domingo, 29 de novembro de 2009

O Grande Salto da Humanidade - Ardi, a Mãe Mais Antiga (4,4 milhões de anos)

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A história da Humanidade voltou a recuar no tempo agora que os cientistas concluíram o estudo de Ardi, um hominídeo (fêmea) que viveu há 4,4 milhões de anos numa região de África que actualmente faz parte da Etiópia.
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Com 1,20m e 50 quilos, esta fêmea vagueou pela floresta milhões de anos antes da famosa Lucy, nome de baptismo do esqueleto de um outro hominídeo descoberto em 1974, tido até agora como o mais remoto antepassado do Homem.
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O estudo de Ardi lançou uma nova luz sobre a evolução do Homem, disse o antropólogo C. Owen Lovejoy da Universidade de Kent, EUA.
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Ao contrário do que se pensava até agora, o antepassado mais remoto do homem não será um grande símio semelhante a um chimpanzé.
Com efeito, os cientistas garantem agora que o Homem e o chimpanzé terão seguido caminhos paralelos a partir de um antepassado comum.
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"Ardi não é esse antepassado comum, mas nunca tínhamos chegado tão perto", afirmou Tim White, director do Centro de Investigação da Evolução Humana da Universidade da Califórnia em Berkeley, EUA.
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White acredita que essa criatura, a partir da qual Homem e macaco evoluíram, terá vivido há cerca de seis ou sete milhões de anos.
Mas Ardi tem muitos traços que actualmente não se encontram nos actuais macacos africanos, o que permite concluir que estes terão evoluído consideravelmente desde que partilharam com o Homem o tal antepassado comum.
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O estudo de Ardi, que começou em 1994, ano em que foram descobertos os primeiros ossos, permitiu concluir que viveria na floresta e que poderia subir às árvores usando os membros superiores e inferiores, mas o desenvolvimento dos seus braços e pernas revelou que ela e os companheiros passariam pouco tempo empoleirados.
No solo, eram capazes de caminhar sobre os membros inferiores.
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Sob a designação científica Ardipithecus Ramidus, que significa "símio do chão", foi esta descoberta cientificamente documentada em 11 artigos publicados em princípios de Outubro de 2009 na revista Science.
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sábado, 28 de novembro de 2009

Propaganda da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) (1)

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1 - Estados Unidos
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2 - Grã-Bretanha
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3 - Alemanha
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4- União Soviética
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5 - Estados Unidos
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6 - Grã-Bretanha
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7 - Alemanha
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8 - União Soviética
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9 - Estados Unidos
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10 - Grã-Bretanha
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11 - Alemanha
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12 - União Soviética
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sexta-feira, 27 de novembro de 2009

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

O Grande Problema...

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(Clicar para ampliar)
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Artista: Norman Rockwell (1894-1978) - Estados Unidos.
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terça-feira, 24 de novembro de 2009

As Meninas - Pequeno exercício sobre futuras profissões

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Pelo jeito de cada uma, em que poderão elas transformar-se quando crescerem?
Uma hipótese, da esquerda para a direita:
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1 - Juíza.
2- Agente do Ministério Público com especialização em casos mediáticos.
3-Apresentadora de noticiários sensacionais e bombasticamente reveladores na Televisão (sempre aos sábados à noite).
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Artista - Norman Rockwell (1894-1978) - Estados Unidos.
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domingo, 22 de novembro de 2009

A Fuga de D. João VI de Portugal para o Brasil - Novembro de 1807 (Oliveira Martins)

."(…) Quem faria face a Napoleão, cuja coorte atravessara a Espanha e pisava já o solo português?
Não seria o príncipe-regente, nem a rainha doida, nem as altas classes ensandecidas, nem o povo faminto, indiferente, sebastianista.
À voz do verdadeiro Anti-Cristo português, que foi Junot, desabou tudo por terra!
A nação, roída nos ossos pelo térmita infatigável, o jesuíta, nem já era o esqueleto, era apenas o pó de um cadáver.
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Três séculos antes, Portugal embarcara, cheio de esperanças e cobiça, para a Índia; em 1807 (Novembro, 29) embarcava num préstito fúnebre para o Brasil.
A onda da invasão varria diante de si o enxame dos parasitas imundos, desembargadores e repentistas, peraltas e sécias, frades e freiras, monsenhores e cadastrados.
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O embarque para o Brasil
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Tudo isso, a monte, embarcava, ao romper do dia, no cais de Belém.
Parecia o levantar de uma feira e a mobília de uma barraca suja de saltimbancos falidos: porque o príncipe, para abarrotar o bolso com louras peças de ouro, seu enlevo, ficara a dever a todos os credores, deixando a tropa, os empregos, os criados, por pagar.
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Desabava tudo a pedaços; e só agora, finalmente, o terramoto começado pela natureza, continuado pelo marquês de Pombal, se tornava um facto consumado. Os cortesãos corriam pela meia-noite as ruas, ofegantes, batendo às lojas, para comprarem o necessário; as mulheres entrouxavam a roupa e os pós, as banhas, o gesso com que caiavam a cara, o carmim com que pintavam os beiços, as perucas e rabichos, os sapatos e fivelas, toda a frandulagem do vestuário.
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D. João VI
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Era um afã, como quando há fogo; e não havia choro nem imprecações: havia apenas uma desordem surda. Embarcavam promiscuamente, no cais, os criados e os monsenhores, as freiras e os desembargadores, alfaias preciosas e móveis toscos sem valor, nem utilidade.
Era escuro, nada se via, ninguém se conhecia. Os botes formigavam sobre a onda sombria, carregando, levando, vazando bocados da nação despedaçada, farrapos, estilhas, aparas, que o vento seco do fim dispersara nessa noite calada e negra.
(…) O príncipe regente e o infante de Espanha chegaram ao cais na carruagem, sós: ninguém dava por eles; cada qual cuidava de si, e tratava de escapar.
Dois soldados da polícia levaram-nos ao colo para o escaler.
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Depois veio noutro coche a princesa Carlota Joaquina, com os filhos.
E por fim a rainha (D. Maria I), de Queluz, a galope. Parecia que o juízo lhe voltava com a crise. Mais devagar!, gritava ao cocheiro; diria que fugimos!
A sua loucura proferia com juízo brados de desespero, altos gritos de raiva, estorcendo-se, debatendo-se às punhadas, com os olhos vermelhos de sangue, a boca cheia de espuma.
O protesto da louca era o único vislumbre de vida. O brio, a força, a dignidade portuguesa acabavam assim nos lábios ardentes de uma rainha doida!
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Tudo o mais era vergonha calada, passiva inépcia, confessada fraqueza.
O príncipe decidira que o embarque se fizesse de noite, por ter a consciência da vergonha da sua fuga; mas a notícia transpirou, e o cais de Belém encheu-se de povo, que apupava os ministros, os desembargadores, toda essa ralé de ineptos figurões de lodo.
E – tanto podem as ideias! – chorava ainda pelo príncipe, que nada lho merecia. D. João também soluçava, e tremiam-lhe muito as pernas que o povo de rastos abraçava.
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D. João VI e Carlota Joaquina
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A esquadra recebera 15 000 pessoas, e valores consideráveis, em dinheiro e alfaias.
Levantou ferro na manhã de 29, pairando em frente da barra até o dia seguinte, às sete horas, que foi quando Junot entrou em Lisboa. Os navios largaram o pano, na volta do mar, e fizeram proa a sudoeste, caminho do Brasil.
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Enquanto a esquadra esteve à vista, pairando, os altos da cidade, donde se descobre o mar, apareciam coroados de povo mudo e aflito.
As salvas dos navios ingleses que bloqueavam o Tejo troavam lugubremente ao longe.
O sol baixava, a esquadra perdia-se no mar, ia-se toda a esperança, ficava um desespero, uma solidão… Soltou-se logo a anarquia da miséria, e na véspera da chegada do Anti-Cristo, Lisboa correu risco de um saque.
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Chegada da família real portuguesa ao Brasil
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Napoleão estava burlado.
O príncipe D. João, a bordo com as mãos nos bolsos, sentia-se bem remexendo as peças de ouro: ia contente com a sua esperteza saloia, única espécie de sabedoria aninhada no seu gordo cérebro. Bocejava ainda: mas porque o enjoo começava com os balanços do mar.
É o que sucede à história, com os miseráveis balanços do tempo: vem o enjoo incómodo e a necessidade absoluta de vomitar.”
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Oliveira Martins (1845-1894) - História de Portugal - 1.ª ed. - 1879 - Lisboa - Portugal.
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sábado, 21 de novembro de 2009

A Grande Música de Arturo Márquez (México) - "Danzón n.º 2"

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Compositor: Arturo Márquez (n. Sonora, México, 1950)
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Orquestra: Simon Bolívar (Venezuela)
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Maestro: Gustavo Dudamel (n. Venezuela, 1981)
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quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Mãe e Filho

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Estados Unidos - Ano de 1908
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(Clicar para ampliar)
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(Foto de Curtis)
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quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Não ao Desemprego (José Saramago)

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"A gravíssima crise económica e financeira que está convulsionando o mundo traz-nos a angustiante sensação de que chegámos ao final de uma época sem que se consiga vislumbrar o que e como será o que virá de seguida.
Que fazemos nós, que assistimos, impotentes, ao avanço esmagador dos grandes potentados económicos e financeiros, loucos por conquistar mais e mais dinheiro, mais e mais poder, com todos os meios legais ou ilegais ao seu alcance, limpos ou sujos, regulares ou criminais?

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Podemos deixar a saída da crise nas mãos dos peritos?
Não são eles precisamente, os banqueiros, os políticos de máximo nível mundial, os directores das grandes multinacionais, os especuladores, com a cumplicidade dos meios de comunicação social, os que, com a soberba de quem se considera possuidor da última sabedoria, nos mandavam calar quando, nos últimos trinta anos, timidamente protestávamos, dizendo que não sabíamos nada, e por isso nos ridicularizavam?
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Era o tempo do império absoluto do Mercado, essa entidade presunçosamente auto-reformável e auto-regulável encarregada pelo imutável destino de preparar e defender para sempre e jamais a nossa felicidade pessoal e colectiva, ainda que a realidade se encarregasse de desmenti-lo a cada hora que passava.
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E agora, quando cada dia aumenta o número de desempregados?
Vão acabar por fim os paraísos fiscais e as contas numeradas?
Será implacavelmente investigada a origem de gigantescos depósitos bancários, de engenharias financeiras claramente delitivas, de inversões opacas que, em muitos casos, mais não são que massivas lavagens de dinheiro negro, do narcotráfico e outras actividades canalhas?
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E os expedientes de crise, habilmente preparados para benefício dos conselhos de administração e contra os trabalhadores?
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Quem resolve o problema dos desempregados, milhões de vítimas da chamada crise, que pela avareza, a maldade ou a estupidez dos poderosos vão continuar desempregados, mal-vivendo temporariamente de míseros subsídios do Estado, enquanto os grandes executivos e administradores de empresas deliberadamente conduzidas à falência gozam de quantias milionárias cobertas por contratos blindados?
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O que se está a passar é, em todos os aspectos, um crime contra a humanidade e desde esta perspectiva deve ser analisado nos foruns públicos e nas consciências.
Não é exagero.
Crimes contra a humanidade não são apenas os genocídios, os etnocídios, os campos de morte, as torturas, os assassinatos selectivos, as fomes deliberadamente provocadas, as contaminações massivas, as humilhações como método repressivo da identidade das vítimas.
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Crime contra a humanidade é também o que os poderes financeiros e económicos, com a cumplicidade efectiva ou tácita dos governos, friamente perpetraram contra milhões de pessoas em todo o mundo, ameaçadas de perder o que lhes resta, a sua casa e as suas poupanças, depois de terem perdido a única e tantas vezes escassa fonte de rendimento, quer dizer, o seu trabalho.
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Dizer “Não ao Desemprego” é um dever ético, um imperativo moral.
Como o é denunciar que esta situação não a geraram os trabalhadores, que não são os empregados os que devem pagar a estultícia e os erros do sistema.
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Dizer “Não ao Desemprego” é travar o genocídio lento mas implacável a que o sistema condena milhões de pessoas.
Sabemos que podemos sair desta crise, sabemos que não pedimos a lua.
E sabemos que temos voz para usá-la.
Frente à soberba do sistema, invoquemos o nosso direito à crítica e ao nosso protesto.
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Eles não sabem tudo.
Equivocaram-se.
Enganaram-nos.
Não toleremos ser suas vítimas." (*)
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(*) - Texto de José Saramago, escritor português, Prémio Nobel de Literatura.
In O Caderno de Saramago, 10 de Novembro de 2009.
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terça-feira, 17 de novembro de 2009

Arte Africana

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Mulher Grávida
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Arte Shona
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Artista: Japhet Chibanda
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domingo, 15 de novembro de 2009

O Polvo (Padre António Vieira)

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"(...) Mas já que estamos nas covas do mar, antes que saiamos delas, temos lá o irmão polvo, contra o qual têm suas queixas, e grandes, não menos que S. Basílio e Santo Ambrósio.
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O polvo, com aquele seu capelo na cabeça, parece um monge;
com aqueles seus raios estendidos, parece uma estrela;
com aquele não ter osso nem espinha, parece a mesma brandura, a mesma mansidão.
E debaixo desta aparência tão modesta,
ou desta hipocrisia tão santa,
testemunham constantemente os dois grandes Doutores da Igreja latina e grega, que o dito polvo é o maior traidor do mar.
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Consiste esta traição do polvo primeiramente em as cores a que está pegado.
As cores, que no camaleão são gala,
no polvo são malícia;
as figuras, que em Proteu são fábula,
no polvo são verdade e artifício.
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Se está nos limos, faz-se vestir ou pintar das mesmas cores - de todas aquelas verde;
se está na areia, faz-se branco;
se está no lodo, faz-se pardo;
e se está em alguma pedra, como mais ordinariamente costuma estar, faz-se da cor da mesma pedra.
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E daqui que sucede?
Sucede que outro peixe, inocente da traição, vai passando desacautelado, e o salteador, que está de emboscada dentro do seu próprio engano, lança-lhe os braços de repente e fá-lo prisioneiro.
Fizera mais Judas?
Não fizera mais, porque não fez tanto.(...)" (*)
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(*) - O Polvo, de Padre António Vieira (n. Portugal, 1608 -- f. Brasil, 1697)
Extracto do Sermão de Santo António aos Peixes.
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Quem era (ou pode ser) o polvo de António Vieira?
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Ontem, como hoje, poderia representar ou caber em abundantes gestos e figurações.
Pensem sobretudo naquele "não ter osso nem espinha", naquela "hipocrisia tão santa", naquele transformismo das aparências, naquele salto repentino de emboscada, de "dentro do seu próprio engano"...
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Enfim, naquele tempo e naquele espaço - o tempo e o espaço de Vieira - dizia-se que ele aludia, especialmente, à temível Inquisição...
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quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Tempos de Escravatura

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(Clicar para ampliar)
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No Suriname, aos domingos e feriados, os ricos plantadores e outros homens de negócios dirigiam-se à igreja com as suas famílias, sendo frequentemente acompanhados por cinco ou seis dos seus escravos.
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Fonte: Jacques Benoit - Voyages à Surinam - Bruxelles - 1838.
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quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Mapa Cor-de-Rosa

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MAPA COR-DE-ROSA
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E tu ali tão perto!...
Sinto-te o cheiro
E o ácido das frutas
Agita-me os lábios.

Piso a terra avermelhada
E o restolho do capim
Deixa exalar coisas
Que não sei dizer.

Tão perto…

Dizem ser cor-de-rosa
Tal distância.
Um quase nada…

Oh! Senhora da Muxima
Minha Angola,
Minha Amada!
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(Isa Pontes - na margem do rio Vaal, África do Sul)

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Aldeia do mato, algures, na Huíla, Sul de Angola

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terça-feira, 10 de novembro de 2009

Quanah Parker, Grande Chefe Comanche (c. 1840-1911)

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Quanah Parker, diante do seu teppee.
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Nasceu da união de um chefe de guerra comanche com Cynthia Ann Parker, uma branca americana, capturada pelos índios em 1836, durante o sangrento ataque ao Forte Parker (Texas).
Cynthia, que contava nove anos de idade na altura, foi adoptada pelos seus raptores e depressa se integrou na cultura índia.
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(Clicar para ampliar)
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sábado, 7 de novembro de 2009

A Primeira Aldeia Global (Como Portugal Mudou o Mundo) - Martin Page

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Leitura vivamente recomendada pela Torre.
Este livro, do jornalista inglês Martin Page (1938-2003), foi editado em Portugal no ano passado e constitui um fresco surpreendente e impressionante da história dos portugueses.
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São cerca de trezentas páginas por onde desfilam as origens, os invasores romanos e árabes, as lutas da reconquista, os caminhos sobressaltados da independência, a aventura marítima, a grandeza de João II, a saga dos viajantes, dos exploradores, dos santos e dos guerreiros (Pêro da Covilhã, Bartolomeu Dias, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, Afonso de Albuquerque, Francisco Xavier, Fernão Mendes Pinto, muitos outros...), os tribunais e os cárceres dos inquisidores, o impulso reformista do Marquês de Pombal, o fim das dinastias, a República, as ditaduras, as guerras, as revoluções. E o definitivo encontro dos povos - o do nosso com os outros...
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Martin Page aborda a História da maneira mais trabalhosa e difícil e, por isso mesmo, mais frutuosa e atractiva - é rigoroso com a documentação, escrupuloso e inteligente nos juízos, sugestivamente original no estilo e nas imagens.
De tudo resulta uma obra imperdível.
O Financial Times resumiu, com justiça, deste modo: "Martin Page apresenta-nos uma nova perspectiva sobre um país fascinante. "The First Global Village" é uma narrativa deslumbrante."
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Da introdução da obra, que Page intitula "Uma Nota Pessoal", seleccionamos dois excertos:
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I - "(…) A nós, ingleses, é fácil esquecer o facto de os portugueses, sob o comando de São Francisco Xavier, co-fundador dos jesuítas, terem vivido no Japão durante gerações, antes de os nossos antepassados saberem tão-pouco da existência desse país.
Os portugueses debateram teologia com os monges xintoístas, perante a Corte, e introduziram termos na língua japonesa que ainda hoje são utilizados, como, por exemplo, “arigato”, derivado da palavra “obrigado”. Levaram a receita da tempura, o fast-food preferido dos japoneses. Ensinaram-lhes a técnica de fabrico de armas e construíram edifícios capazes de aguentar tanto ataques de artilharia como terramotos.
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Na cidade de Nagasáqui, estas estruturas edificadas pelos portugueses sobreviveram durante séculos, tendo, em 1945, resistido muito melhor à bomba atómica do que as de Hiroxima.
Os portugueses foram conselheiros do imperador da China antes de Marco Pólo afirmar que ali tinha chegado. Levaram o piripiri para a Índia, permitindo a invenção do caril, que os ingleses lá descobriram, tendo-o levado para o seu país como uma amostra do Raj (domínio) britânico.
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Os timorenses de leste conquistaram a sua independência, em relação à Indonésia, em 1999, após uma das mais longas e mais amargas lutas pela independência da era pós-colonial. Um dos seus primeiros actos, após a criação do novo Estado, foi adoptar o português como língua oficial e reconhecer o escudo como moeda corrente.
Fortes emoções presidiram a esta decisão.
A intensidade com que o povo, em Portugal, viveu a libertação de Timor-Leste foi, e é, pouco compreensível para a maioria dos europeus.
Para os timorenses de Leste foi de tal modo importante que a língua portuguesa se transformou num símbolo da sua causa.
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Segundo outros, no entanto, a escolha não foi tão idiossincrática como muitos estrangeiros, sobretudo os australianos, julgaram inicialmente. O português é de longe a língua latina mais difícil de dominar e, por conseguinte, a menos susceptível de ser entendida por aqueles que pretendem ouvir as conversas alheias.

É também a terceira língua europeia mais falada, a seguir ao inglês e ao espanhol e antes do francês e do alemão.
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É claro que o Brasil e Angola dão um importante contributo a este dado ainda pouco conhecido.
Mas o português é também a “língua franca”, não apenas dos rancheiros do Norte da Califórnia, onde os touros são lidados com bandarilhas envoltas em pontas de velcro, a fim de cumprir a lei que impede a crueldade contra os animais, mas também das comunidades piscatórias na costa da Nova Inglaterra, como Provincetown e Providence, onde os portugueses são tidos como marinheiros de imensa coragem e perícia.
Na igreja de São Francisco Xavier, em Hyannis, frequentada, no Verão, pela família Kennedy, duas missas dominicais são rezadas em português.
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O mesmo acontece por detrás das portas de vaivém das trattorias italianas, em Londres, cujos proprietários, ou aqueles que as exploram, são predominantemente cidadãos lusos fazendo-se passar por italianos.

O comportamento discreto dos portugueses, em Londres, ficou tragicamente tipificado quando o party-boat "Marchioness” foi abalroado e afundado por uma draga no rio Tamisa. Praticamente nenhum dos media noticiou que aqueles que morreram afogados eram jovens quadros bancários portugueses, que trabalhavam na City, o centro financeiro de Londres, e estavam a festejar o aniversário de um colega.
Em Paris, os portugueses também são proprietários, ou exploram, mais de 400 restaurantes, dos quais alguns “latino-americanos” e outros, a maioria, “franceses”.
O ícone mais recente e cintilante da cidade – a pirâmide do Louvre – foi edificado por uma construtora portuguesa.
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O português é a segunda língua mais falada em Joanesburgo, na África do Sul; na cidade de Newark, em Nova Jérsia; no Luxemburgo e em Caracas, a capital da Venezuela.
Existem comunidades de cidadãos de língua portuguesa nascidos na Índia, Malásia, Formosa e China, bem como nas Bermudas, em Jersey, Toronto, Los Ângeles e Brisbane, para além de muitas outras localidades.
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Estes dados não se reflectem nos números oficiais, porque a maioria dos portugueses que vivem no estrangeiro são cidadãos do país onde residem. Só que, como Mário Soares, um dia, afirmou: A língua é o vínculo, falar português é ser português.
Estão por todo o lado, mal se fazendo ouvir, de tal modo que poucos de nós damos pela sua presença. (…)"

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O segundo excerto refere-se ao primeiro encontro que o então correspondente de guerra Martin Page teve (pelo menos conscientemente, como ele diz) com os portugueses.
Foi no Sul de África, no meio de um dos muitos conflitos que então abrasavam o Continente.
Talvez tenha germinado naquele momento difícil, no subconsciente de Page, a ideia-mestra deste livro.
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II - "(...) Estava-se a meio da tarde. O Congo envolvera-se em mais uma guerra civil. Correspondente no estrangeiro, acabado de chegar de Londres, eu era ainda um novato nestas andanças. Encontrava-me à beira da estrada que liga Ndola a Elizabethville, com quatro costelas e o ombro esquerdo fracturados.
Um soldado das milícias catanguesas tinha o cano da metralhadora encostado às minhas costas, enquanto os seus colegas remexiam na minha bagagem, que se encontrava por entre os destroços do carro alugado.
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Havia uma enorme quantidade de mercenários brancos, da África Setentrional, em veículos roubados, fugindo da zona de guerra onde eu tinha procurado chegar.
Vários condutores abrandavam, mas ao verem a milícia aceleravam de novo. Terão passado por mim mais de cinquenta. Depois chegou uma carrinha Peugeot nova. O condutor meteu travões a fundo, fez marcha-atrás na minha direcção, abriu a porta traseira e gritou:
- Salta para dentro.
- Tenho uma arma apontada às costas.
- É por isso mesmo que estou a dizer para saltares cá para dentro.
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Obedeci. Ele acelerou. Com o ombro fracturado, não podia fechar a porta, e o vento acabou por se encarregar de o fazer.
Aproximámo-nos do posto fronteiriço. O condutor buzinou fortemente, fez sinais de luzes e acelerou.
Os guardas, temendo, pelo menos aparentemente, que ele espatifasse a nova barreira, levantaram-na à pressa.
Tínhamos acabado de sair de um território autoproclamado República do Catanga.
Mas por que é que os guardas nos teriam deixado passar, sem abrir fogo?
- Não têm munições. Não lhes pagaram os ordenados. Damos-lhes cigarros, que eles trocam por comida.
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Através do reflexo no retrovisor vi o rosto do condutor, um semblante grave, mas impassível.
Tal como o seu companheiro, devia andar na casa dos trinta anos, tinha uma tez típica do Sul da Europa, cabelo escuro e um bigode cuidadosamente aparado.
Envergavam camisas brancas acabadas de lavar e de engomar. Traziam ao pescoço um pequeno crucifixo e um medalhão pendurado num fio de ouro.
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Disseram-me que faziam contrabando de cigarros para o Congo, a partir do território que é hoje a Namíbia.
Levaram-me a uma clínica junto à mina de cobre, em Kitwe, onde me fizeram uma radiografia, deram-me uma injecção e ligaram-me.
Transportaram-me, depois, até uma casa de repouso da companhia mineira, onde me apresentaram à administradora inglesa.
- O chá da manhã é às cinco e meia - disse ela.
- Não vou querer. Preciso de descansar.
- Lamento - afirmou ela -, mas, se abrisse uma excepção consigo, todos os outros queriam o mesmo, não é? O último pequeno-almoço na sala de jantar é às seis e meia.
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Fez-me uma ligação telefónica para Terence Lancaster, o meu editor-chefe em Londres, que me disse:
- Lamento muito o que te aconteceu, só que há um motim numa fábrica de cigarros, na Cidade do Cabo, e, se não estiveres lá amanhã de manhã, parto-te o outro ombro.
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Os meus salvadores pagaram-me um copo de aguardente sul-africana, deram-me um maço de Rothmans, verificaram se tinha dinheiro suficiente na carteira e, depois, deixaram-me, de novo, entregue à cultura indígena.
Nunca mais os tornei a ver.
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Foi a primeira vez que, pelo menos conscientemente, me tinha cruzado com portugueses - um primeiro encontro, não apenas com a sua extraordinária disponibilidade para ajudar um estrangeiro em apuros, mas também com o seu misto de fanfarronice, honra, ingenuidade e sangue-frio. (...)"
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Título - A Primeira Aldeia Global (Como Portugal Mudou o Mundo)
Autor - Martin Page
Editora - Casa das Letras (uma marca da Oficina do Livro) - Lisboa - Portugal
Ano de edição - 2008
Preço - € 18,00
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