terça-feira, 28 de julho de 2009

Aberturas de Grandes Livros - "Napoleão" (Jacques Bainville - França)

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“Quando, em 1768, Luís XV conseguiu reunir a Córsega à França, como não suspeitou ele de que o fundador de uma quarta dinastia nasceria lá um ano depois da sua nova aquisição?
Mas - e se a anexação não tivesse tido lugar?
Em França, eram numerosos os que a não desejavam, considerando-a inútil e embaraçosa.
Se tivesse prevalecido a sua opinião, a ilha ou cairia nas mãos dos ingleses ou seria independente sob o comando de Paoli. Qual teria sido nesse caso a sorte de Napoleão?
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Uma vida obscura, no meio das rivalidades dos clãs, e, quando muito, a propriedade de alguns olivais e de uns quantos pés de vinha. Provavelmente, funções medíocres e honoríficas, a exemplo de seu avô Ramolino, que foi inspector de pontes e calçadas por conta da República genovesa.
E os Ingleses? Esses, nem sequer há a certeza de que tivessem dado um uniforme ao jovem indígena.
Quanto à possibilidade de pôr a sua espada ao serviço de um país estrangeiro, ter-lhe-ia decerto faltado a educação militar. Ou tê-la-ia Napoleão recebido?
Sem a França, o seu génio não se teria revelado.
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A anexação constituiu o seu primeiro golpe de sorte, pois uniu a Córsega a um país suficientemente liberal, confiante e generoso para abrir as suas melhores escolas aos franceses de última hora.
Além disso, o país atravessaria uma fase de perturbação precisamente na data em que o jovem ajacciano atingia os vinte anos. E esta vasta desordem viria a oferecer oportunidades de inauditos destinos aos indivíduos bem dotados.
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Este homem extraordinário não só sabia o que o seu destino tinha tido de prodigioso, como também possuía consciência da conjugação de ocorrências que haviam sido necessárias para o elevar ao Império e torná-lo sobrinho do rei de quem, lugar-tenente obscuro, ele tinha visto a queda por ocasião da jornada do 10 de Agosto.
Que romance, no entanto, foi a minha vida!, exclamará, no momento do epílogo.
De uma outra vez, em Santa Helena, dizia que passariam mil anos antes que as circunstâncias que se tinham acumulado sobre a sua cabeça viessem a escolher um outro de entre a multidão para o elevar assim tão alto (…).”
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Napoleão – Jacques Bainville (1879-1936) - (Publicado por Editorial Aster, Lisboa, 1960)
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Disponível na Biblioteca Nacional de Lisboa (Cota --> H. G. 21472 V. )
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terça-feira, 21 de julho de 2009

O "Índia" (Eça de Queiroz - 1872)


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"O Índia, o melhor navio que temos, o navio novo, expressamente feito para uso do País, comprado com madura reflexão, examinado com escrupulosa ciência, glória da nossa Marinha, defesa das nossas colónias, garantia da nossa honra, o Índia, que sábias comissões aprovaram, que uma recta imprensa exaltou, que professores da Escola Normal celebraram, que é o nosso transporte para a Índia, que custou muitas mil libras, que é novo, perfeito, impecável, o Índia – mete apenas cinco polegadas de água por dia!
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Louvemos a Providência em humilde atitude: o Índia podia não ter fundo!
Mas não, o Índia é novo e bem acabado, é o nosso glorioso vaso, ele conhece, ele sabe o brasão heróico que tem, compreende a responsabilidade que arvora, vê que lhe cumpre sustentar o nome da Lusitânia; e portanto o Índia, com uma moderação que nos comove até às lágrimas, o Índia, o Índia querido e estremecido – mete apenas cinco polegadas de água por dia!
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E todavia o Índia podia – quem lho impediria? quem ousaria coibir-lhe a nobre vontade? - o Índia podia não ter casco! O Índia poderia não ter costado!
Mas não, o Índia sabe os deveres da boa educação e a moderação de um procedimento honesto: o Índia - limita-se a meter apenas cinco polegadas de água por dia!"
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Eça de Queiroz - As Farpas - Janeiro de 1872 - Lisboa - Portugal.
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sábado, 18 de julho de 2009

Aberturas de Grandes Livros - "O Homem e o Rio" (William Faulkner - Estados Unidos)

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“Era uma vez dois forçados (passou-se isto no Mississipi, em Maio, no ano da grande cheia de 1927).
Um deles, alto, esgrouviado, o ventre estio, de pele crestada pelo sol e cabelo negro de índio, andava pelos vinte e cinco anos. Os seus olhos baços, de uma cor de faiança, tinham um ar ofendido – uma ofensa dirigida não tanto contra os homens que goraram o seu crime, nem mesmo contra os advogados e juízes que para ali o mandaram, como contra os autores de folhetins, os nomes incorpóreos ligados às histórias – os Diamond Dicks, os Jesse James e quejandos -, os quais responsabilizava pela sua presente situação, devido à ignorância e credulidade deles em relação ao meio em que se imiscuíam e pelo qual cobravam dinheiro, ao fornecerem informação a que davam o cunho de autenticidade e verosimilhança. (…)
Tinha de cumprir uma pena de quinze anos (chegara ali pouco depois do seu décimo nono aniversário) por tentativa de assalto e roubo num comboio.
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Havia planeado tudo com antecedência e seguira à letra a falsa autoridade impressa.
Guardara durante dois anos os magazines de crime, lendo-os e relendo-os de cor, comparando e verificando cada história e cada método entre si, extraindo o que era útil em cada uma delas, depurando-as da ganga, à medida que surgia o seu plano de acção, e mantendo o espírito alerta para as subtis mudanças de último minuto, sem pressa nem impaciência, enquanto os novos fascículos apareciam nos dias previstos, tal como uma modista conscienciosa faz subtis alterações num vestido de apresentação na corte à medida que vão aparecendo novas revistas de modas.
E, finalmente, quando chegou o dia, nem sequer teve tempo de atravessar as carruagens e apoderar-se dos relógios e anéis, dos broches e dos cintos com dinheiro escondido, porque foi capturado assim que entrou na carruagem do expresso onde se encontrariam o cofre e o ouro.
Não disparara um tiro sequer (…)” (*)
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(*) - O Homem e o Rio - William Faulkner (n. 1897 - f. 1962) - Editado por Publicações Europa-América, Lisboa, Portugal, 1971.
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Também disponível na Biblioteca Nacional de Lisboa (Cota --> L. 65134 P. )
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quarta-feira, 15 de julho de 2009

Grandes Quadros (Paula Rego - Portugal)

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A Casa de Celestina (2000-2001)
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Paula Rego (n. 1935 - Lisboa - Portugal)
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(Clicar na figura para ampliar)

sábado, 11 de julho de 2009

A Dama de Elche - Um Belo Enigma Ibérico

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A Dama de Elche - Busto de mulher, encontrado, por acaso, em Elche, província de Alicante (Espanha), perto do mar. No local têm aparecido objectos de quase todas as épocas.
Com 56 cm. de altura, lavrado em calcáreo, é um dos monumentos escultóricos mais notáveis de origem peninsular.
Deverá datar do século IV ou V a.C.
Está presentemente no Museu Arqueológico de Espanha, em Madrid.
O busto foi originalmente colorido (ver, abaixo, um desenho de Francisco Vives com uma hipótese das cores iniciais).
Acha-se em bom estado de conservação.
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O seu significado e origem permanecem misteriosos.
Não há dúvida ter sido o seu autor ou grego ou indígena helenizado, tal a perfeição das feições e dos ornatos que exibe, não só no alto da cabeça (tiara) como aos lados, onde aparecem umas caixas circulares para nelas serem metidos os cabelos, depois de enrolados.
Apresenta ainda um diadema na fronte, colares ao pescoço e uma mantilha nos ombros.
A peça tem um largo orifício atrás, onde, de resto, a escultura é menos cuidada.
Seria, talvez, uma peça funerária, modelada sobre a face da defunta - e que guardaria na cavidade praticada no busto a sua urna cinerária ou objectos sagrados? Seria uma divindade? Jamais haverá uma resposta definitiva.

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(Texto adaptado de Verbo - Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura e de Wikipédia).
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quarta-feira, 8 de julho de 2009

Karl Malden - O Actor Que Pagou a Dívida (*)


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"No dia 1 de Julho, aos 97 anos, morreu Karl Malden.
Ele pertence àquela legião de actores secundários que talvez seja a primeira razão para o cinema americano ser grande.
Ganhou um Óscar em Um Eléctrico Chamado Desejo e foi o padre em Há Lodo no Cais...
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Mas trago-o para esta crónica por uma história mais ou menos ao lado do ecrã.
Karl Malden foi baptizado Mladen Sekulovich - era filho de um operário sérvio, imigrante em Chicago.
Quando se tornou actor, mudou de nome. Do próprio, ligeiramente transformado, fez o apelido, Malden, e aboliu, claro, o impronunciável Sekulovich. Os actores perseguem a fama e não lhes serve um nome que atrapalhe.
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Porém, o seu pai, o imigrante sérvio, viu na mudança um desdém pela família...
Quando se tornou famoso, Karl Malden quis pagar essa dívida ao pai.
Nos contratos, obrigava a que, algures, mesmo a despropósito, o nome "Sekulovich" fosse dito. Em Patton, era um soldado, em O Homem de Alcatraz, era um preso, em Há Lodo no Cais, era um sindicalista...
Nos filmes de Karl Malden houve sempre um Sekulovich. Conheço poucos arrependimentos tão belos."
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(*) - Ferreira Fernandes - Diário de Notícias – 4 de Julho de 2009 – Lisboa - Portugal
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sábado, 4 de julho de 2009

A Grande Música de África - "O Leão Dorme Esta Noite" ("Wimoweh")

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Ouçam em duas versões:
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1 - ... pela grande Miriam Makeba:
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http://www.youtube.com/watch?v=0fEHguhykD8
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.2 - ... ou pelo velho Pete Seeger:

http://www.youtube.com/watch?v=9gVTfT3tJAY
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(Para regressar ao blogue depois de cada audição, clique na seta do topo esquerdo do seu écran)
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quinta-feira, 2 de julho de 2009