sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Grandes Quadros (Jan van Bijlert - Holanda)

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O Concerto
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Jan van Bijlert - Holanda (1597-1671)
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quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Grandes Quadros (Joseph-Désiré Court)

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Retrato de Yekaterina Scherbatova (c.1840)
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Joseph-Désiré Court - França (1797-1865)
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quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Gastronomia Ibérica - "Pulpo/Polvo a la Feria" (ou "a la Gallega")

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Ingredientes para 4 pessoas:
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2 kgs. de polvo
1 cebola pequena
1 chávena de azeite
1 colher cheia de pimentão doce
1 colher cheia de pimentão picante
Sal grosso
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Método:
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Lavar o polvo.
Batê-lo para que amacie.
Pôr água a ferver com a cebola num tacho.
Quando levantar fervura introduzir o polvo, retirando-o duas ou três vezes e voltando a pô-lo na água.
Deixar cozer durante 45 minutos, picar e,
se estiver tenro, retirar do fogo.
Deixar repousar durante 15 minutos.
No momento de servir, retirar o polvo do tacho e cortá-lo em rodelas não muito grossas (figura acima).
Temperar com sal e azeite e polvilhar com o pimentão (a quantidade é variável, consoante o picante que se deseje).

(Pode ser acompanhado por “Pimentos de Padrón” – foto abaixo).
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Soneto (Luís de Camões)

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A formosura desta fresca serra,
e a sombra dos verdes castanheiros,
o manso caminhar destes ribeiros,
donde toda a tristeza se desterra;
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o rouco som do mar, a estranha terra,
o esconder do sol e dos outeiros,
o recolher dos gados derradeiros,
das nuvens pelo ar a branda guerra;
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enfim, tudo o que a rara natureza
com tanta variedade nos oferece,
me está (se não te vejo) magoando.
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Sem ti, tudo m'enoja e m'aborrece;
sem ti, perpetuamente estou passando
nas maiores alegrias, maior tristeza.
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Luís Vaz de Camões (Portugal) - 1524(?) - 1580)
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domingo, 25 de outubro de 2009

Na juventude de Eça de Queiroz (1) (por Jaime Batalha Reis)

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Eça de Queiroz (1845-1900)
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“Uma noite, no Verão de 1867 ou 1868, depois de cear, o Eça de Queiroz, o Salomão Saragga e eu (Jaime Batalha Reis) fomos de passeio, conversando, até Belém.
A noite estava muito quente. Havia uma grande claridade de Lua cheia. Seriam umas duas horas da madrugada quando chegámos à Praia da Torre.
Quase varado na areia, havia um barco. Metemo-nos dentro. A maré enchente fez-nos flutuar. Aí continuámos a nossa conversação até que o dia apareceu e o Sol se levantou por detrás da casaria e dos altos de Lisboa.
Desembarcámos então e dirigimo-nos para Belém, com fome, em busca duma taberna ou restaurante. Queríamos almoçar ali mesmo, continuando, à beira do rio, a nossa discussão. Mas conhecíamos os nossos três apetites, e verificámos, reunindo todo o dinheiro, que ele apenas pagaria um insuficiente repasto.
Que fazer?
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- Tenho uma ideia – disse o Eça de Queiroz, fazendo o gesto consagrado de bater na testa. – Tenho uma ideia genial – acrescentou, erguendo tremulamente os braços ao céu: - Sigam-me.
E negro, linear, curvo, agitando a badine na mão como se esgrimisse, com passos largos e rítmicos, que pareciam saltar obstáculos invisíveis, a sombra da figura esguia e imensa projectada pelos raios horizontais do Sol nascente, Eça de Queiroz adiantou-se em direcção à calçada que leva de Belém à Ajuda.
Salomão Saragga e eu íamos atrás, famélicos, murmurando.
Seriam quase cinco horas da manhã.
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Torre de Belém - Lisboa - Portugal
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Junto da Igreja da Memória o Eça de Queiroz dirigiu-se a uma casa baixa, de janelas cerradas, e bateu.
Os habitantes da casa estavam ainda evidentemente no melhor dos seus sonos.
O Eça de Queiroz explicou-nos:
- Mora aqui o Mancília, a quem vamos dar um tiro. Só ele nos pode salvar neste deserto.
E continuou a bater durante minutos.
Por fim ouviu-se falar dentro da casa. Alguém abriu a porta resmungando, e vimos diante de nós uma cara larga, um bigode castanho, e uns olhos, entre terríveis e risonhos, sob uma grande trunfa de caracóis desordenados. Era o Lourenço Malheiro.
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- Menino – começou o Eça de Queiroz – estamos esfomeados após muitas horas de incalculável criação romântica. Jurámos não morrer antes de produzirmos três obras de génio. Dá-nos entretanto dinheiro para almoçar. Mas olha lá… Comunicámos toda a noite, espectralmente, no Restelo, com as armadas portuguesas que dali foram ao descobrimento da Índia e do Brasil: dá-nos pois dinheiros antigos e sugestivos – sequins, dobrões, florins, ducados, escudos, peças, ou, quando menos, pintos…
O Malheiro foi dentro e trouxe três moedas de cinco tostões.
- Ouvirás falar da tua generosa dádiva, Mancília – disse o Eça de Queiroz, apertando-lhe as mãos com comoção e solenidade.
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Voltámos a Belém.
E, enquanto na cozinha da taberna, onde bebiam marinheiros e uma guitarra gemia frases lancinantes do fado, se preparava a pescada com batatas e a caldeirada que encomendáramos, o Eça de Queiroz e eu, num quarto do primeiro andar, organizávamos o seguinte problema cuja glosa e solução seria enviada ao providencial Lourenço Malheiro:


“Cristo deu-nos o amor
Robespierre a liberdade;
Malheiro deu-nos três pintos:
Qual deles deu a verdade?”


(…) Almoçando, o Eça de Queiroz e eu glosámos e resolvemos o problema em quatro quadras e décimas, cantadas ali logo, ao acompanhamento do fado que continuava a ouvir-se chorar na cozinha do rés-do-chão.
Existem as minhas quadras (ver Nota, no fim), mas perderam-se as décimas de Eça de Queiroz, que com efeito sobrescritámos para o Lourenço Malheiro, décimas cheias de graça e fantasia.

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Jaime Batalha Reis (1847-1935)
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De outra vez, dois dos nossos amigos – o capitão João de Sá e o Zagalo – convenceram-nos a irmos com eles a uma espera de touros.
Na volta, pela madrugada, abancámos a cear numa tasca do Arco do Cego. Éramos, a esse tempo, um grupo numeroso. Apareciam amigos, conhecidos, desconhecidos.
Nós, expansivamente, íamos convidando. Eles iam comendo, bebendo, desaparecendo. Quando rompeu o dia e quisemos nós mesmos partir, descobrimos que havíamos gasto, em bacalhau, iscas de fígado, azeitonas e vinho Colares, um dinheirão que não tínhamos na algibeira.
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Comêramos num pátio onde havia galinhas, e uma horta com couves e parreira.
Ao lado, dava para esse pátio uma casa estreita, de janelas sem vidraças, onde se guardavam frutas, legumes secos e feno. Era madrugada.
O Eça de Queiroz e eu, já sonolentos, resolvemos esperar ali, até à tarde seguinte, que o João de Sá e o Zagalo nos viessem desempenhar com o dinheiro necessário a pagar as nossas dívidas.
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Cerca do meio-dia acordámos sobre os molhos aromáticos do feno, rodeados por galinhas e pombos familiares. As paredes da casa onde dormíramos eram caiadas. Então – depois de almoçarmos ainda a crédito – com dois lápis, devorando fruta, principiámos a cobrir as paredes dum longo poema, difuso, indeterminado, lírico, humorístico, tristíssimo e hilariante (…).
Este exercício durou quatro ou cinco horas. Duas das paredes da casa ficaram, até à altura de um homem, cinzentas de versos.
Sinto hoje não haver copiado, e ter completamente esquecido, a parte do Eça de Queiroz nesta colaboração extravagante.
Lembro-me nitidamente de que havia nessa parte trechos espantosos pelas imagens originais, pela fantasia, pela graça, pelo imprevisto.”

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NOTA – Entre os papéis de Jaime Batalha Reis encontraram-se as seguintes três quadras:


“Declamador tremebundo,
Tirano atroz, por bondade,
Deu-nos, matando meio mundo,
Robespierre, a liberdade.
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Maior que a lenda e a retórica,
Ao ver-nos, aos três famintos,
Com mão magnífica, e histórica,
Malheiro deu-nos três pintos.
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Com este dom de fartar,
E peixe frito à vontade,
É inútil perguntar
Qual deles deu a verdade.
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“Eça de Queiroz e Jaime Batalha Reis – Cartas e Recordações do seu Convívio”
Lello & Irmão – Editores – Porto (Portugal) – 1966 (Págs. 118 a 123)
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sábado, 24 de outubro de 2009

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Grandes Quadros (Manuel Castellano - Espanha)

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"Pátio de cavalos da antiga Praça de Madrid, antes da corrida"
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Manuel Castellano (Espanha) - 1828-1880
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(Clicar na figura para ampliar)
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Aberturas de Grandes Livros - "A Vida de D. Pedro I" (Octávio Tarquínio de Sousa - Brasil)

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“O casamento do infante D. João, filho segundo de D. Maria I, rainha de Portugal, com a infanta D. Carlota Joaquina de Bourbon, filha dos príncipes das Astúrias, foi tipicamente um negócio em que não entraram em conta as aspirações, a maneira de ser e de sentir, a vontade e o desejo dos noivos.
Apenas o interesse político, a razão de estado, a conveniência dinástica.
Nenhuma gratuidade de simpatia, nenhuma busca de sentimentos afins, nenhuma atracção de sexo. Casamento por dever, união compulsória.
E ainda por cima o inevitável quinhão de aventura que se liga sempre a esse acto, embora celebrado nas melhores circunstâncias, acrescido pelo total desconhecimento recíproco.
Para cúmulo, certa aversão inicial espontânea a transformar-se muitas vezes em ódio surdo e definitivo. Assim casavam os príncipes.
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Em 1783, contava D. João dezasseis anos. O príncipe herdeiro D. José, com seis anos de casado, não tinha prole, o que dava ao irmão mais moço a presunção de suceder-lhe na Coroa.
Logo se começou a cuidar de casar também D. João. Cogitou-se de fazer sua mulher uma princesa filha do Grão-Duque da Toscana. Mas a esposa que lhe tocou afinal foi a infanta Carlota Joaquina, que melhor aproximaria as casas reinantes e os reinos de Portugal e Espanha.
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Em 1785, depois das dispensas de Roma, estava realizado o enlace. O noivo ia completar dezoito anos e a noiva apenas dez. Um rapazola e uma menina impúbere.
Não faltaram os festejos comemorativos numa e noutra corte – Te Deum, luminárias, salvas, bailes, ceias, representações teatrais.
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O Marquês de Louriçal, mentindo como bom embaixador, mandara dizer de Madrid, em 1783, que a infanta – “é magra, muito bem feita de corpo, todas as feições são perfeitas, dentes muito brancos, e como não há muito tempo teve bexigas, ainda não se desvaneceram de todo as covas delas; é branca, corada, muito viva”.
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Ao casar dois anos depois, Carlota Joaquina crescera pouco (nunca a sua altura passou de 1,47 m) e provavelmente não embelezara.
De seu lado, o infante D. João já apresentava os traços que o tempo acentuaria de um homem feio, gorducho, tímido e triste. (…)”
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Octávio Tarquínio de Sousa (ao centro)
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A Vida de D. Pedro I – Octávio Tarquínio de Sousa (1889-1959)
(Co-edição da Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 3 vols., Brasil, 1988)
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Disponível na Biblioteca Nacional de Lisboa (Portugal)
3 vols. com as seguintes cotas:
H. G. 46491 V.
H. G. 46492 V.
H. G. 46493 V.
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domingo, 18 de outubro de 2009

Trás-os-Montes, Portugal, por um brasileiro (David Nasser, de "O Cruzeiro")

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Uma noite, Miguel Torga, genial poeta português, nascido em S. Martinho de Anta, Trás-os-Montes, falou no Brasil acerca da sua terra.
Escutaram-no numerosos componentes da colónia portuguesa e, também, alguns brasileiros.
Entre estes últimos, David Nasser, o grande jornalista de O Cruzeiro.
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David Nasser viria depois a Portugal, que percorreu de norte a sul (dessa viagem deixar-nos-ia um livrinho - Portugal, Meu Avôzinho).
O jornalista não mais esqueceu - n
em aquela memorável noite lusitana no Rio de Janeiro, com Torga, nem a sua viagem de férias.
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Compôs então, na sua revista (O Cruzeiro, 3 de Outubro de 1964), um dos mais belos e sentidos hinos de amor a Portugal e, em particular, a Trás-os-Montes.
Uma crónica surpreendente.
Tanto mais surpreendente quanto é certo que ele não tinha ascendência portuguesa (seus pais eram naturais do Líbano).
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(Na transcrição da crónica, respeita-se a grafia brasileira).
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Um reino de montanhas e de fragas
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Saudade Defumada
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Trás-os-Montes, agôsto
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"Agora vou entrar no reino do meu guia.
Comecei esta viagem - que é uma romaria de amor - com Miguel Torga e é com êle que eu vou. É com êle que vou a Trás-os-Montes.
Não posso me esquecer daquela noite, numa pequena rua da Tijuca, no Rio de Janeiro, mal sacudido por uma revolução sem sangue - e entre as paredes de uma residência transformada em centro tansmontano, a figura sombria de Miguel ao fundo da sala, a falar de um mundo seu.
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Tendeiros, biscateiros, marceneiros, canteiros, taberneiros, carvoeiros e outros eiros misturados a atacadistas, varejistas, sêco-molhadistas, capitalistas e outros istas de um reino emigrado.
O reino maravilhoso daquela gente simples, da côr da terra, do coração grande e das mãos sempre estendidas - para o abraço ou para o murro.
Não existe povo mais autêntico sôbre a face da terra que o povo de Trás-os-Montes.
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Espigueiro (celeiro)
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Ouço ainda Miguel Torga a falar de sua província, a uma saudade estatelada dentro do salão.
Um namorado a dizer maravilhas da namorada.
A paixão - desculpou-se êle - é uma fôrça terrível, move montanhas, transpõe oceanos e obriga homens tímidos a essas violências do pudor.
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E lá ficou a falar de Trás-os-Montes, procurando não meter na conversa sombra de literatura.
Suas palavras foram, na realidade, palavras físicas, realidades físicas, como urgueiras floridas, talefes brancos, restolhos dourados - doirados dizem êles - a fazerem, na oração, de sujeito, de verbo e de complemento.
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Ponte romana
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Em vez de catadupas de som, Torga despejou cêstos de uva, sacos de castanhas, presuntos, facadas, procissões, feiras e uma encosta de Montesinho ou de Barroso a servirem de pano de fundo aos olhos de uma platéia enlevada.
Em muitos olhos duros de português transmontano havia lágrimas.
Talvez nos olhos de gente que não chorasse nem na morte da mãe.
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Ao escutar o idioma, como pedra cristalina, descendo das pedras de Torga, via-o a fazer a barba do pai, em S. Martinho de Anta, a ajudá-lo na semeadura, ou sentia-o a chorar numa fazenda de Leopoldina, em Minas, adolescente ainda, sob um saco de café, onde o que pesava mais era a saudade.
Tenho a impressão de que essa palavra - saudade - foi inventada aqui em Trás-os-Montes.
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Nos poucos minutos daquela prosa, o poeta levou seus irmãos pelo caminho que vai à padroeira de cada freguesia, misturou o seu barro humano com o de sua gente, fazendo com que saísse da união a imagem verdadeira, ampla e significativa dum berço que é todo simplicidade.
Falou sem preocupação de gramática nem de estilo, porque, ao primeiro sinal de retórica, aquêle berço deixaria de embalar.
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De olhos enxutos, um povo esmagado de lembranças, Torga estendeu no soalho da sala o mapa invisível de Trás-os-Montes, e cada um se sentiu com os pés enterrados no húmus de sua aldeia.
Os da Régua se sentiram na Régua. Os de Vinhais, em Vinhais. Os de Mirandela, em Mirandela. Os de Carrazeda, em Carrazeda.
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Procissão de N.ª Sr.ª da Pena, Mouçós, Vila Real.
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O que Miguel Torga não imaginou é que eu, um brasileiro de Jaú, estivesse em Vila Real, a beber do vinho honesto do Padre Henrique, a almoçar na Quinta do Narciso, a comer em Rebordelo os salpicões da mãe do meu companheiro Luiz dos Santos; a dormir debaixo de uma ramada, como alguém que volta a uma pátria escolhida.
A sua pátria intelectual.
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Entrei no reino transmontano de Torga, formando a guarnição do pequeno mundo que viu nascer a todos aquêles bons homens que estavam numa sala explosiva de saudade.
Desde então passei a mourejar com todos os glóbulos sarracenos prestes a incendiarem como os xistos de lá. A saudade de um transmontano é saudade defumada, que conserva a gostosura da carne, a doçura do clima e a amargura da terra.
O homem, Torga, fêz descer a todos, fêz voltar a todos, fêz chorar a todos.
Fêz chorar até a mim, que não tenho nada com isso.
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Sé Catedral - Vila Real
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Vim a baixar da Terra-Fria, aonde nunca tinha ido, para a Ribeira à frente da roga, de harmônio ao peito como um fadista.
Depois fui contrabandear na raia, senti-me a desconjuntar lusitanamente os verbos, a ceifar na lomba, a saibra, a redrar, conforme a hora, conforme o tempo.
Aportuguesei-me.
Amiguei-me com Portugal.
De cama, de mesa e de graça.
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Espigueiros
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- Que diabo de língua falas tu? - perguntou-me, em tom naturalmente altivo, um pastor que descia a Chaves.
E ao ouvir Torga no centro transmontano do Rio de Janeiro, recordei-me de Rubem Braga, a dizer a Rachel de Queiroz que a língua portuguêsa emigrou para o Brasil quando estava no apogeu - e em Portugal ficou apenas um dialeto falado por um grupo reduzido.
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Até Camões é mais Camões recitado por um brasileiro.
Camões em ritmo português é Camões de pé-quebrado, diz a presunção brasileira.
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S. Martinho de Anta, terra natal de Miguel Torga
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Mas não é possível descrever a Portugal e muito menos ao melhor de Portugal, que está atrás dos montes, onde se grita ao lá de fora: - Entre quem é! -
Não se pode pintar a êsse quadro com as nossas tintas.
São fortes demais na luz. São fracas demais na côr.
Naquela noite, em que, pela primeira vez, me levaram pela palavra para além do Marão, a sala teve sol e neve.
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Como um hipnotizador, Miguel Torga, o gênio transmontano, carrancudo e generoso, traçou para cada um o rosto da amada perdida.
Fê-los subir, a todos, o outeiro da memória.
Acendeu na alma de cada um o fogo dos arraiais distantes.
E todos, agachados, ficamos a ouvi-lo, como a um pajé misterioso que estivesse a cortar fatias de lembranças. Não, não era uma descrição, era uma comunhão, onde eu, como um maometano que não sou entre cristãos que não eram, vinha juntar-me.
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O rebanho, o pastor, os cães e a neve
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Naquela noite de Torga, quem era de Vila Flor passou mentalmente a apanhar azeitona na sala.
Do Romeu, a descascar sobreiros.
De Favaios, a cozer trigo.
Do Vimioso, a escavacar pedreiras.
- Mas, eu?
- De onde é o amigo?
- Do Jaú.
- Pois entre no grupo. Entre como se fôsse de Freixo. Entre na roda e coma amêndoas. Queria ficar de fora, o grande marôto!
- E nós, santinho? Somos de Pinhãocelo.
- De Pinhãocelo? Vamos, aparelhe os machos e ferre-lhes com a carga em cima. Depressa! Pena não haver ninguém de Pocinho. Há? Ó criatura de Deus, salte para dentro do rabelo e agarre-se à espadela. Mas cuidado! O cachão da Valeira é traiçoeiro. Apegue-se a S. Salvador do Mundo.
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E assim, dentro daquela sala em cuja ampliação agora estou, Torga, naquela noite, teve seu reino animado.
Os rios com barcos e barqueiros, as serras com rebanhos e zagais, os lameiros com charruas e lavradores. Todos olhavam orgulhosamente, transmontanamente, para êsse reino viril de homens viris.
Nenhum outro reino mais belo, mais castiço e mais aberto.
- Entre quem é!
Nenhum outro reino tão capazmente servido pelo seus filhos nem tão devassado, tão escancarado para os que chegam de alma aberta.
- Entre quem é!
A beleza de lá não tem maneirismo, nem o catecismo de lá é arcaico, nem a fundura dos horizontes de lá significa perdição no vago, nem os sentimentos dos habitantes são mesquinharias.
De Trás-os-Montes, perdoem-me os outros, Portugal exporta o melhor.
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Recordações
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De Sabrosa ao Pinhão, do Tua a Bragança, da Régua a Chaves, de Freixo a Barca de Alva ou em Boticas, é o que se vê: sempre o mesmo lençol de fragas e a mesma gente a nascer nêle.
A fisionomia dos relevos, a máscara enrugada das penedias, a estimulante largura dos descampados correspondem no humano a uma fisionomia igual, recortada em granito, máscula, austera, e, ao mesmo tempo, viva e generosa.
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Ouço ainda a se dizer naquela sala, dentro da qual coube uma pequena leira lusíada, que o destino quis que houvesse no tôpo uma costeira, onde tudo tivesse caráter e dignidade.
Onde a vista pudesse desfrutar dali perspectivas originais, onde a enxada pudesse mostrar na dureza dos torrões a dureza do aço, onde o fole do peito se enchesse por inteiro a cada respiração, onde todos os sêres ali nascidos ou ali vividos estivessem à altura.
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Portugal encontrou em Trás-os-Montes o seu telhado, a lousa que lhe resguarda as virtudes, a saúde física e moral, a tenacidade mourejadora (sempre os mouros do meu sangue), a pureza dos costumes e a expressão mais nobre e acabada das feições interiores, a mais severa e desassombrada parcela da pátria, a mais estremada expressão do seu povo.
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A capa de honras daquele mirandês que ali aparece não é um trajo de festa, mas o paramento dum sacerdote laico da dignidade.
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A louça negra que nos vende êste oleiro de Bisalhães não é, como parece, apenas barro amassado e cozido, mas o lado noturno da fome na sua expressão estóica, porque existe um Portugal pobre, que luta e sofre, a catar os seus próprios meios, a viver com os seus próprios recursos, mas um Portugal que não pede esmolas nunca.
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Vai puxando lá embaixo o rabelo à sirga, um môço vai picando a junta de bois ou abrindo a valeira na teimosa persistência.
A admiração alheia é apenas um estímulo para prosseguir.
O transmontano sente a perfeição interior.
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Sem favor algum, é perfeito desde a maneira de estender uma tigela de caldo a um pobre, à largueza de abraçar um amigo - ou em concretas obras-primas de sabor, de graça, de habilidade e de figura.
E até de grossura, diria eu, ao colhêr dessa epopéia escrita a enxadão tôda uma filosofia condensada num provérbio de sabedoria velha:
Quem tripas comeu e com viúva casou, sempre há de se lembrar do que por lá andou.
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Por lá andei, com viúva não casei, por isto trago apenas, de Trás-os-Montes, um gôsto de saudade defumada, neste fim de viagem."
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(David Nasser - O Cruzeiro - Rio de Janeiro - Brasil - 3 de Outubro de 1964)
(Fotos: Flickr)
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