quarta-feira, 31 de março de 2010

domingo, 28 de março de 2010

Eça de Queiroz e a Revolta na Índia Portuguesa (1871)

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História Pitoresca da Revolta da Índia (Setembro – 1871)
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"Andávamos inteiramente esquecidos da Índia!
Uma clara manhã, ela aparece violentamente no meio de nós, envolta num telegrama do sr. Visconde de S. Januário.
Por essa ocasião, muito bom português se admirou que a Índia ainda fosse nossa!
Ela tinha saído, havia muito, das pompas solenes dos artigos de fundo.
Ela quase não aparecia nos orçamentos.
Obscura, velha, arruinada, estéril, dobrada sobre si mesma, comia, nas brumas distantes, o seu arroz!
A sua reaparição surpreendeu!
A notícia de que ela ainda tinha vitalidade bastante para se revoltar – espantou!
A certeza de que ainda ali havia soldados, cidadãos, fortes, interesses e telégrafos – sobressaltou!
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Uma vez que a gloriosa Índia ainda existia, era necessário que existisse o correspondente “brio patriótico”: sacudiu-se o velho “brio patriótico” do pó e da caliça – e cada um vestiu o “velho brio patriótico”.
Começou então o movimento.
A Baixa (de Lisboa) teve os seus alvitres.
Os jornais perfilaram de novo, em parada, as frases solenes de perruca e rabicho, que celebram num ritmo dormente o alto amor da pátria.
Meteu-se na mão do sr. infante D. Augusto uma espada – condicional.
A própria Estefânia comoveu-se, venceu os nervos, o chic, a preguiça, e partiu, cheia de mobília e de brio, a salvar o mapa das possessões…
Nós, entretanto, ríamos.
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Oh Santo Deus!, não era cepticismo, não.
Como outros quaisquer, mais que outros quaisquer, nós amamos a terra do nosso berço, a pátria, o velho Portugal, etc.
Mas nós sabemos, meus dignos senhores, que uma revolta na Índia é alguma coisa tão extremamente insignificante, efémera e nula como um meeting civil no reino. (…)
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O grosso do exército da Índia é composto de indígenas - mouros, canarins, banianos e gentios.
Estes nomes melodiosos designam castas; e as castas na Índia conservam ainda todo o seu velho e irreconciliável separatismo.
As castas desprezam-se, guerreiam-se, e nunca absolutamente se fundem. Quase não se comunicam.
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Se um baniano toca a púcara de barro poroso de um canarim, o canarim espedaça num cunhal a púcara desventurada!
Estas hostilidades, nada as dissipa: nem as promiscuidades inevitáveis da caserna, nem os rigores igualitários da disciplina.
De sorte que o exército, formado destes elementos antipáticos, que se não unem, que se amaldiçoam, e onde apenas há o contacto material dos ombros na fileira - não tem unidade nem coesão.
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Além disto, todas as castas têm hábitos fatais, horas impreteríveis.
Está o soldado gentio de guarda: se chega a hora do seu arroz e não lho trazem - ele pousa tranquilamente a espingarda, cruza as mãos atrás das costas, e vai ao quartel ladrar contra o rancheiro; se chega a hora da ablução, atira a arma para um canto, e corre, aos pulos, a acocorar-se à beira do mar!
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E não há severidades, não há castigos, que alterem estes hábitos orientalmente fatais.
A oficialidade deste exército compõe-se pela maior parte de portugueses nascidos na índia – mestiços, castiços ou descendentes.
São os filhos de antigos degredados, de velhos bastardos da fidalguia indiana, de oficiais expedicionários, etc.
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Além destes oficiais nativos, há os oficiais europeus, mandados do continente, os expedicionários.
Estes, por altos motivos que só os grandes homens de Estado - como o Sr. Barros e Cunha - podem saber, têm um soldo maior que os oficiais índios.
Ora os oficiais índios, com um zelo pelas rupias extremamente compreensível, quereriam ter um soldo igual aos oficiais que vão de Portugal.
Por consequência, requerem.
Têm a ingenuidade asiática de requerer!
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Mas quando desesperam dos despachos da Pátria, permitem-se, como uma variedade mais ruidosa, uma certa porção de revolta!
Levam alguns batalhões para a rua e soltam o babadé.
O babadé é um ah! ah! ah! prolongado, uivado - cortado pela mão espalmada que bate rapidamente sobre a boca.
Tais são as revoltas da Índia, ó concidadãos timoratos!
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Para conter este elemento indígena e revoltoso, que meios tem o sr. governador-geral?
Diz-se que o sr. governador-geral, para defesa dos grandes interesses portugueses, dispõe da guarda municipal.
Essa guarda foi de todo o tempo composta de soldados portugueses, que os índios chamam paquelós.
Os portugueses que vão servir como funcionários são considerados aristocracia, e chamam-se fringuis.
Na Índia, o Sr. Melício seria um fringui!
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Esta guarda foi sempre segura, fiel e valente. Somente, hoje, tem a qualidade lamentável das legiões de Varo: - já não existe!
A Pátria distraída esqueceu-se de renovar os paquelós: e a Morte, com um desdém pelas nossas possessões que nunca lhe censuraremos bastante, foi-os levando, e paqueló após paqueló, destruiu na Índia todo o poder lusitano.
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Hoje, duas ou três companhias de mouros compõem a guarda fiel: estes pobres mouros arrastam na vadiagem os sapatos rotos, e estimulam o seu entranhado patriotismo com aguardente de banana, bebida alucinadora que leva à caquexia!
O que hoje há, pois, nessa Índia gloriosa e tradicional, para policiar e sustentar o poder português, é um bando de mouros sujos, idiotas, e bêbedos de aguardente!
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Pois bem! Ainda assim uma revolta na Índia não tem seriedade. E o motivo é que os oficiais, que, para terem maior número de rupias no seu soldo, tentaram uma revolta, vêem-se, realizada ela, singularmente embaraçados.
Vêem-se sós.
Em primeiro lugar, os soldados não vão por um impulso próprio.
Divididos em castas, fracos, ignorantes, odiando-se, sem terem interesse comum ou vontade comum - vão unicamente porque os seus oficiais, no primeiro momento, lhes mandaram que fossem.
É mesmo assim - como eles dizem.
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Se contra eles, porém, se apontar uma espingarda fiel - como estão ali, não em virtude da revolta sua, mas por obediência à revolta alheia - dispersam.
E, depois, os oficiais revoltados não têm rancho para lhes dar.
O povo conserva-se indiferente, sem adesão, sem simpatia.
Os que possuem alguma rupia, nesses dias enterram-na; os que têm arroz ensacado, escondem-no. Ninguém confia uma para a um oficial revoltado.
Ao segundo dia de desordem, quando chega a hora do rancho, os oficiais só têm a dar aos soldados - palavras de entusiasmo!
Os soldados (nunca podemos compreender por quê) preferem o arroz à retórica; e começam a debandar.
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Além disso, no exército índio não há pólvora, nem munições... Quase não há armas!
Por outro lado, à mais pequena insurreição, a disciplina, já famosamente diminuta, desaparece, sem pudor nenhum; e as diversas castas aproveitam os vagares da revolta para se espancarem com fervor.
Acrescente-se que os oficiais da Índia não têm instrução, nem táctica; não são capazes de ordenar uma marcha hábil, de formar um campo entrincheirado, de darem um apoio estratégico à revolta.
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Ao fim de dois dias de gritos e de babadé, acham-se nesta situação triunfante: sem ponto de apoio, sem adesões, sem rancho, sem munições, sem dinheiro, sem disciplina.
Se o governador-geral faz sair um bando que, ao som do tambor, propõe a amnistia, cada um solta um ah! de satisfação e de alívio, e volta para o seu quartel!
Ainda tendes medo, patriotas da Arcada?
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E não se deve esquecer ainda esta circunstância: o índio das nossas possessões é de uma debilidade gelatinosa.
Anémico, miudinho, assustadiço, consumido pelo sol, mal sustentado de arroz, o índio cai de bruços com uma carícia no rosto, e morre com uma palmada na espinha.
É uma fraqueza comprometedora.
As pessoas inexperientes e impacientes fazem um prodigioso consumo de índios.
Um empurrão, e o índio tomba - na eternidade.
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Não há talvez desembargador algum em Goa que não tenha, com a sua mão grave e jurídica, assassinado um índio!
Dá-se uma pancada leve no ombro do índio - ele cambaleia, suspira, nesse dia come pouco, no outro estende-se ao sol a gemer, começa a beber muita água, e morre.
Depois, o soldado índio, mal ouve o nome de paqueló - treme.
Aí vem o paqueló - foge!
Vê o paqueló - atira-se de bruços, já moribundo.
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Há tempos, em Mapuçá, um regimento de 400 praças revoltou-se.
Sai para a rua e vem fazer babadé para defronte da casa do comandante.
O comandante, à janela, em chinelas, tomava café, e entre os goles, vagarosamente sorvidos, exclamava para o regimento insurgido:
Ah! vocês revoltaram-se?
Depois para dentro, ao criado:
Mais açúcar!
E continuava:
Bem, eu já vos falo.
- (Uma colher! ) - Assim é que estais disciplinados, velhacos?
— (Dá cá o cachimbo! )- Ora deixai estar que os paquelós aí vêm! - (lume!)...
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O regimento hesitava.
Nisto aparece, numa pequena elevação, a distância, o tenente Bruno de Magalhães, que vinha, com 20 paquelós, bater os 400 revoltosos.
Os 400 revoltosos, só com ver ao longe os 20 paquelós, debandaram aos gritos.
Nem mesmo se chegou nunca a saber por que se tinham revoltado!
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Porém, ó homens de Estado, podeis dizer-nos:
Mas se a Inglaterra meter lenha para o forno?
Uff! A Inglaterra?!
No dia, meus senhores, em que a Inglaterra mandasse um soldado à fronteira da Índia Portuguesa - todo o território índio, mestiços, canarins, descendentes, todas as castas, todas as fraquezas se levantavam num ímpeto.
Povo e tropa na Índia tudo querem - menos o Inglês.
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O povo não quer o Inglês - porque no nosso regime ele vive na ociosidade, no desleixo, na sua imundície querida, na sua bem-amada traficância; e se fosse inglês, o cipaio viria obrigá-lo, a golpes de curbach, a ser policiado e a ser trabalhador.
E o soldado índio detesta o Inglês - porque, sob o nosso regime, ele pode subir os postos até major; e sob o regime inglês não subiria nem a cabo!
Aí está a razão por que uma revolta na Índia não tem valor, e por que foram tão supérfluos os vossos fervores patrióticos!
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No entanto, é indispensável que estes sustos acabem!
O País está débil e fraco, e estas comoções matam-no.
Há pouco Macau, agora a Índia!
Que as colónias nos deixem respirar!
Que se revoltem, sim, mas com intervalos, sem acumular.
Que se abra mesmo um registo no Ministério da Marinha. Em Setembro de 71 revoltou-se a Índia? - Pois bem, só em Setembro de 1872 será permitido que Timor se subleve.
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A Índia não nos serve senão para nos dar desgostos.
É um pedaço de terra tão escasso que se anda a cavalo num dia.
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As pequenas povoações caem em ruína e em imundície; não há nelas movimento, nem iniciativa; a única cultura é o arroz, que exportam a 5 para importar a 8;
a única indústria é fazer olas, que são uns encanastrados de palmeira com que se erguem os pacaris, alpendres coloridos e frescos que sombreiam as janelas;
não existe nenhum comércio;
os tributos esmagam;
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dois ou três homens ricos, Jossy e mais dois, que se vêem nos patins, descalços e encruzados, comendo o seu arroz com a mão, têm o dinheiro enterrado, e quando se lhes garante um forte juro, cavam e emprestam;
as escolas são uma ficção grotesca;
as estradas são a espessura do mato;
a higiene é feita pelos cães que lambem as imundícies na rua;
a polícia é feita por cada um com o seu bambu;
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uma intriga sórdida e rastejante agita indígenas e europeus;
o deboche tem o ardor do clima;
os soldados embebedam-se com aguardente;
e, no entanto, velhos pardieiros, que se esboroam às mordeduras do sol, esconderijos de corvos, lembram as nossas glórias e alastram o chão de caliça.
Tal é a Índia Portuguesa.
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Noutro número das Farpas lembrámos, a respeito das colónias, este grande melhoramento - vendê-las! Ocorre-nos outro ainda maior a respeito da Índia - dá-la!
E quanto a glórias nacionais, contentemo-nos com o barítono Lisboa e com o Sr. Arrobas - e é já glória bastante!
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A única coisa por que conservamos a Índia, é por ser uma glória do passado.
Oh! meus senhores, também D. João I é uma glória, e nós não nos conservamos abraçados à sua sepultura, soluçando e gemendo.
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O passado é belo e heróico - bem: quando o passado pretende antepor-se aos interesses do presente, o passado é caturra!
Seria verdadeiramente impertinente que uma rosa murcha tivesse a pretensão de andar na boutonnière da nossa sobrecasaca;
que uma pomada rançosa do ano passado ousasse querer anediar os nossos cabelos;
e que o esqueleto da mulher amada tentasse ainda dar-nos beijos!
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Se podemos vender a Índia aos Ingleses, vendamos a Índia, por Deus!
E quanto às glórias de Diu e de Damão, se elas se querem conservar na História e na pompa da epopeia, quietinhas e caladinhas, terão a nossa consideração.
Mas se, quando se tratar de negociar, elas se interpuserem com recordações importunas, dir-lhes-emos insolências, e desejaríamos dar-lhes coronhadas.
Fora daqui, caturras! voltai para o sepulcro e para o pó das crónicas!
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D. João de Castro, hoje, não serve senão para os rapazes de latinidade fazerem temas na província.
Tem paciência, glorioso varão! Sobre as tuas soberbas façanhas, o nosso tempo científico, positivo e racionalista, não tem senão a dizer-te:
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«Cumpriste sublimemente, meu velho D. João, os deveres do teu tempo segundo as ideias do teu tempo. Dorme agora quieto o teu grande dormir; e deixa que nós, segundo as ideias do nosso tempo, cumpramos os deveres do nosso tempo!» " (*)
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(*) - Eça de Queiroz - Portugal - (1845-1900)
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Fontes do Texto:
a) As Farpas - Setembro de 1871 - Typographia Universal, Rua dos Calafates, 110, Lisboa - Portugal.
b) Uma Campanha Alegre (As Farpas) - Lello & Irmão Editores - Porto - Portugal - 1979.
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Imagens:
Travel Pictures (Índia)
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sábado, 27 de março de 2010

Os Manipuladores - A Imprensa em Portugal no séc. XXI

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“(…) A nossa imprensa, quase toda, vive à procura de sangue, escândalos, tragédias ou heróis.
(...) Entre procurar a verdade da história além das aparências, esperar pelas investigações das autoridades sem antecipar conclusões, ou optar logo pela versão mais trágica e chocante, escolheu esta sem hesitar.
Nada disto aconteceu por acaso.
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Não deixa de ser eloquente que, num momento em que na Comissão de Ética da Assembleia da República prosseguem as penosas audições para apurar se há ou não liberdade de imprensa em Portugal, a maior e mais real ameaça a essa liberdade esteja ausente de todas as questões colocadas e de todos os depoimentos prestados.
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Essa ameaça é o tipo de jornalismo que hoje se faz e que é ditado, primeiro que tudo, pela necessidade de vender informação e conquistar audiências a qualquer preço.
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Os célebres 'conteúdos', que tanto movem os novos patrões da imprensa, são ditados exclusivamente pela vontade de obter lucros e não pelo desejo de prestar um serviço público de informação e formação.
Ninguém pergunta à Ongoing ou à PT para que querem eles ter uma televisão ou um jornal, quais são os seus pergaminhos, o seu currículo, as suas intenções em matéria jornalística.
Parece que ter dinheiro, próprio ou emprestado, é critério suficiente.
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Durante quatro semanas a fio, o jornal "Sol" levou a cabo, tranquilamente, a divulgação de escutas telefónicas recolhidas num processo em segredo de justiça e abrangendo até alguma gente que, tanto quanto sabemos, não é suspeita de qualquer crime.
E assim continuou mesmo depois de um tribunal o ter proibido de o fazer, a pedido de um dos escutados.
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Todos sabemos que o que o "Sol" fez é crime, que é inaceitável num Estado de direito e que é uma perversão deontológica do jornalismo, grave e insustentável.
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Mas a verdade é que onze, entre doze directores de jornais interrogados, conseguiram justificar a atitude do "Sol" com "o direito à informação" e "o interesse público".
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E todos nós, mesmo os discordantes, fomos obrigados a ler as escutas e concluir a partir dos factos e indícios nelas contidos, sob pena de sermos excluídos da discussão pública.
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E, para que dúvidas não restassem, esse farol da ética jornalística, que é o "Público", titulava na primeira página e triunfantemente, no dia seguinte a o "Sol" ter ignorado altivamente a providência cautelar decretada pelo tribunal: "Primeira tentativa de censura em trinta anos falha". (...) (*)
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(*) Miguel Sousa Tavares – Confesso que não Entendo – Crónica completa no jornal Expresso – Lisboa – Portugal – 23-Março-2010
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quarta-feira, 24 de março de 2010

"Samba da Bênção" (Vinicius de Moraes - Brasil)

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(Cantado)
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É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração
Mas pra fazer um samba com beleza
é preciso um bocado de tristeza
é preciso um bocado de tristeza
se não, não se faz um samba não
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(Falado)
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Se não, é como amar uma mulher só linda
E daí?
Uma mulher tem que ter
qualquer coisa além da beleza
qualquer coisa de triste
qualquer coisa que chora
qualquer coisa que sente saudade
um molejo de amor machucado
uma beleza que vem da tristeza
de se saber mulher
feita apenas para amar
para sofrer pelo seu amor
e pra ser só perdão
(Cantado)
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Fazer samba não é contar piada
e quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração
porque o samba é a tristeza que balança
e a tristeza tem sempre uma esperança
a tristeza tem sempre uma esperança
de um dia não ser mais triste não ...
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Vinicius (1913-1980)
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terça-feira, 23 de março de 2010

Grandes Quadros (John Russell - Inglaterra)

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Menina com Cerejas
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John Russell - Inglaterra (1745-1806)
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(Clicar para ampliar)
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sábado, 20 de março de 2010

Aberturas de Grandes Livros - "O Crime do Padre Amaro" (Eça de Queiroz - Portugal)

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"Foi no domingo de Páscoa que se soube em Leiria que o pároco da Sé, José Miguéis, tinha morrido de madrugada com uma apoplexia.
O pároco era um homem sanguíneo e nutrido, que passava entre o clero diocesano pelo comilão dos comilões. Contavam-se histórias singulares da sua voracidade. O Carlos da Botica — que o detestava — costumava dizer, sempre que o via sair depois da sesta, com a face afogueada de sangue, muito enfartado:
Lá vai a jibóia esmoer. Um dia estoura!
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Com efeito estourou, depois de uma ceia de peixe — à hora em que defronte, na casa do doutor Godinho, que fazia anos, se polcava com alarido. Ninguém o lamentou, e foi pouca gente ao seu enterro. Em geral não era estimado. Era um aldeão; tinha os modos e os pulsos de um cavador, a voz rouca, cabelos nos ouvidos, palavras muito rudes.
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Nunca fora querido das devotas; arrotava no confessionário, e, tendo vivido sempre em freguesias da aldeia ou da serra, não compreendia certas sensibilidades requintadas da devoção: perdera por isso, logo ao princípio, quase todas as confessadas, que tinham passado para o polido padre Gusmão, tão cheio de lábia!
E quando as beatas, que lhe eram fiéis, lhe iam falar de escrúpulos de visões, José Miguéis escandalizava-as, rosnando:
Ora histórias, santinha! Peça juízo a Deus! Mais miolo na bola!
As exagerações dos jejuns sobretudo irritavam-no:
Coma-lhe e beba-lhe, costumava gritar, coma-lhe e beba-lhe, criatura!
Era “miguelista” — e os partidos liberais, as suas opiniões, os seus jornais enchiam-no duma cólera irracional:
Cacete ! cacete ! exclamava, meneando o seu enorme guarda-sol vermelho.
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Nos últimos anos tomara hábitos sedentários e vivia isolado — com uma criada velha e um cão, o Joli. O seu único amigo era o chantre Valadares, que governava então o bispado, porque o senhor bispo D. Joaquim gemia, havia dois anos, o seu reumatismo, numa quinta do Alto Minho.
O pároco tinha um grande respeito pelo chantre, homem seco, de grande nariz, muito curto de vista, admirador de Ovídio — que falava fazendo sempre boquinhas, e com alusões mitológicas.
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O chantre estimava-o. Chamava-lhe Frei Hércules.
— "Hércules" pela força — explicava sorrindo, "Frei" pela gula.
No seu enterro ele mesmo lhe foi aspergir a cova; e, como costumava oferecer-lhe todos os dias rapé da sua caixa de ouro, disse aos outros cónegos, baixinho, ao deixar-lhe cair sobre o caixão, segundo o ritual, o primeiro torrão de terra:
É a última pitada que lhe dou!
Todo o cabido riu muito com esta graça do senhor governador do bispado; o cónego Campos contou-a à noite ao chá em casa do deputado Novais; foi celebrada com risos deleitados, todos exaltaram as virtudes do chantre, e afirmou-se com respeito — que sua excelência tinha muita pilhéria!
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Dias depois do enterro apareceu, errando pela Praça, o cão do pároco, o Joli.
A criada entrara com sezões no hospital; a casa fora fechada; o cão, abandonado, gemia a sua fome pelos portais. Era um gozo pequeno, extremamente gordo, — que tinha vagas semelhanças com o pároco.
Com o hábito das batinas, ávido dum dono, apenas via um padre punha-se a segui-lo, ganindo baixo. Mas nenhum queria o infeliz Joli ; enxotavam-no com as ponteiras dos guarda-sóis; o cão, repelido como um pretendente, toda a noite uivava pelas ruas.
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Uma manhã apareceu morto ao pé da Misericórdia; a carroça do estrume levou-o e, como ninguém tornou a ver o cão, na Praça, o pároco José Miguéis foi definitivamente esquecido.
Dois meses depois soube-se em Leiria que estava nomeado outro pároco. Dizia-se que era um homem muito novo, saído apenas do seminário.
O seu nome era Amaro Vieira. (...)"
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(*) - O Crime do Padre Amaro - Eça de Queiroz - Portugal (1845-1900)
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terça-feira, 16 de março de 2010

Virgem de Montserrat - "La Moreneta" (Cataluña - España)

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A Virgem de Montserrat, popularmente conhecida como La Moreneta, é a patrona da Catalunha e uma das sete patronas das Comunidades Autónomas de Espanha.
Está no Mosteiro de Montserrat, que se converteu em local de peregrinação e de visita obrigatória para turistas.
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Segundo a lenda, a primeira imagem da Virgem de Montserrat foi encontrada por uns meninos pastores no ano de 880.
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A imagem que actualmente se venera, feita com madeira de álamo, data do século XII.
Representa a Virgem com o Menino Jesus sentado no regaço e mede cerca de 95 centímetros de altura.
Com excepção do Menino e da cara e das mãos de Maria, a imagem é dourada.
A Virgem é de cor preta, o que justificou a designação popular de La Moreneta (A Morenita).
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Pertence ao grupo das chamadas Virgens Negras, que se espalhou pela Europa românica e cujo significado deu lugar a numerosos estudos.
Existem em Espanha outras Virgens Negras também conhecidas por "Moreneta" ou "Morenita" [como a Virgem de Lluc (Mallorca) ou a Virgem da Candelária (Tenerife)].
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Em Setembro de 1844, o Papa Leão XIII declarou oficialmente a Virgem de Montserrat como patrona da diocese da Catalunha.

Santa Maria de Montserrat é um mosteiro beneditino situado na montanha de Montserrat (comarca catalã de Bages, província de Barcelona, Espanha).
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segunda-feira, 15 de março de 2010

Grandes Quadros (Jean-Léon Gérôme - França)

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O Mercador de Peles do Cairo
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Jean-Léon Gérôme - França (1824-1904)
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(Clicar na figura para ampliar)
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domingo, 14 de março de 2010

Os Melhores Amigos

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Os livros.
A sua cálida,
terna,
serena pele.
Amorosa companhia.
Dispostos sempre
a partilhar
o sol das suas águas.
Tão dóceis,
tão calados,
tão leais.
Tão luminosos
na sua branca
e vegetal
e cerrada melancolia.
Amados como nenhuns outros
companheiros da alma.
Tão musicais
no fluvial
e transbordante
ardor de cada dia.
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Eugénio de Andrade (Portugal) - "Num Exemplar das Geórgicas"
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sábado, 13 de março de 2010

Aberturas de Grandes Livros - "Arquipélago de Gulag" (Alexandre Soljenitsine - Rússia)

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“Como se chega a esse misterioso Arquipélago?
A todas as horas para lá voam aviões, navegam barcos e marcham comboios, sem que neles se veja uma só inscrição que indique o lugar de destino.
Os empregados das bilheteiras e os agentes da Sovturista e da Inturista ficarão surpreendidos se você lhes pedir uma passagem para lá. Nem do Arquipélago, no seu conjunto, nem de nenhum dos seus incontáveis ilhéus eles têm conhecimento.
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Aqueles que vão dirigir o Arquipélago chegam lá por intermédio da Escola do Ministério do Interior (M. V. D.).
Aqueles que vão ser guardas no Arquipélago são convocados por intermédio de secções militares.
Aqueles que vão lá morrer, como você e eu, leitor, esses devem passar infalível e exclusivamente através da detenção.
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Detenção!!!!
Será necessário dizer que isso representa uma viragem brusca em toda a sua vida?
Que é como a queda a pique de um corisco sobre a sua cabeça?
Que é uma comoção espiritual insuportável, a que nem todas as pessoas podem adaptar-se, e que frequentemente leva à loucura?
O universo tem tantos centros quantos os seres vivos que nele existem.
Cada um de nós é o centro do mundo e do universo, e ele desmorona-se quando alguém nos sussurra ao ouvido: “Está preso!” (…)
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(…) A detenção nocturna, do tipo descrito, é a preferida, pois apresenta as maiores vantagens.
Todos os habitantes do apartamento ficam encolhidos pelo terror, desde a primeira pancada na porta.
O preso é arrancado ao calor da cama, todo ele reduzido à impotência do sono, com a mente confusa.
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Na detenção nocturna, os agentes têm superioridade de forças: vários homens armados contra um que não chegou sequer a abotoar as calças; durante os preparativos e a revista à casa, por certo que não se junta à entrada nenhum grupo de possíveis partidários da vítima. (…)
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As detenções nocturnas têm ainda a vantagem de que nem os inquilinos do prédio, nem os transeuntes das ruas da cidade vêem quantos levaram durante a noite. Se assusta os vizinhos mais próximos, o acontecimento não existirá para os mais distantes. É como se nada tivesse acontecido.
Pela mesma calçada em que transitaram os carros da polícia durante a noite, desfila durante o dia um magote de jovens com bandeiras e flores, entoando alegres canções. (…)”
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Alexandre Soljenitsine (1908-2008)
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Arquipélago de Gulag – Alexandre Soljenitsine - Rússia (Livraria Bertrand - Lisboa - Portugal - 1975)
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sexta-feira, 12 de março de 2010

Grandes Quadros (Goya - Espanha)

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Retrato de Dona Narcisa Baranana de Goicoechea (c. 1810)
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Goya - Espanha - (c. 1746 - c. 1828)
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(Clicar na figura para ampliar)
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quarta-feira, 10 de março de 2010

Infante D. Henrique (1394-1460) - Alma dos Descobrimentos Marítimos Portugueses

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"(...) Em 1418, ao regressar da segunda viagem a Ceuta, D. Henrique era um homem de vinte e quatro anos, na plenitude da força que nos temperamentos espontaneamente activos desabrocha mais têmpora.
Alto e corpulento, de largos e fortes membros, com a pele tostada pelos sóis e ventanias, os cabelos negros, espessos, rijos e empinados, um bigode farto, negro também e hirsuto, este infante não era belo: pelo contrário.
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Faltava-lhe na fisionomia o encanto da bondade, sem o qual não há formosura.
A dureza do seu olhar era antipática.
Descendia directamente do pai, no qual se vira um exemplar acabado do temperamento enérgico e tenaz, sem poesia, que sabe aliar a violência à astúcia quando o propósito formado o reclama para atingir um fim: do puro temperamento português, ou beirão, com traços de energia taurina.
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A vontade manda exclusivamente em homens pouco dados à contemplação.
Formado um plano, delineada uma vida, todas as energias animais são escravizadas, e o homem torna-se o instrumento do próprio desígnio.
Talvez por se achar retratado nele, D. João I dava a este filho uma estima tão preferente.
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Faltava-lhe de todo, como ao seu irmão Afonso, o bastardo de Barcelos, aquela veia de sentimento germânico, legada por D. Filipa ao carácter dos outros infantes, aquele indefinido misticismo humano, que só em alemão tem palavra capaz de inteiramente o definir: o gemuth, misto de sentimentalidade afectiva, de emoção melancólica, de serenidade de ânimo contemplativa, de humorismo transcendente, em combinações infinitamente variáveis, e que, desabrochando, produziu os tipos mais sublimes e também os mais extravagantes da imaginação poética, num Shakespeare, num Goethe, num Heine.
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D. Henrique era um peninsular "espanhol", afirmativo, duro, terminante, prático em tudo: na acção enérgica, no misticismo ardente, na habilidade astuta.
Para levar por diante os seus planos, primeiro sacrificou à intriga, e depois chegou a ser cruel; e para não mentir aos seus votos, entendendo a religião ao pé da letra, ficou virgem toda a vida.
Talvez daí provenha também a desumanidade que se lhe encontra no retrato.
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As simpatias e a grandeza dos homens, como foi o infante D. Henrique, não está propriamente, pois, no carácter ou na individualidade: está na empresa a que se devotaram.
E como o plano do infante era verdadeiro e fecundo; como a sua ideia de um Portugal novo, destacando-se da Espanha e estendendo-se, pelos confins de Marrocos, África fora, até limites indeterminados nas regiões desconhecidas do mundo, provou afinal ser uma realidade, devemos-lhe, nós portugueses, uma segunda pátria; e deve-lhe a civilização europeia uma das suas três ou quatro conquistas fundamentais.
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É isto o que faz dele um herói, na mais nobre acepção da palavra, apesar das sombras que por vezes lhe escurecem a vida, e de não se lhe encontrar beleza nem o encanto humano que distinguem outros filhos de D. João I.
Casto e abstémio, soldado e sacerdote dessa religião que despontava nas alvoradas da Renascença, abraçada ainda às velhas crenças do cristianismo medieval, a dureza ingénita do carácter do infante encontrava nas visões do seu plano um objecto e uma sanção tão profunda, que a sua alma, realistamente mística à espanhola, tinha alucinações, julgando proceder por mandados da divindade.
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Esta fé e esta inclinação de génio, que se chamam loucura, quando chegam à mania e têm como objecto um fim sem utilidade real ou reconhecida, deviam concorrer para acentuar ainda mais o carácter reservado e agreste do infante.
À primeira vista, o seu aspecto era temeroso, segundo dizem os que o trataram, e, arrebatado em sanha, o semblante tornava-se-lhe muito esquivo.
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Nenhum homem, perseguido e dominado por uma ideia, tem meiguice, nem aquela impassibilidade íntima que mais ou menos corresponde sempre à morte da energia, pela contemplação, ou pelo cepticismo.
Mas o infante não era expansivamente colérico, não tinha acessos, nem fúrias: era, pelo contrário, esquivo, isto é, reservado.
Amodorrava, franzia a testa, empinava as sobrancelhas, e com a palavra mansa e o gesto comedido, mandava passear quem o desgostava: Dou-vos a Deus, sejais de boa ventura!
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Nunca foi avaro, e compreende-se, porque a sua paixão tinha objecto diverso.
A riqueza era-lhe apenas um instrumento ao serviço da sua ideia.
Avarento é o homem que, fazendo-se centro do mundo, refere tudo a si; e o infante via as coisas de um modo diametralmente oposto.
O centro, o núcleo, o âmago de tudo, estava neste plano a que se votaria a si próprio, sacrificando os seus, para exaltação da sua fé e da sua terra, para que germinasse, para que nascesse, florisse e frutificasse a semente que trazia no pensamento, envolvida nas dobras da inconsciência.
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Nunca o infante sonhou os cruéis resultados que à sua terra haviam de vir do glorioso sacrifício a que a votava, impondo-lhe a missão de descobrir o mundo, para que a humanidade tivesse, depois das ilusões inebriantes, os desenganos finais, e na garganta o travo amargo dos frutos paradisíacos da arvore da ciência. (...) (*)
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(*) - Oliveira Martins (1845-1894) - Os Filhos de D. João I - Lisboa - Imprensa Nacional (segundo a edição de 1891)
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domingo, 7 de março de 2010

Velha Poesia Árabe na Península Ibérica (séc. XI) - "Itimad"

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Invisível a meus olhos,
trago-te sempre no coração.
Envio-te um adeus feito de paixão
e lágrimas de pena com insónia.
Inventaste como possuir-me,
e eu, o indomável, submisso vou ficando!
Meu desejo é estar contigo sempre,
oxalá se realize tal vontade!
Assegura-me que o juramento que nos une
nunca a distância o fará quebrar.
Doce é o nome que é o teu
e que deixo escrito no poema: Itimad.
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Al-Mutamid - Nasceu em Beja (Portugal) no ano de 1040. Faleceu em Marrocos em 1095.
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sábado, 6 de março de 2010

A República Doente

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Faz falta um sopro de lucidez
que varra este país de cima a baixo
e nos devolva o bom senso e a esperança.
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Faz-nos falta meter na cabeça,
nem que seja à martelada,
que Portugal enfrenta problemas e perigos
de uma dimensão tamanha
que perder tempo a lavar roupa suja
e a discutir lingerie
enquanto os problemas se acumulam e agravam
sem solução,
é mais do que diletância,
é verdadeiro suicídio.
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Faz-nos falta que cada um perceba
qual é o seu lugar e a sua função
e não se envolva em tentações e confusões
onde todos se perdem,
sem honra nem proveito público.
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Ao Governo cabe governar,
e não imiscuir-se na vida das redacções
ou nas jogadas do poder económico.
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Aos juízes cabe acusar e julgar
de acordo com a lei e a sua consciência,
e não de acordo com as suas ideias políticas
ou os seus interesses corporativos.
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Aos jornalistas cabe informar
de acordo com os factos e a verdade investigada,
mas não cabe a tarefa
de derrubar governos
nem promover julgamentos públicos
em substituição dos tribunais.
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Às empresas públicas ou participadas pelo Estado,
gerindo bens e serviços de necessidade pública,
cabe apenas o papel
de servir os utentes nas melhores condições,
e não o envolvimento
nos grandes negócios do regime
ou em jogadas menores de baixa política
ao serviço do poder do momento. (…)
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(…) Se não nos entendemos no essencial -
o que é a liberdade,
o que é a censura,
o que são direitos absolutos e relativos,
o que é o Estado de Direito,
o que valem as decisões dos tribunais -
dificilmente nos entenderemos no resto.
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E o resto são coisas factuais,
que não dependem de opiniões ou ideias
e que qualquer um sabe:
são 563.000 desempregados,
um Estado no limiar da insolvência
e um país deserto de esperança. (*)
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(*) - Miguel Sousa Tavares - "O Que Faz Falta"
Jornal Expresso - Lisboa - Portugal - 20-Fev-2010
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quinta-feira, 4 de março de 2010

O Lugar da Casa (Eugénio de Andrade)

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Uma casa que fosse

um areal deserto;
que nem casa fosse;
só um lugar
onde o lume foi aceso,
e à sua roda
se sentou a alegria;
e aqueceu as mãos;
e partiu
porque tinha um destino;
coisa simples e pouca,
mas destino:
crescer como árvore,
resistir ao vento,
ao rigor da invernia,
e certa manhã sentir
os passos de Abril
ou, quem sabe?,
a floração dos ramos,
que pareciam secos,
e de novo estremecem
com o repentino canto da cotovia.
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Eugénio de Andrade - Portugal (1923-2005)
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terça-feira, 2 de março de 2010

Grandes Quadros (Samuel Michlap)

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Broadway
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Samuel Michlap - Estados Unidos
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(Clicar para ampliar)
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Aberturas de Grandes Livros - "Morreram pela Pátria" (Mikail Cholokov - Rússia)

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“Ao alvorecer, um vento de Primavera, forte e morno, vindo do sul, açoitou o vale.
Pelos caminhos, os charcos petrificados pela geada nocturna cobriram-se de gotinhas. A última neve, uma neve esponjosa que a noite gelara à superfície, acumulava-se a ranger nas ravinas. Repelido para o norte, o negro velário das nuvens desfilava, desdobrando-se, baixo, num céu de tinta, e resistindo ao vento, lento cortejo majestoso que ultrapassava, com silvos de chamariz, fendendo o ar húmido num tumulto alegre, os inúmeros bandos de patos, marrecos e gansos, que se precipitavam para o local secular das suas migrações para o calor.
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Nicolau Streltsov, agrónomo-chefe da M. T. S. de Chernoiarsk, despertou muito antes de ser dia. As gelosias gemiam nas janelas. No fogão, o vento cantava um lamento frouxo. Uma placa de zinco despregada chocalhava no tecto.
Deitado de costas, com as mãos cruzadas sob a nuca, o cérebro vazio de pensamentos, Streltsov contemplava o azul crepuscular do amanhecer, aplicando o ouvido às rajadas de vento que batiam nas paredes e ao respirar igual, tranquilo, quase infantil, de sua mulher, adormecida a seu lado.
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Gotas de chuva tamborilaram no tecto. O vento pareceu amainar. Ouvia-se a água sussurrar, golfar, gorgolejar voluptuosamente na madeira nova e depois cair, pesada e mole, na terra húmida.
O sono não vinha. Streltsov levantou-se e, descalço, andando com precaução sobre as tábuas movediças, foi até à mesa, acendeu o candeeiro, sentou-se e fumou.
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Uma corrente de ar acre soprava pelos interstícios do soalho ajustado à matroca. O homem encolheu as pernas musculosas, procurou uma posição mais cómoda e pôs-se de novo a ouvir: a chuva continuava; caía até cada vez com mais força.
Muito bem; isto vai dar humidade”, verificou, satisfeito.
Decidiu imediatamente partir para a inspecção da manhã, a fim de ver como estavam os trigos de Inverno da granja O Caminho do Socialismo e lançar uma vista de olhos às sementeiras do Outono precedente. (…)”
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Mikail Cholokov
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Mikail Cholokov - Rússia (1905-1984) - Morreram pela Pátria - Publicado por Portugália Editora - Lisboa - Portugal - 1966.
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