segunda-feira, 29 de junho de 2009

Grandes Quadros (Alexander Roslin - Suécia)

Senhora com Véu (1768)
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Alexander Roslin - Suécia (1718-1793)
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(Clicar na figura para ampliar)
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domingo, 28 de junho de 2009

A Europa - Sempre os mesmos...

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"(...) Aliás, "aquela" Europa, desconhecida pela esmagadora maioria dos europeus, está condenada a uma vacuidade.
A fragmentação da União não é, somente, de características ideológicas.
Trata-se de uma acentuada carência de convicções, não prevista pelos chamados "pais fundadores", que fundaram, feitas as contas, um saco de gatos - para não dizer um saco de escorpiões.
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Nada sabemos uns dos outros.
Olhamo-nos com desconfiança. E com um misto de inveja e de despeito em relação a países mais desenvolvidos.
Mas a ignorância não é, exclusivamente, portuguesa.
Creio, inclusive, que numerosos dirigentes europeus pouco ou nada conhecem das específicas realidades nacionais.
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Pensava-se que o problema dos pobres seria resolvido por uma Europa cheia de solidariedade, de atenções para com os mais débeis, de compaixão por todos os desfavorecidos.
Mentira.
A Europa que aí está favorece os mais ricos, os mais fortes e os mais poderosos, atirando, negligentemente, umas migalhas, e organizando-se para se defender de qualquer pretexto que não seja esse.
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A Europa Social é um mito, uma mentira, e uma aldrabice programada, porque as classes mandantes sabiam muito bem o que estavam a fazer.
Foi-nos inculcada a ideia de que seríamos muito felizes, porque seríamos todos iguais.
Nenhuma nação suplantaria as outras.
As decisões seriam irmãmente tomadas, entre sorrisos e reverências amigáveis.
Claro que só a exposição desta ideia mirífica era um absurdo.
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A União Europeia, no seu bojo, pretendia, unicamente e talvez exclusivamente, ser uma união económica, comandada pelos países mais desenvolvidos.
Os Estados Unidos nem sequer se perturbaram, eles, em princípio os mais directamente ameaçados por essa hipotética hegemonia. Baralharam, deram as cartas, o sistema ficou na mesma.
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Não é bem assim.
Ficou melhor para os mais ricos.
As desigualdades entre as nações não têm sido seriamente discutidas por ser um assunto desinteressante para o eixo económico que, realmente, manda, decide e resolve.
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O Parlamento Europeu serve para quê?
É a reprodução dos parlamentos conhecidos.
Há maiorias e minorias. Estas estarão sempre sob o jugo das primeiras." (*)
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(*) – Baptista-Bastos – Jornal de Negócios – Lisboa - Portugal - 15 de Maio de 2009.
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sexta-feira, 26 de junho de 2009

Carlota Joaquina - O Pecado Espanhol (de Marsilio Cassotti)

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Acaba de ser lançada por A Esfera dos Livros (Lisboa, Portugal) a obra Carlota Joaquina - O Pecado Espanhol.
Trata-se de nova narrativa histórica de Marsilio Cassotti, desta vez centrada na interessantíssima figura da espanhola que foi rainha de Portugal nos princípios do século XIX.
Carlota Joaquina foi casada com o rei português D. João VI, sendo mãe dos infantes D. Pedro e D. Miguel, que se enfrentariam numa sangrenta guerra civil (liberais contra absolutistas).
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Esta obra - cuja aquisição a Torre recomenda - vem no seguimento de outras que Cassotti dedicou a personagens e episódios da História de Portugal (como D. Teresa - Primeira Rainha de Portugal e, ainda, Infantas de Portugal, Rainhas em Espanha, esta última objecto de uma apreciação crítica na Torre da História Ibérica, em 14 de Julho de 2007).
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Da sinopse preparada pela editora, destacamos:
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Nunca na História de Portugal uma rainha provocou paixões tão contraditórias como Carlota Joaquina de Borbón (1775-1830).
Requintada «divindade tutelar» para os seus seguidores, foi considerada vulgar, luxuriosa e assassina pelos seus inimigos.
Talvez com o objectivo de alcançar a «União Ibérica», o seu avô, Carlos III de Espanha, casou-a com o futuro rei D. João VI.
Em pouco tempo, a «engraçadíssima» infanta espanhola, filha de uma bela e intriguista princesa italiana, conquistou com a sua «desenvoltura» o coração da sogra, a rainha D. Maria I.
Contudo, posteriormente, os seus caprichos incomodariam uma corte receosa das suas origens.
Diante das ameaças da Revolução Francesa, D. Carlota tentou obter o protagonismo nos assuntos públicos. Foi travada pelos que não aceitavam que «as mulheres se metessem nos negócios».
O ressentimento contra um marido que considerava fraco e menos inteligente do que ela levou-a a recorrer à conspiração.
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Pontos salientes da narrativa:
A misteriosa lealdade de Carlota Joaquina a Portugal durante a traiçoeira «Guerra das Laranjas», declarada por seu pai.
A irregular educação dos filhos.
Os rumores sobre os seus amantes.
As excentricidades no Brasil.
As intenções de ser coroada «rainha» em Buenos Aires.
As intrigas para casar as infantas.
A sua recusa em jurar a Constituição liberal.
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Título: Carlota Joaquina - O Pecado Espanhol
Autor: Marsilio Cassotti
Editora: A Esfera dos Livros
Colecção: História Divulgativa
P.V.P: 24 €
Páginas: 320 + 36 extratextos
Formato: 16 X 23,5
Encadernação: Cartonado
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quarta-feira, 24 de junho de 2009

Angola Eterna - O Rio Cunene

Marcando a fronteira entre Angola e a Namíbia (clicar para ampliar)
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Nas Quedas de Ruacaná
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Entre palmeiras esguias, areias fulvas e rochas polidas... (foto de Jorge Cruz)
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domingo, 21 de junho de 2009

O Rei dos Animais (Millôr Fernandes - Brasil)

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Saiu o Leão a fazer sua pesquisa estatística, para verificar se ainda era o Rei das Selvas.
Os tempos tinham mudado muito, as condições do progresso alterado a psicologia e os métodos de combate das feras, as relações de respeito entre os animais já não eram as mesmas, de modo que seria bom indagar.
Não que restasse ao Leão qualquer dúvida quanto à sua realeza.
Mas assegurar-se é uma das constantes do espírito humano, e, por extensão, do espírito animal. Ouvir da boca dos outros a consagração do nosso valor, saber o sabido, quando ele nos é favorável, eis um prazer dos deuses.
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Assim o Leão encontrou o Macaco e perguntou:
"Hei, você aí, macaco - quem é o rei dos animais?"
O Macaco, surpreendido pelo rugir indagatório, deu um salto de pavor e, quando respondeu, já estava no mais alto galho da mais alta árvore da floresta:
"Claro que é você, Leão, claro que é você!".
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Satisfeito, o Leão continuou pela floresta e perguntou ao papagaio:
"Currupaco, papagaio. Quem é, segundo seu conceito, o Senhor da Floresta, não é o Leão?"
E como aos papagaios não é dado o dom de improvisar, mas apenas o de repetir, lá repetiu o papagaio:
"Currupaco... não é o Leão? Não é o Leão? Currupaco, não é o Leão?".
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Cheio de si, prosseguiu o Leão pela floresta em busca de novas afirmações de sua personalidade.
Encontrou a coruja e perguntou:
"Coruja, não sou eu o maioral da mata?"
"Sim, és tu", disse a coruja.
Mas disse de sábia, não de crente.
E lá se foi o Leão, mais firme no passo, mais alto de cabeça.
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Encontrou o tigre.
"Tigre, - disse em voz de estentor - eu sou o rei da floresta. Certo?"
O tigre rugiu, hesitou, tentou não responder, mas sentiu o barulho do olhar do Leão fixo em si, e disse, rugindo contrafeito:
"Sim".
E rugiu ainda mais mal humorado e já arrependido, quando o Leão se afastou.
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Três quilômetros adiante, numa grande clareira, o Leão encontrou o elefante. Perguntou:
"Elefante, quem manda na floresta, quem é Rei, Imperador, Presidente da República, dono e senhor de árvores e de seres, dentro da mata?"
O elefante pegou-o pela tromba, deu três voltas com ele pelo ar, atirou-o contra o tronco de uma árvore e desapareceu floresta adentro.
O Leão caiu no chão, tonto e ensangüentado, levantou-se lambendo uma das patas, e murmurou:
"Que diabo, só porque não sabia a resposta não era preciso ficar tão zangado".
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MORAL - Cada um tira dos acontecimentos a conclusão que bem entende.
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AVISO - Qualquer semelhança com factos recentes da política portuguesa é pura coincidência.
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O texto acima foi extraído de um dos mais geniais livros de Millôr: Fábulas Fabulosas, editado por José Álvaro - Rio de Janeiro, 1964.
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Millôr Fernandes, nascido no Rio de Janeiro a 16 de Agosto de 1923, é um desenhador, humorista, dramaturgo, escritor e tradutor brasileiro.
Nasceu Milton Viola Fernandes, tendo sido registado, graças a uma caligrafia duvidosa, como Millôr.
Aos dez anos de idade vendeu o primeiro desenho para a publicação O Jornal do Rio de Janeiro, recebendo dez mil réis.
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Em 1938 começa a trabalhar como repaginador, factótum e contínuo no semanário O Cruzeiro.
No mesmo ano ganha um concurso de contos na revista A Cigarra (sob o pseudónimo de "Notlim").
Assumiria a direção da publicação algum tempo depois, onde também publicaria a secção "Poste Escrito", agora assinada por "Vão Gogo".
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Em 1941
volta a colaborar com a revista O Cruzeiro, continuando a assinar como "Vão Gogo" na coluna "Pif-Paf".
A partir daí passa a conciliar as profissões de escritor, tradutor (autodidacta) e autor de teatro.
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Dispensa o pseudónimo "Vão Gogo" em 1962, passando a assinar "Millôr" em seus textos n'O Cruzeiro.
Deixa a revista no ano seguinte, por conta da polémica causada com a publicação de A Verdadeira História do Paraíso, considerada ofensiva pela Igreja Católica.
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Em 1964
passa a colaborar com o jornal português Diário Popular.
Em 1968 começa a trabalhar na revista Veja, e em 1969 torna-se um dos fundadores do jornal O Pasquim.
Nos anos seguintes escreveria peças de teatro, textos de humor e poesia, além de voltar a expor no Museu de Arte Moderna do Rio.
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Traduziu, do inglês e do francês, várias obras, principalmente peças de teatro, entre estas, clássicos de Sófocles, Shakespeare, Molière, Brecht e Tenessee Williams.
Depois de colaborar com os principais jornais brasileiros, retorna à Veja em Setembro de 2004
(Extraído e adaptado de Wikipédia).
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quarta-feira, 17 de junho de 2009

Palavras Antigas... (Guerra Junqueiro - Portugal - 1896)


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"(...) Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas.
Um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai.
Um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.
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Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não discriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.
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Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este, criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País.
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A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.
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Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se amalgamando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento - de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar (...)." (*)
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(*) - Guerra Junqueiro, “Pátria”, Portugal - 1896.
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domingo, 14 de junho de 2009

Aberturas de Grandes Livros - "O Processo" (Franz Kafka - Rep. Tcheca)

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“Alguém devia ter caluniado Josef K., visto que uma manhã o prenderam, embora ele não tivesse feito qualquer mal.
A cozinheira da sua senhoria, a sr.ª Grubach, que todos os dias, pelas oito horas da manhã, lhe trazia o pequeno-almoço, desta vez não apareceu.
Tal coisa jamais acontecera.
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K. ainda se deixou ficar um instante à espera; entretanto, deitado, com a cabeça reclinada na almofada, observou a velha do prédio em frente que, por sua vez, o contemplava com uma curiosidade fora do vulgar; depois, porém, ao mesmo tempo intrigado e cheio de fome, tocou a campainha. Neste momento bateram à porta e um homem, que K. jamais vira na casa da sr.ª Grubach, entrou no quarto.
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Esbelto, embora de aspecto robusto, o recém-chegado envergava um fato escuro e justo, cheio de rugas e provido de um cinto, diversos botões, bolsos e fivelas. Ainda que não se visse bem qual a finalidade de tudo aquilo, o vestuário do homem parecia singularmente prático.
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- Quem é o senhor? – perguntou K., soerguendo-se imediatamente na cama.
O homem, porém, ignorou a pergunta, como se estivesse habituado a não ter de justificar a sua presença, e perguntou por sua vez:
- O senhor tocou?
- Sim, para a Ana me trazer o pequeno-almoço – respondeu K., tentando em silêncio, num esforço de atenção, deduzir quem poderia ser aquele cavalheiro.
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Este, porém, não consentindo em se deixar observar demoradamente, voltou-se para a porta e abriu-a um pouco, para dizer a alguém que devia estar mesmo por detrás dela:
- Ele quer que a Ana lhe traga o pequeno-almoço!
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No quarto ao lado houve um pequeno riso que, a julgar pelo som, parecia ter sido compartilhado por várias pessoas.
Embora o estranho não pudesse ter depreendido do riso nada de que já não estivesse a par, disse a K., em tom de informação:
- É impossível. (...)"
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O Processo - Franz Kafka (1883-1924) - Publicado por Livros do Brasil, Lisboa, Portugal, 1963.
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Actualmente editado por Assírio & Alvim, Lisboa (€ 20,00).
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Disponível na Biblioteca Nacional de Lisboa (Cota --> L. 34987 V. )
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sábado, 13 de junho de 2009

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Arte da Caça de Altanaria (2) - Diogo Fernandes Ferreira (Séc. XVII)


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São os Açores no talhe e feição muito semelhantes aos Gaviões, ainda que maiores de corpo, em cuja grandeza excedem a todas aquelas aves que de rapina se sustentam (deixando à parte a Águia, que esta a todas se avantaja na grandeza).
De suas propriedades tratarei adiante.
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Criam os Açores seus filhos em muitas partes do universo, em serras e lugares montosos, cheios de grandes bosques e arvoredos. Nestes fazem seus ninhos; criam uma vez no ano. Em Maio começam a fabricar seu ninho; põem de três até cinco ovos; os primas (fêmeas) estão sempre sobre eles, os treçós (machos) em todo o tempo que a fêmea está chocando lhe trazem de comer perdizes, pombas, e às vezes láparos e rolas.
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Quando lhes trazem a caça que tomam, pousam em certa árvore, que para isso tem perto, e chama a prima com piados, a qual se levanta e vem voando; em chegando perto larga o treçó o que lhe traz para comer; ela antes que chegue a terra o toma.
O treçó em largando a caça se vai voando tão apressadamente que parece temer a prima, a qual, em comendo, se torna aos ovos, e neles está mais tempo a tirar os filhos que as galinhas.
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Tirados (os filhos) se deixa estar alguns dias até eles estarem enxutos da humidade do ovo e cobertos de penugem.
Se a mãe sente que a quentura do sol enfada aos filhos, enrama o ninho e os ampara com as asas estendidas.
Tem cuidado de lhes dar de comer a miúdo.
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Neste nosso tempo vieram a acabar os Açores nestas partes, (pois) que chegou a ser tão excessivo o preço que por cada um em pequeno se dava, que os homens cobiçosos que os tomavam, em achando o ninho o guardavam, para que outros lho não furtassem.
(Certa) vez aconteceu que uns (homens) escondidos esperaram que aqueles que os guardavam fossem buscar de comer e entretanto lho furtaram.
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E vieram a tomar aos pobres pássaros os ovos, e os deitaram a outras aves.
A mim me contou um destes (homens), que mos costumava vender, que subindo a uma árvore a tomar os ovos de um Açor, o prima e o treçó se levantaram e se meteram mui alto no céu, e julgou que daquela vez passavam a África, e nunca mais criaram naquela serra vermelha, onde isto aconteceu.
Pode muito bem ser.
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Em muitas partes de Espanha se tomam Açores em pequenos, como em Navarra, e na terra dos Gélves, nas Astúrias, e em Galiza; e de quaisquer partes que à mão vierem Açores em pequenos os criarão como fica dito no capítulo que trata da criação dos Gaviões, e os cure com a mesma arte, notando que, sendo os Açores já de quatro betas, lhes deitarão rolas e pombinhos de mão, a cada Açor conforme a idade que tiver e se desenvolver voando (…) (*)
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(*) - Arte da Caça de Altanaria (por Diogo Fernandes Ferreira).
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A obra foi publicada no ano de 1616, ao tempo do domínio espanhol de Portugal (1580-1640).
Teve reedição em 1899, na Biblioteca de Clássicos Portugueses, cujo Director Literário foi Luciano Cordeiro.
Esta última edição ficou a dever-se a: Escriptorio - Rua dos Retrozeiros, 147 - Lisboa - Portugal.
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domingo, 7 de junho de 2009

O Drama de Juana - Irmã de Inês de Castro

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Da história de Inês de Castro, assassinada, a mando de um monarca português, numa manhã fria de Janeiro (1355), se tratou já. A imagem mítica da sua tumba sumptuosa, em Alcobaça, permanece nítida na memória de muitos.
"O túmulo de Inês de Castro assenta sobre os dorsos dos responsáveis da sua morte. São várias criaturas enigmáticas, displicentemente agachadas, três de cada lado da arca. Meio-homens, meio-bichos, meio-presos, meio-livres. Reparem neles com vagar. Voltados para fora e, à primeira vista, tranquilos, parecem espiar despreocupadamente quem passa. Como se estivessem apenas curiosos do movimento, debruçados de uma varanda inocente (...). Espreitam, de expressões alheadas, com ares de quem ignora porque os condenaram a suportar tal peso" (*).
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Longe de Alcobaça, umas centenas de quilómetros para norte, na catedral de Santiago de Compostela (Galiza, Espanha) descansam os restos de uma outra Castro - Juana, também galega, irmã da Inês martirizada em Portugal.
O seu destino - ainda que menos sangrento do que o da irmã - foi, também, dramático.
Juana cruzou um dia o seu destino com o terrível Pedro I de Castela (El Cruel), de quem falámos a seu tempo.
Soberana por uma noite - porque logo repudiada pelo monarca - intitulou-se rainha durante o resto da sua vida.
Até acabar no túmulo de Santiago de Compostela - maciço, frio e severo, nada comparável aos rendilhados lendários que servem de última morada à irmã.
A história conta-se em palavras breves.
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(Túmulo de Juana de Castro, irmã de Inês, na catedral de Santiago de Compostela, Galicia - España)
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"(...) Dizem que o reizinho se indispôs, nestes começos da Primavera de 1354, com a sua amada Maria de Padilla. Não obstante tratar-se, apenas, de arrufos de namo­rados - tão efémeros e estimulantes como sempre são as zangas dos apaixonados sinceros -, sucede que Pedro, por birra ou por fortuita guinada do instinto, desvia nesta altura o sentido para uma tentadora viuvinha galega, dispondo-se a corte­já-la.
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A bela furta-se aos avanços do monarca e faz-lhe graciosamente saber que, com ela, intimidades só por casamento. O reizinho, picado com tão esquiva formosura, morde o anzol e promete logo que sim, que casará. O problema, torna a viuvinha, é que o rei já é casado com a francesa de Bourbon. Pedro não é pessoa para se embaraçar com ninharias destas. Blanche não constitui, para já, em­pecilho de monta, pois ele mantém-na fora de circulação, detida em Arévalo." (*)
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"Quanto ao resto - isto é, no que respeita às trapalhadas da legalidade -, o rei con­voca de urgência dois homens de autoridade e fé, os bispos Sancho de Ávila e Juan de Salamanca, e com eles arruma o caso em três tempos. Pergunta-lhes Pedro: o que têm os senhores bispos a opinar sobre o malfadado casamento com Blanche de Bourbon em Santa Maria la Nueva?
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Os bispos, fartos de saber do que a casa gasta, logo certificam, com um frio na espinha, que não há que falar aqui em casamento: é mais do que óbvio que o enlace de Valladolid não valeu, foi nulo, é como se nunca tivesse existido.
El-rei que se considere, pois, o mais livre dos homens e que se case com quem lhe apetecer.
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Convencida pelas respostas destes varões sapien­tes, a viuvinha diz um sim enternecido ao rei e logo se unem os dois em Cuéllar.
O casamento durará, apenas, a noite de núpcias, o que, mesmo lembrados os ante­cedentes do noivo, é coisa de espantar." (*)
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"Que foi que sucedeu?
No mesmo dia das bodas, chegaram a Pedro notícias da rebelião que ganha vulto nas cercanias de Badajoz. Fornecem-lhe pormenores e nomes: Albuquerque, Enrique, Fadrique, os Castros.
Os Castros?
Pedro indigna-se, fica numa fúria e, no dia seguinte, parte de Cuéllar a toda a pressa, sem mais querer saber da nova esposa.
Jamais se tornarão a ver, e o reizinho não tardará a serenar nos braços quentes e únicos de Maria de Padilla, que daqui a pouco o presenteará com Constanza, a segunda filha.
Para bem se compreender mais esta reviravolta conjugal, desvende-se, enfim, a identidade da es­posa repudiada: Juana de Castro, irmã de Fernando e Álvar de Castro, e também, naturalmente, daquela sedutora Inês que vive e ama em terras lusitanas." (*)
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"Os Castros, sabedores da partida que o rei Pedro pregou à sua Juana, põem-se a remoer vinganças e adquirem outro balanço para a rebelião.
Na Galiza, Fernando faz questão de comparecer, dias a fio, diante de um notário, para que publicamente se ateste a sua ruptura com o rei de Castela. Dentro de pouco tempo, à testa de sete­centos e trinta cavaleiros e de mil e duzentos peões, ele partirá ao encontro das forças dos bastardos e de João Afonso de Albuquerque para com elas formar o exército da rebeli­ão.
Álvar de Castro é por seu turno incumbido de uma missão delicada: a de atrair o herdeiro do trono português à causa dos rebeldes castelhanos (...)". (*)
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(*) José Bento Duarte - Peregrinos da Eternidade - Crónicas Ibéricas Medievais - Editorial Estampa - Lisboa - 2003.
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sábado, 6 de junho de 2009

Grandes Quadros (Renoir - França)

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O Baile do Moulin de la Galette (1876)
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Renoir (1841- 1919 )
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(Clicar na figura para ampliar)
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quarta-feira, 3 de junho de 2009

Álbuns do Cavaleiro Andante - "Capitão Audaz"

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Alguns números publicados nos anos de 1955 e 1956 pela Empresa Nacional de Publicidade (ENP), Lisboa, Portugal.
Preço: 2$50 (dois escudos e cinquenta centavos).
Ou seja: cerca de 1,25 cêntimos do euro actual.
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