terça-feira, 29 de setembro de 2009

Os Últimos Guerreiros do Imperador Qin (Xian - China)

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Guerreiros de Xian, ou Exército do imperador Qin, é uma colecção de mais de oito mil figuras de guerreiros e cavalos em terracota, em tamanho natural, encontradas nas imediações do mausoléu do primeiro imperador da China.
Foram descobertas em 1974, próximo de Xian.
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As imagens em terracota foram enterradas junto ao mausoléu do imperador Qin Shihuang em c. 209-210 a.C..
A descoberta ficou a dever-se a uns agricultores locais que escavavam um poço de água a leste do monte Lishan, uma elevação de terra feita por mãos humanas (a qual contém a necrópole).
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A construção do mausoléu começou em 246 a.C., e acredita-se que 700.000 trabalhadores e artesãos levaram 38 anos para completar a gigantesca obra.
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De acordo com o historiador Sima Qian, na obra Registos do Historiador (c. 100 a.C.), o imperador foi sepultado em 210 a.C. juntamente com os seus tesouros e objetos artísticos, bem como com uma réplica do universo, onde os astros eram representados por pedras preciosas, os planetas por pérolas e os mares por lagos de mercúrio.
Pesquisas recentes detectaram altos índices de mercúrio no solo, comprovando o historiador.
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O túmulo fica perto de uma pirâmide de terra com 47 metros de altura e 2,18 quilómetros quadrados de área, mas esta não foi ainda devidamente explorada por se temer que a erosão provocada pelas chuvas possa danificá-la.
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O complexo foi construído para servir de palácio ou corte imperial. Divide-se em diferentes estruturas e salas, sendo rodeado por uma muralha com diversos portões.
Ficou protegido por este enorme exército de soldados em terracota, em guarda nas proximidades.
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Acharam-se restos de muitos artesãos e suas ferramentas, o que faz crer que eles tenham sido enterrados com o imperador para impedir que revelassem a existência dos tesouros a eventuais salteadores.
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sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Desastre do Vau do Pembe (Angola) - 25 de Setembro de 1904

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Tropas portuguesas atravessam o vau do Pembe, no rio Cunene (Sul de Angola)
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Perfazem-se hoje precisamente 105 anos sobre o terrível desastre militar no Sul de Angola, onde pereceram, em condições trágicas, centenas de soldados portugueses.
Completam-se também 104 anos sobre a missa mandada celebrar, na Igreja dos Mártires, em intenção do tenente Luz Rodrigues, um dos heróis do combate (ver dois posts abaixo).
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Podem reviver tudo isto em:
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Igreja dos Mártires - Lisboa- Portugal

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(Clicar na figura para ampliar)
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quarta-feira, 23 de setembro de 2009

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Os novos valores...

"(...) Pensando bem, temos razões para ser infelizes ou, pelo menos, pouco felizes.
Os políticos mentem-nos, manipulam a nossa benevolência, prometem-nos melhorias, cavalgam as nossas mais rústicas e asseadas esperanças.
As instituições seguem-lhes o rasto. Foram, aliás, criadas por eles, ou são filhas dilectas do sistema.
Os peralvilhos que as dirigem, sob designações as mais diversas, são criaturas pouco recomendáveis.
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Todos nós sabemos disto, comentamos amargamente a roubalheira que por aí anda, nem sequer nos divertimos quando banqueiros vão para a cadeia ou estão sob a ameaça de lá ir parar.
Desconfiamos, mas não damos um passo para as coisas serem diferentes.
Votamos nos partidos que sustentam esta gente porque esta gente mantém o sistema e não está nada interessada em o alterar.
Aliás, nada de real e de rigoroso poderá ser feito sem se pulverizar as estruturas que vão segurando, como um andaime, esta sociedade. (...)
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Vivemos nesse universo obscuro e inquietante da competitividade e dos objectivos a atingir.
Vale tudo, inclusive a própria vida humana.
Dissiparam-se os exemplos que serviam de rota e de escora.
A palavra de honra deixou de comparecer nas relações sociais.
A classe dirigente recusa-se a entender que uma promessa não é só um compromisso - é um crédito de honra. (...)
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A honra desapareceu do circuito normal onde as ligações afins se estabeleciam e se solidificavam.
Os contratos eram feitos através desses compromissos morais. Devo dizer que tenho saudades do tempo em que um aperto de mão cimentava alguma coisa.
A honra, a dignidade e as relações como construção dos laços sociais.
Confiava-se. Apenas isto.
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Agora, por todo o lado, as novas figuras de autoridade, a classe dirigente e os seus pequenos estipendiados parece terem renunciado a essas práticas.(...)
É o mundo da mentira, da torpeza e do impudor que campeia por aí, a todos os níveis e em todos os sectores da sociedade.
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(Baptista-Bastos - Jornal de Negócios - Lisboa - Portugal - 18 de Setembro de 2009)
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segunda-feira, 21 de setembro de 2009

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Eça de Queiroz e a Marinha Portuguesa ("As Farpas" - Julho de 1871)

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“Mas, meus senhores, antes de tudo, nós não temos Marinha!
Singular coisa! Nós só temos Marinha pelo motivo de termos colónias – e justamente as nossas colónias não prosperam porque não temos Marinha!
Todavia, a nossa Marinha, ausente dos mares, sulca profundamente o orçamento. Gasta 1 159 000$000.
Que realidade corresponde a esta fantasmagoria das cifras?
Uns poucos de navios defeituosos, velhos, decrépitos, quase inúteis, sem artilharia, sem condições de navegabilidade, com cordame podre, a mastreação carunchosa, a história obscura.
É uma Marinha inválida.
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A D. João tem 50 anos, o breu cobre-lhe as cãs: o seu maior desejo seria aposentar-se como barca de banhos.
A Pedro Nunes está em tal estado, que, vendida, dá uma soma que o pudor nos impede de escrever.
O Estado pode comprar um chapéu no Roxo com a Pedro Nunes – mas não pode pedir troco.
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A Mindelo tem um jeito: deita-se. No mar alto, todas as suas tendências, todos os seus esforços são para se deitar.
Os oficiais de Marinha que embarcam neste vaso fazem disposições finais.
A Mindelo é um esquife – a hélice.
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A Napier saiu um dia para uma possessão. Conseguiu lá chegar. Mas, exausta, não quis, não pôde voltar. Pediu-se-lhe, lembrou-se-lhe a honra nacional, citou-se-lhe Camões, o Sr. Melício, todas as nossas glórias. A Napier, insensível, como morta, não se mexeu.
Das 8 corvetas que possuímos são inúteis para combate ou para transporte – todas as 8.
Nem construção para entrar em fogo, nem capacidade para conduzir tropa.
Não têm aplicação.
Há ideia de as alugar como hotéis. A nossa esquadra é uma colecção de jangadas disfarçadas! E este grande povo de navegadores acha-se reduzido a admirar o vapor de Cacilhas!
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Têm um único mérito estes navios perante uma agressão estrangeira: impor-se pelo respeito da idade. Quem ousaria atacar as cãs destes velhos?
Já se quis muitas vezes introduzir nas fileiras destes vasos caducos alguns navios novos, ágeis, robustos. Tentou-se primeiro comprá-los.
Sucedeu o caso da corveta Hawks.
Era esta corveta uma carcaça britânica, que o Almirantado mandava vender pela madeira – como se vende um livro a peso.
Por esse tempo, o Governo português – morgado de província ingénuo e generoso – travou conhecimento com a Hawks, e comprou a Hawks. E quando mais tarde, para glória da monarquia, quis usar dela, a Hawks, com um impudor abjecto, desfez-se-lhe nas mãos!
Estava podre! Nem fingir soube! Tinha custado muitas mil libras.
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Tentou-se então construir em Portugal.
Sabia-se que o Arsenal é uma instituição verdadeiramente informe: nem oficinas, nem instrumentos, nem engenheiros, nem organização, nem direcção. Tentou-se todavia – e fez-se nos estaleiros a Duque da Terceira. Foi meter máquina a Inglaterra. E aí se descobre que a tenra Duque da Terceira, da idade de meses, tinha o fundo podre!
Foi necessário gastar com ela mais cento e tantos contos.
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Nova tentativa. Entra nos estaleiros a Infante D. João. 87 contos de despesa. Vai meter máquina a Inglaterra. Fundo podre! O Arsenal perdia a cabeça! Aquela podridão começava a apresentar-se com um carácter de insistência verdadeiramente antipatriótica!
Os engenheiros em Inglaterra já se não aproximavam dos navios portugueses senão em bicos de pés – e com o lenço no nariz. As construções saídas do Arsenal sucumbiam de podridão fulminante.
A Infante D. João custou em Inglaterra mais cento e tantos contos!
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O Arsenal, humilhado no género navio, começou a tentar a especialidade lancha. Fez uma a vapor. Lança-se ao Tejo, alegria nacional, colchas, foguetes, bandeirolas… E a lancha não anda! Dá-se-lhe toda a força, geme a máquina, range o costado – e a lancha imóvel! Mas de repente faz um movimento…
Alegria inesperada, desilusão imediata! A lancha recuava. Era uma brisa que a repelia.
Em todas as experiências a lancha recuava com extrema condescendência: brisa ou corrente tudo a levava, mas para trás. Para diante, não ia.
O Arsenal tinha feito uma lancha a vapor que só podia avançar puxada a bois.
O País riu durante um mês.
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A nossa glória, inquestionavelmente, é a Estefânia.
Parece que poucas nações possuem um vaso de guerra tão bem tapetado! O orgulho daquele navio é rivalizar com os quartos do Hotel Central. É um salão de Verão surto no Tejo.
E no Tejo, realmente, dá-se bem. No mar alto, não! Aí tem tonturas. Não nasceu para aquilo: um navio é um organismo, e como tal pode ter vocações: a vocação da Estefânia era ser gabinete de toilette. É pacata como um conselheiro. É uma fragata do Tribunal de Contas!
Por isso, quando a quiseram levar a Suez, quantos desgostos deu à sua Pátria! Quantas brancas fez à honra nacional!
É verdade que os cabos novos, da Cordoaria Nacional, quebraram como linhas, e ninguém lhes pode contestar que tivessem esse direito.
A marinhagem também não quis subir às vergas (opinião respeitável, porque a noite estava fria).
Alguns aspirantes choraram de entusiasmo pela Pátria.
O capelão quis confessar os navegadores.
O caso foi muito falado nesse tempo. Mais celebrado que a descoberta da Índia. (…)
O facto é que desde então brilha no Tejo, tranquila, reluzente, vaidosa – a Estefânia, corveta mobilada pelos Srs. Gardé e Raul de Carvalho.”
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Eça de Queiroz – Uma Campanha Alegre ( As Farpas - Julho de 1871) - Vol. I - Pág.134-138)
Lello & Irmão Editores – Porto – Portugal – 1979.
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quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Olhares...

(Clicar nas fotos para ampliar)
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(Fotos de Isabel Gomes da Silva)
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sábado, 12 de setembro de 2009

Recordando David Nasser, de "O Cruzeiro" (Brasil)

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O semanário O Cruzeiro foi uma das mais conhecidas e divulgadas revistas brasileiras, também muito popular em Portugal.
Pertencente ao grupo dos Diários Associados, de Assis Chateaubriand (o Chatô), publicou-se entre 1928 e 1975.
Pela suas páginas desfilaram nomes e figuras como Carlos Lacerda, Rachel de Queiroz, Carlos Estêvão, Millôr Fernandes, O Amigo da Onça, Jean Manzon e muitos, muitos mais...
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... tal como David Nasser (foto abaixo), fantástico jornalista, repórter, cronista - e, também, compositor musical (Nêga do Cabelo Duro...).
Filho de imigrantes libaneses, nasceu em 1917 e faleceu em 1980.
Distinguiu-se sobretudo pelas suas crónicas polémicas, de uma coragem, contundência e paixão incomuns.
Profissional controverso, usando métodos por vezes pouco ortodoxos, acabou por tornar-se figura incontornável do jornalismo brasileiro.
Continua a ser hoje um prazer passar os olhos pelo seu estilo vergastante e inconfundível.
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Publica-se adiante uma prosa de homenagem que José Cândido de Carvalho (grande escritor!) lhe dedicou em 1964. Respeita-se a grafia brasileira.
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David Nasser
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"Uma tarde, lá pelos tempos de 1937, dava entrada na redação de “A Noite” um moço de andar marinheiro, meio adernado no vestir, de fala mansa e olhar de relâmpago. O velho Castelar de Carvalho, com suas longas barbas de judeu das Escrituras, disse mais ou menos assim:
- Se eu fôsse dono desta baiúca (a baiúca era o seu querido jornal) botava êsse sujeitinho de 20 anos na balança e pagava o pêso dêle em ouro. Vale por uma redação inteira e equipada.
Olhei para o lado. O sujeitinho que Castelar de Carvalho queria contratar, a poder de barras de ouro do Banco do Brasil, era David Nasser em pessoa, de paletó-saco e jornal na mão.
Agora o velho Castelar é uma saudade e o ano de 1937 apenas uma lembrança de calendário. Mas a frase ficou:
- Vale por uma redação inteira.
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É claro que outros anos passaram e outras tardes morreram. A profecia do velho Castelar havia de ganhar corpo e alma. David Nasser firmou nome como um dos grandes mestres do jornalismo nesta e noutras praças nacionais e mundiais, incluindo Europa, Paris e Bahia.
Sua geografia perdeu a noção de fronteiras – o mundo passou a viajar na mala de David, ao lado de suas escôvas e passaportes.
Uma noite estava em Lisboa, na Havaneza de Eça de Queiroz. Outra noite, ao lado de uma fogueira, num naco do Saara, entrevistando um rei do areal qualquer.
O assunto às vezes não prestava. Mas o talentão de David recauchutava tudo, emprestava tonalidades de ouro (e ouro de lei) ao latão mais desmoralizado.
Nessas suas andanças de Marco Pólo há bilhetes e cartas de príncipes com trono e sem trono, de milionários, de mágicos, de ministros, de poetas e bandidos.
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Pergunto a David, num dia de confidências, quais os tipos de sua predileção:
- Os vagabundos.
Sim, ele tem um fraco todo especial, todo davidiano pelos vagabundos, pelos andarilhos, pelos humildes. As melhores histórias que gosta de contar são as histórias simples do povo, dos joões da silva, dos joaquins pereiras que falam maravilhosamente pela pena dêsse mestre da crônica e do panfleto.
Nisso, David está com a Bíblia: o reino dos céus não foi feito para os comerciantes de atacado, nem para os açambarcadores de feijão e açúcar. E nem para os burros.
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Com o tempo, excelente mestre de estilo e vivência, David perdeu certas asperezas e mandacarus. Sua prosa de hoje tem claridades de cristal lavado. Cintila. É um poderoso escritor a serviço do jornalismo.
Sua crônica semanal é lida, e guardada, por milhões de brasileiros. No seu elenco há figuras de drama e de circo-de-cavalinho. A injustiça funciona nêle como mordida de cobra. Seja a injustiça no varejo ou no atacado, feita a um pequeno funcionário do montepio mais municipal ou ao político caído em desuso. Os moinhos de vento de Dom Quixote estão sempre às ordens de David Nasser. Sancho Pança não faz parte de sua família espiritual. Nunca comeu de seu pão nem bebeu de seu vinho.
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Certo político caixa-baixa, esperto como um esquilo, queria por fôrça ser destratado, em prosa ou em verso, por David Nasser. Procurei saber os motivos. O homenzinho, piscando o olhinho miúdo, foi taxativo:
- Levo uma sova, meu caro, mas todo mundo vai tomar conhecimento da minha existência. Viro vedete nacional.
Engano do pobre político municipal. David não bate em gente de meio metro. Suas paradas, as mais ruidosas do Brasil, são na base dos jotas: JK, Jânio ou João Goulart. Não faz por menos. Sua pólvora não é para passarinho de vôo curto. Ou águia, ou tiro ao alvo.
Cá entre nós: gosto de ver David Nasser nessas batalhas campais. Há nelas cintilar de espadas, brilho de aço em noites de lua cheia. David é um mestre perfeito no ataque-arte que êle domina como ninguém neste país. Desmonta o adversário como um velho relojoeiro desmonta um relógio.
O tal político municipal, um esquilo de esperteza, tinha razão. Levava meia dúzia de brilhantes sarrafadas, mas comprava lugar na glória. Mesmo a poder de arnica e esparadrapo.
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Pois vos digo que são essas as minhas pequenas memórias de David Nasser. Todos nós, jornalistas de pequena cabotagem ou das largas navegações, temos um pouco de D’Artagnan, de personagem de capa e espada. Alguns, no rolar dos anos, deixam o chapéu de plumas e o florete. Vão ser funcionários do Fomento Rural ou do Instituto da Piaçava. David não. Nasceu herói de Alexandre Dumas e vai até ao fim dos tempos, assim, cada vez mais mosqueteiro, cada vez mais D’Artagnan.
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Um dia, que espero em Deus esteja longe, baterá David às portas de São Pedro. O velho chaveiro, já um tanto gasto em anos e em santidade, não tirará as trancas do reino eterno com a presteza que merece uma figura e a sensibilidade de David Nasser. E já estou vendo o mosqueteiro sacar da espada e gritar bem alto:- Pedro, acautelai-vos!
É assim, glorioso e armado, que David entrará no céu." (*)
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(*) - Autor: José Cândido de Carvalho (Publicado em O Cruzeiro, Rio de Janeiro, Brasil, 18 de Julho de 1964).
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quarta-feira, 9 de setembro de 2009

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

7 de Setembro de 1822 - Grito do Ipiranga: o Brasil independente de Portugal

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O regente D. Pedro, filho de D. João VI, monarca português, proclama junto ao riacho do Ipiranga a independência do Brasil em relação a Portugal. Completam-se hoje 187 anos, mas os Brasileiros continuam sendo o Povo Irmão. Afinal, 322 anos da sua história (1500-1822) foram partilhados connosco numa Pátria comum. E, daí para cá, foram aquelas paragens, para muitos lusitanos, a Terra da Promissão.
Para além do tempo e independentemente das vicissitudes políticas ou normativas, os Brasileiros jamais serão estrangeiros em Portugal...
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sábado, 5 de setembro de 2009

Sul de Angola - O Gado Sagrado entre os Nhanecas-Humbes (2) - O Cortejo do Boi Sagrado

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(Continuação de 22-Ago-2009)
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"A manifestação mais espectacular, respeitante ao gado sagrado, é o chamado "cortejo do boi sagrado", rito que hoje em dia só é praticado entre os Nhanecas.
A festa consiste essencialmente num cortejo solene, que leva o boi sagrado do régulo através do sobado inteiro, com todas as honras que são devidas a um animal no qual as almas dos antigos reis parecem ter estabelecido o seu habitáculo.
O boi, que é de cor branca e preta, tem ao seu serviço um séquito de altos dignitários, entre os quais se destacam o mwene-hambo, que é o chefe dos pastores do gado do soba, e o nthoma, que faz as vezes de arauto, anunciando por toda a parte a passagem do boi.
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Antes da saída do cortejo, o soba faz as recomendações seguintes:
Percorrei a terra, fazei a festa. Se o cortejo encontrar um cabrito no caminho, matai-o; se for um boi, comei-o; se for uma criança, prendei-a e que a família pague um boi para a resgatar!
Toda a pessoa adulta deve venerar o boi à sua passagem. Se houver alguém que assim não proceda, tirai-lhe tudo quanto tem. Se resistir, matai-o. Que não se chore o morto. É um tempo de regozijo!
Que tudo seja permitido! No entanto, não se devem maltratar as mulheres. Não deve haver nem questões nem querelas. Não pode haver lamentações, mesmo que alguém morra. O povo quer a festa. Se eu a não permitisse, o povo ficaria descontente. Ide, pois!
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Feita esta proclamação, procede-se à cerimónia seguinte: a primeira mulher do soba apanha um pouco do pó das pegadas do chefe dos pastores, ao mesmo tempo que uma pequena porção da bosta do boi sagrado, e leva estes produtos para o quarto de dormir, colocando-os debaixo do travesseiro de madeira. Não podendo tomar parte no cortejo, ficar-lhe-á desta maneira pelo menos indirectamente unida. Durante o cortejo, ela e o régulo têm a obrigação de guardar continência, tal como o chefe dos pastores.
A procissão do boi sagrado dura mais ou menos três semanas. Em todas as quintas por onde ele passa são-lhe prestadas todas as honras e, no decorrer da viagem festiva, junta-se-lhe muito gado para acompanhar o cortejo.
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De regresso à residência do soba, este e a mulher principal, mais uma rapariga virgem, apresentam ao animal uma bebida peculiar. O boi sagrado lambe-a com sofreguidão, o que é um motivo de alegria para todos os circunstantes e um óptimo augúrio para toda a tribo. Nesta ordem de ideias, o chefe dos pastores promete prosperidade e uma protecção especial dos espíritos dos antigos sobas para todo o povo." (*)

(*) Adaptado de: Padre Carlos Estermann - Etnografia do Sudoeste de Angola - Vol. 2 - Grupo Étnico Nhaneca-Humbe - Junta de Investigações do Ultramar - Lisboa - Portugal - 1960.

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