e obscuras:
Pelos ventos que apressam a marcha ... promete-se-vos uma verdade: o Juízo reali­zar-se-á.
Disfarçada no torvelinho crepitante das tem­pestades de areia, vagueando por céus toldados de nuvens poeirentas, adormecida no tapete brando das dunas, pairando sobre o vinco sinuoso e ressequido dos uedes, a Palavra espera o Enviado:
Eu sou Quem te dá toda a abundância.
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Por cima do deserto de Nefud ou rasando as areias letais do Rub al-Khali, nos calores diurnos de fornalha ou emergindo da dormência gélida das madrugadas, no rasto pachor­rento das caravanas de beduínos ou fluindo do quebranto retemperador dos oásis, aí está, dissimulada, a Palavra:
O teu Senhor conhece perfeitamente quem se extra­viou da Sua senda. Ele conhece perfeita­mente quem está no bom caminho.
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Nas escarpas abruptas que se debruçam para o mar Vermelho, nas pregas da cordi­lheira de Asir, nas planuras que bordejam o golfo Pérsico, no balanço ligeiro das acácias, das tamargueiras e dos juníperos que estremecem ao sopro cálido das ara­gens, por toda a parte e em todas as coisas se insinua a Palavra, aguardando o Profeta que a há-de conduzir ao entendimento e aos cora­ções dos homens:
Prostrai-vos diante de Deus! Adorai-O!
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Nestes lugares, e neste tempo, por alturas do ano de 610, o caravaneiro Muhammad - ou Maomé -, da tribo dos Coraixitas, sente que o assaltam fenómenos es­tranhos, que não é capaz de interpretar.
Casado com a rica Kadidja, a antiga patroa, que se deixou cativar pela sua recta personalidade, ele furta-se com frequência ao bulício próspero da cidade natal, Meca, importante encruzilhada das caravanas de mercadores que atravessam o deserto para unirem o oceano Índico ao Mediterrâneo.
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Aqui, onde o fosso entre ricos e deserdados se alarga todos os dias e onde o culto da fortuna e do poder se sobrepõe ao impul­so da honra e da soli­dariedade, este homem de quarenta anos, bom pai, marido afec­tuoso, bem arrumado nos confortos da vida, perturba-se, sente-se a mais, acaba por recolher-se às solidões do monte Hira, nas cercanias da cidade.
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Distraído em meditações graves e inquietas, Muhammad atemo­riza-se com a força que o invade e com a natureza das manifestações que lhe violentam os sentidos.
São zumbidos e si­lêncios, bruscas fulgurâncias, inspi­rações confusas que se desprendem das coi­sas e dos lugares.
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Que visões fugidias são es­tas que assim perturbam Muhammad?
O que são e de onde vêm as sentenças enigmáticas que se lhe embrulham na língua febril, contra o céu da boca, e que aí se desfazem e morrem antes de adquirirem um sentido?
Não passará tudo de uma horrível maquinação dos djins?
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Um dia, na Grande Noite, ba­nhado pelas cintilações dolorosas de um intenso jorro de luz, na exaustão de um desmaio revelador, ele dá com um ser misterioso, de as­pecto humano, suspenso entre os céus e a terra, que lhe traz afinal a misericórdia da compreensão:
Muhammad, em verdade és Profeta de Alá! E eu sou o anjo Gabriel!
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Doravante, este notável cidadão de Meca será o sucessor - o último, para os crentes - de Abraão, de Moisés, de Jesus Cristo.
Durante mais de vinte anos vão derramar-se no seu espírito, uma a uma, as mensagens de Deus, que ele divulgará aos homens e que se­rão depois da sua morte guardadas num livro que mudará o mundo - o Corão.
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A Palavra achou, enfim, o Enviado:
Não há outra divindade senão Alá, e Muhammad é o Seu Profeta. (...)" (*)
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(*) - José Bento Duarte - Peregrinos da Eternidade - Crónicas Ibéricas Medievais (4ª Crónica - A Palavra de Alá) - Editorial Estampa - Lisboa - Portugal (2003)
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sábado, 17 de abril de 2010

Deus Triste (Carlos Drummond de Andrade)

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Deus é triste.
Domingo descobri
que Deus é triste
pela semana fora
e além do tempo.
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A solidão de Deus
é incomparável.
Deus não está diante de Deus.
Está sempre em si mesmo
e cobre tudo
tristinfinitamente.
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A tristeza de Deus é como Deus:
eterna.
Deus criou triste.
Outra fonte não tem
a tristeza do homem.
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Carlos Drummond de Andrade (Brasil) (1902-1987)
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quinta-feira, 15 de abril de 2010

Grandes Quadros (Alfredo Rodríguez)

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Uma Oração pelo Búfalo
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Alfredo Rodríguez (México)
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(Clicar na imagem para ampliar)
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terça-feira, 13 de abril de 2010

Balada de Coimbra (Carlos Paredes - Portugal)

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Ó Coimbra do Mondego
E dos amores que lá tive...
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A magia desta magnífica cidade portuguesa
de estudantes, de tricanas e de saudades
encerra-se toda na balada
que a genialidade de Carlos Paredes eternizou...
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(*) - E parabéns ao excelente trabalho de chuckgary...

domingo, 11 de abril de 2010

Um Mito Brasileiro - Lampião, Rei do Cangaço (1897-1938)

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O Cangaço foi um fenómeno ocorrido no Nordeste brasileiro de meados do século XIX ao início do século XX. Tem as suas origens em questões sociais e fundiárias dessa região, caracterizando-se por acções violentas de grupos ou indivíduos isolados: assaltavam fazendas, sequestravam coronéis (grandes fazendeiros) e saqueavam comboios e armazéns.
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Não tinham morada fixa: vagueavam pelo sertão, praticando tais crimes, fugindo e se escondendo.
Os cangaceiros conheciam muito bem o território nordestino e a caatinga (“mata branca”), sendo por isso difícil a sua captura.
Estavam sempre preparados para enfrentar todo o tipo de situação. Conheciam as plantas medicinais, as fontes de água, locais com alimento, rotas de fuga e lugares de difícil acesso.
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O primeiro bando de cangaceiros de que se tem conhecimento foi o de Jesuíno Alves de Melo Calado, Jesuíno Brilhante, que actuou por volta de 1870.
E o último foi o de Corisco (Cristino Gomes da Silva Cleto) assassinado em 25 de Maio de 1940.
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O cangaceiro mais famoso foi Virgulino Ferreira da Silva, o "Lampião", denominado “Senhor do Sertão" e também "Rei do Cangaço".
Actuou durante as décadas de 1920 e 1930 em praticamente todos os estados do Nordeste brasileiro.
Para as autoridades, Lampião simbolizava a brutalidade, o mal, uma verdadeira doença que precisava ser cortada.
Para uma parte da população do sertão ele encarnou valores como a bravura, o heroísmo e o senso da honra.
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Lampião (Virgulino Ferreira da Silva)
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Virgulino Ferreira da Silva nasceu no dia 7 de julho de 1897, na Fazenda Ingazeira, situada no município de Vila Bela (hoje, Serra Talhada), no sertão de Pernambuco.
Foi o segundo filho de José Ferreira da Silva e de Maria Selena da Purificação.
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Naquela época, o sertão quase não possuía escolas e estradas, viajava-se a pé, a cavalo, em burro e em jumento.
Os denominados coronéis (os proprietários de terras) imperavam, sob o signo da prepotência, como os verdadeiros chefes políticos, sem nunca sofrer represálias, porque a força do Estado estava sempre do seu lado.
Eram eles que davam a palavra final, ou seja, elegiam, destituíam, perseguiam, condenavam, absolviam, torturavam e matavam.
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Apesar de muito inteligente, Virgulino abandonou a escola para ajudar a família no plantio da roça e na criação de gado. Gostava muito de dançar e de tocar sanfona. Compunha versos e adorava um bom rifle (espingarda).
Sabia costurar muito bem, em pano e couro, e confeccionava as próprias roupas.
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Ele tinha 19 anos quando entrou para o cangaço.
Dizem que tudo começou através de disputas com José Saturnino, membro da vizinha família Nogueira. Lutando contra essa família durante muitos anos, Virgulino e seus irmãos já se comportavam como futuros cangaceiros, não tardando a entrar em conflito com a polícia.
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A decisão de viver e morrer como bandido, contudo, só foi tomada quando a polícia matou José Ferreira da Silva - o pai de Lampião - enquanto ele debulhava milho.
Naquele mesmo dia, os Ferreira fazem um juramento: o seu luto, até à morte, iria ser o rifle, a cartucheira e os tiroteios.
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Quando sabia da existência de um coronel perverso, Lampião não perdia a oportunidade de queimar-lhe as fazendas e matar-lhe o gado.
Nas incursões em vilas e povoados, o grupo saqueava, dizimava e matava. As violências cometidas pelo bando eram inúmeras: tatuagem a fogo, corte de orelha ou de língua, castração, estupro, morte lenta, entre outras.
Muitos habitantes abandonavam definitivamente as suas propriedades, tornando desertas as caatingas, já que elas estavam entregues a soldados e cangaceiros.
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Às vezes passavam-se meses sem se ouvir falar de Lampião, pensando-se, inclusive, que teria morrido. Mas, de repente, ele surgia do nada com o seu bando, como um tremendo furacão, lutando contra as volantes (destacamentos móveis da polícia), incendiando fazendas, roubando e matando com a maior naturalidade.
Em algumas ocasiões, seus gestos eram generosos: confraternizava com as pessoas, organizava festas, distribuía dinheiro, pagava bebida para todos.
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Maria Déia (ou Maria Bonita, segundo Lampião)
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Em uma de suas paradas para descansar, perto da Cachoeira de Paulo Afonso, Lampião conheceu Maria Déia, filha de um fazendeiro de Jeremoabo, na Bahia.
Ela era casada havia cinco anos com José de Nenén - um comerciante da região - mas nutria uma paixão platónica por Lampião, mesmo sem nunca tê-lo encontrado.
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O facto é que Virgulino caiu de amores ao vê-la. E, impressionado com a sua beleza, passou a chamá-la de Maria Bonita.
Em vez de três dias, ficou dez na Fazenda Malhada da Caiçara.
Com a concordância dos pais, que apoiavam o desejo da filha, Maria Déia coloca as suas roupas em dois bornais, penteia os cabelos e parte com Lampião rumo à caatinga.
Era o ano de 1931 e ela tinha 20 anos. Ele, cerca de 34.
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Há várias fotos disponíveis sobre a vida dos cangaceiros.
Uma das melhores é a de Maria Bonita (ver acima), cabelos arrumados, sentada num banco, de pernas cruzadas, chapéu sobre o joelho, mão direita sobre o chapéu, exibindo vários anéis, como a modelo moderna orgulhosa por envergar trajes de uma etiqueta de vanguarda.
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É a sua foto mais famosa, aparecida à época na revista brasileira O Cruzeiro.
A pose de Maria Bonita sugere o papel das mulheres no cangaço.
Deve-se a elas o adoçamento dos costumes dos cangaceiros.
Nessa fase de quase sedentarismo do grupo, Lampião entrava nas cidades e dizia: “É Lampião que vem chegando, amando, gozando e querendo bem”.
Enunciava o oposto da fama terrorista do bando.
.Talvez fosse esse o objectivo de Lampião ao admitir mulheres no grupo.
Segundo interpretações de especialistas, elas facilitavam a comunicação com a população e impunham alguns limites à violência do cangaço.
Diante das câmaras, dão o ar de normalidade, de “família”, à condição sublevada dos cangaceiros.
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O convívio dos cangaceiros de Lampião
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Em 1932, Lampião e Maria Bonita têm uma filha. Chamam-na de Expedita.
Maria Bonita deu à luz no meio da caatinga, à sombra de um umbuzeiro, em Porto de Folha, no estado de Sergipe.
Lampião serviu de parteiro.
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Como se tratava de um período de intensas perseguições e confrontos, e a vida era bastante incerta, os pais não tinham condições de criar Expedita dentro do cangaço.
Os factos que ocorreram tornaram-se em assunto polémico. Uns diziam que Expedita tinha sido entregue ao tio João, irmão de Lampião, que nunca fez parte do cangaço; e outros testemunharam que a criança foi deixada na casa do vaqueiro Manuel Severo, na Fazenda Jaçoba.
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Tempos de paz e de lazer...
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O bando de Lampião resistiu durante quase 20 anos, lutando com grupos de civis que o perseguiam e com a polícia de 7 estados nordestinos.
Por todo esse tempo, assaltou propriedades de grandes fazendeiros, atacou povoados, vilas e cidades, roubou, pilhou, torturou e matou os seus adversários.
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Apesar de ter sido baleado nove vezes, Lampião sobreviveu a todos os ferimentos, sem contar com qualquer tipo de assistência médica formal.
Para estancar o sangue e curar os ferimentos usavam-se mofo, pó de café e, até, excrementos de gado.
Eram usadas, ainda, ervas medicinais e rezas dos curandeiros, que nem sempre funcionavam como se esperava.
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Extremamente habilidoso, dotado de grande capacidade de improvisação, era Lampião quem fazia os curativos, encanava pernas e braços quebrados dos feridos e fazia os partos das mulheres dos cangaceiros. Superdotado de inteligência, ele era médico, farmacêutico, dentista, vaqueiro, poeta, estratega, guerrilheiro, artesão.
Desconfiado, só ingeria algo depois que alguém tivesse provado o alimento.
Mas não conseguiu livrar-se da traição dos falsos amigos.
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Posando para a imprensa brasileira
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No dia 27 de Julho de 1938, conforme o costume de anos a fio, o bando acampou na fazenda Angicos, situada no sertão de Sergipe, esconderijo tido por Lampião como o de maior segurança.
Era noite, chovia muito e todos dormiam em suas barracas.
Na madrugada do dia 28, a polícia chegou tão de mansinho que nem os cães pressentiram.
Quando um dos cangaceiros deu o alarme, já era tarde de mais.
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Não se sabe ao certo quem os traiu. O certo é que o bando foi apanhado totalmente desprevenido. Quando os policiais do Tenente João Bezerra e do Sargento Aniceto Rodrigues da Silva abriram fogo com metralhadoras portáteis, os cangaceiros não puderam empreender qualquer tentativa viável de defesa.
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O ataque durou uns vinte minutos.
Dos 34 cangaceiros presentes, 11 morreram ali mesmo.
Lampião foi um dos primeiros a morrer.
Logo em seguida, Maria Bonita foi gravemente ferida.
Alguns cangaceiros, transtornados pela morte inesperada do seu líder, conseguiram escapar.
Eufóricos com a vitória, os policiais saquearam e mutilaram os mortos.
Roubaram todo o dinheiro, o ouro e as jóias.
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A ferro e fogo...
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A força volante, de maneira bastante desumana, decepou a cabeça de Lampião.
Maria Bonita ainda estava viva, apesar de bastante ferida, quando sua cabeça foi separada do corpo.
O mesmo ocorreu com Quinta-Feira e Mergulhão: tiveram suas cabeças arrancadas em vida.
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Feito isso, os vencedores salgaram os seus macabros troféus e colocaram-nos em latas de querosene, contendo aguardente e cal.
Os corpos mutilados e ensanguentados foram deixados a céu aberto para servirem de alimento aos urubus.
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Percorrendo os estados nordestinos, João Bezerra exibia as cabeças - já em adiantado estado de decomposição - por onde passava, atraindo uma multidão de pessoas.
Primeiro, os troféus estiveram em Maceió e, depois, foram até ao sul do Brasil.

As cabeças seguiram depois para Salvador, onde permaneceram por seis anos na Faculdade de Odontologia da Universidade Federal da Bahia.
Posteriormente, e por mais de três décadas, os restos mortais ficaram expostos no Museu Nina Rodrigues, em Salvador.
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Memorial da Resistência - Cidade de Mossoró - Rio Grande do Norte - Brasil
--> Foto de George Vale em: http://www.flickr.com/photos/ge_photo/3553581285/
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Durante muito tempo, as famílias de Lampião, Corisco e Maria Bonita lutaram para dar um enterro digno aos seus parentes.
O economista Silvio Bulhões, filho de Corisco e Dadá (membros do bando), empreendeu muitos esforços para dar sepultamento aos restos mortais dos cangaceiros e parar, de uma vez por todas, essa macabra exibição pública.
A revista O Cruzeiro chegou a publicar (em 6 de Junho de 1959) uma reportagem sobre o caso ("Justiça para Lampião", com texto e fotos de João Martins). Aqui se dava conta do chocante desrespeito e desumanidade que envolvia a exibição dos restos mortais dos cangaceiros, como se estes não passassem de meros troféus ou de chamativas curiosidades para turistas.
Outros órgãos da imprensa brasileira fizeram campanha nesse sentido.
Apesar disso, o enterro dos restos mortais dos cangaceiros só ocorreria em 1969: as cabeças de Lampião e de Maria Bonita, exibidas durante mais de trinta anos, foram sepultadas no dia 6 de Fevereiro desse ano.
Os demais cangaceiros tiveram o seu enterro uma semana depois.
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Lampião e Maria Bonita possuem parentes próximos em Aracaju: sua filha, Expedita, casou com Manuel Messias Neto e teve quatro filhos (Djair, Gleuza, Isa Cristina e Vera Lúcia).
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Deve salientar-se a grande inteligência de Virgulino Ferreira da Silva (Lampião), bem como o seu valor como estratega. Só isso explica uma tão longa sobrevivência.
Mais de setenta anos após a sua morte, ele continua sendo lembrado na música, na moda, na literatura de cordel, no teatro, no cinema, em escolas, em museus, em conferências e debates.
O temido cangaceiro, indubitavelmente, o mais importante e carismático de todos, deixou gravado nas caatingas sertanejas um pedaço da história do Nordeste.
E assim se transformou num autêntico mito brasileiro.
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Memórias de Lampião, de Maria Bonita e dos Cangaceiros
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1 - "Mulher Rendeira" é um antigo tema musical, muito popular nos sertões nordestinos ao tempo do Rei do Cangaço.
A tradição atribui esta composição ao próprio Lampião, que a entoaria com os seus companheiros ao entrar nos povoados.
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A - Uma das versões - verdadeiro documento histórico - inclui, ao princípio, a voz de um dos sobreviventes do bando (António dos Santos, mais conhecido por Volta Seca, o mais jovem dos cangaceiros de Lampião):
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..." Olê muié rendêra
... Olê muié rendá...
... Tu m'ensina a fazê renda...
... Eu t'ensino a namorá...
... O fuzil de Lampião, tem cinco laços de fita
... O lugar que ele habita, não falta moça bonita..."
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2 - Pode ver ainda uma curta reportagem sobre a Exposição do Cangaço em São Paulo.
Contém pequenos filmes sobre os cangaceiros (incluindo Lampião e Maria Bonita).
Veja e oiça também Expedita e Vera (filha e neta deste famoso e trágico casal).
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Fontes:
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- Semira Adler Vainsencher (investigadora da Fundação Joaquim Nabuco, Brasil);
- Carlos Alberto Dória (sociólogo);
- Wikipédia.
- George Vale (flickr)
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quinta-feira, 8 de abril de 2010

Pintores da Península Ibérica (Antonio Abellán - Espanha)

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Jazz n.º 6
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Os Aficionados

.O Bar

.Almoço no Folie Bergères

.O Piano

. As Vendedoras de Flores

Nota - Antonio Abellán já tinha sido apresentado na Torre, com outros quadros, em 1 de Junho de 2008.

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