terça-feira, 31 de março de 2009

Praça dos Restauradores (Lisboa - Portugal) - Ontem e Hoje

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(Com excepção da primeira - de autor desconhecido - as fotos devem-se à mestria de Dias dos Reis).
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segunda-feira, 30 de março de 2009

Maurice Jarre - O Mágico dos Temas Musicais (1924-2009)

Nasceu em Lyon, França, em 13 de Setembro de 1924.
Faleceu ontem, 29 de Março de 2009, em Los Angeles, EUA.
Fica a memória inconfundível e imorredoira dos seus temas musicais.
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Quem não se lembra dos acordes de
Lawrence da Arábia (1962)
Doutor Jivago (1965)
Paris Já Está a Arder? (1966)
A Filha de Ryan (1970)
Passagem para a Índia (1984)
Clube dos Poetas Mortos (1989)?
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Vencedor de 3 Óscares
e de 4 Globos de Ouro.
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Podem recordá-lo aqui:
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e também aqui:
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sábado, 28 de março de 2009

Um Grande Cronista do Brasil - Stanislaw Ponte Preta (ou Sérgio Porto) (1923-1968)

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História de um Nome
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"No capítulo dos nomes difíceis têm acontecido coisas das mais pitorescas.
Ou é um camarada chamado Mimoso, que tem físico de mastodonte, ou é um sujeito fraquinho e insignificante chamado Hércules.
Os nomes difíceis, principalmente os nomes tirados de adjetivos condizentes com seus portadores, são raríssimos, e é por isso que minha avó paterna dizia:
Gente honesta, se for homem deve ser José, se for mulher, deve ser Maria!
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É verdade que Vovó não tinha nada contra os joões, paulos, mários, odetes e — vá lá — fidélis.
A sua implicância era, sobretudo, com nomes inventados, comemorativos de um acontecimento qualquer, como era o caso, muito citado por ela, de uma tal Dona Holofotina, batizada no dia em que inauguraram a luz elétrica na rua em que a família morava.
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Acrescente-se também que Vovó não mantinha relações com pessoas de nomes tirados metade da mãe e metade do pai.
Jamais perdoou a um velho amigo seu — o "Seu" Wagner — porque se casara com uma senhora chamada Emília, muito respeitável, aliás, mas que tivera o mau-gosto de convencer o marido de batizar o primeiro filho com o nome leguminoso de Wagem — "wag" de Wagner e "em" de Emília.
É verdade que a vagem comum, crua ou ensopada, será sempre com "v", enquanto o filho de "Seu" Wagner herdara o "w" do pai. Mas isso não tinha nenhuma importância: a consoante não era um detalhe bastante forte para impedir o risinho gozador de todos aqueles que eram apresentados ao menino Wagem.
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Mas deixemos de lado as birras de minha avó — velhinha que Deus tenha, em Sua santa glória — e passemos ao estranho caso da família Veiga, que morava pertinho de nossa casa, em tempos idos.
"Seu" Veiga, amante de boa leitura e cuja cachaça era colecionar livros, embora colecionasse também filhos, talvez com a mesma paixão, levou sua mania ao extremo de batizar os rebentos com nomes que tivessem relação com livros.
Assim, o mais velho chamou-se Prefácio da Veiga; o segundo, Prólogo; o terceiro, Índice e, sucessivamente, foram nascendo o Tomo, o Capítulo e, por fim, Epílogo da Veiga, caçula do casal.
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Lembro-me bem dos filhos de "Seu" Veiga, todos excelentes rapazes, principalmente o Capítulo, sujeito prendado na confecção de balões e papagaios. Até hoje (é verdade que não me tenho dedicado muito na busca) não encontrei ninguém que fizesse um papagaio tão bem quanto Capítulo. Nem balões.
Tomo era um bom extrema-direita e Prefácio pegou o vício do pai - vivia comprando livros. Era, aliás, o filho querido de "Seu" Veiga, pai extremoso, que não admitia piadas.
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Não tinha o menor senso de humor. Certa vez ficou mesmo de relações estremecidas com meu pai, por causa de uma brincadeira. "Seu" Veiga ia passando pela nossa porta, levando a família para o banho de mar.
Iam todos armados de barracas de praia, toalhas etc. Papai estava na janela e, ao saudá-lo, fez a graça:
Vai levar a biblioteca para o banho?
"Seu" Veiga ficou queimado durante muito tempo.
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Dona Odete — por alcunha "A Estante" — mãe dos meninos, sofria o desgosto de ter tantos filhos homens e não ter uma menina "para me fazer companhia" - como costumava dizer. Acreditava, inclusive, que aquilo era castigo de Deus, por causa da idéia do marido de botar aqueles nomes nos garotos.
Por isso, fez uma promessa: se ainda tivesse uma menina, havia de chamá-la Maria.
As esperanças estavam quase perdidas. Epílogozinho já tinha oito anos, quando a vontade de Dona Odete tornou-se uma bela realidade, pesando cinco quilos e mamando uma enormidade.
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Os vizinhos comentaram que "Seu" Veiga não gostou, ainda que se conformasse, com a vinda de mais um herdeiro, só porque já lhe faltavam palavras relacionadas a livros para denominar a criança.
Só meses depois, na hora do batizado, o pai foi informado da antiga promessa. Ficou furioso com a mulher, esbravejou, bufou, mas — bom católico — acabou concordando em parte.
E assim, em vez de receber somente o nome suave de Maria, a garotinha foi registrada, no livro da paróquia, após a cerimônia batismal, como Errata Maria da Veiga.
Estava cumprida a promessa de Dona Odete, estava de pé a mania de "Seu" Veiga."
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Texto extraído do livro "A Casa Demolida" - Rio de Janeiro, 1963, pág. 175.
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Sérgio Marcus Rangel Porto (Rio de Janeiro, 11 de Janeiro de 1923 — Rio de Janeiro, 30 de Setembro de 1968) foi um cronista, escritor, radialista, e compositor brasileiro.
Era mais conhecido por seu pseudónimo, Stanislaw Ponte Preta.
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Sérgio começou sua carreira jornalística no final dos anos 40,
actuando em publicações como as revistas Sombra e Manchete e os jornais Última Hora, Tribuna da Imprensa e Diário Carioca.
Foi aí que surgiu o personagem Stanislaw Ponte Preta e suas crónicas satíricas e críticas (…).
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Sérgio era boémio, de um admirável senso de humor, e a sua aparência de homem sisudo escondia um intelectual peculiar capaz de fazer piadas corrosivas contra a ditadura militar e o moralismo social vigente, que fazem parte do FEBEAPÁ - Festival de Besteiras que Assola o País, uma de suas maiores criações.
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FEBEAPÁ - Festival de Besteiras que Assola o País tinha como característica simular notas jornalísticas, parecendo noticiário sério.
Era uma forma de criticar a repressão militar, já presente nos primeiros Actos Institucionais (que tinham a sugestiva sigla de AI).
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Um deles noticiou a decisão da ditadura militar brasileira de mandar prender o autor grego Sófocles, que morreu há séculos, por causa do conteúdo subversivo de uma peça que ele teria encenado na ocasião (anos 60 do século passado).
Sérgio Porto, ou Stanislaw Ponte Preta alcançou a fama por seu senso de humor refinado e a crítica mordaz aos costumes nos livros Tia Zulmira e Eu e, também, FEBEAPÁ.
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A sua jornada diária nunca era inferior a 15 horas de trabalho.
Escrevia para o rádio, para a TV, onde chegou a apresentar programas, e também para revistas e jornais, além de idealizar seus livros.
O excesso de obrigações seria demais para o cardíaco Sérgio, que morreu de enfarte aos 45 anos de idade.
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(Extraído e adaptado de Wikipédia).
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sexta-feira, 27 de março de 2009

quinta-feira, 26 de março de 2009

Álbum de Cromos de Enriqueta Sanfiz - 1885 (1)

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Na portada do álbum aparece uma inscrição manuscrita: "Álbum de Enriqueta Sanfiz 1885".
E, na primeira página, também manuscrita, a seguinte dedicatória:
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"Recuerdo insignificante
a la bella y elegante
Enriqueta de Sanfiz
a quien quiere ver feliz
Antonio Sanchez Infante".
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(Fonte: Biblioteca Nacional de España - Madrid)
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quarta-feira, 25 de março de 2009

A Guerra Civil de Espanha Vista Pelas Crianças

(Autor: Luis Aparicio Alonso - 1937)
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(Autora: Juana Barredo - 1937)
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(Autora: Mercedes Comellas Ricart - 1937)
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(Fonte: Biblioteca Nacional de España - Madrid)
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domingo, 22 de março de 2009

Grandes Quadros - (Rubens - Holanda)

Retrato de uma Jovem Rapariga
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(Rubens - Holanda - 1615-1616)
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sábado, 21 de março de 2009

A Globalização - "Como se brincou com o fogo..."

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"Quanto mais a actual crise - no início financeira, agora também económica - se desenvolve e se aprofunda, mais nítida se torna a percepção pela opinião pública de que se andou a brincar com a globalização.
Mais prosaicamente, andou-se a brincar com o fogo.
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Os principais responsáveis por esta situação são inegavelmente os governos dos países mais ricos – em particular dos EUA e dos estados europeus - que, desde os anos oitenta do século passado apostaram em competir entre si para reduzir as defesas das respectivas economias em face dos choques provocados pela rápida mundialização económica e financeira.
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Foi assim que se liberalizou sem regras o comércio mundial, que se desregularam os mercados monetários e financeiros, permitindo a especulação desenfreada tanto entre moedas como entre activos financeiros, que se concedeu plena liberdade de manobra ao poder das multinacionais e se fez proliferar os off-shores.
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Ao mesmo tempo, a opinião pública era intoxicada com campanhas entoando loas à globalização, campanhas que eram em grande parte impulsionadas pelos governos e organizações internacionais (FMI, OCDE, União Europeia, etc).
Para agravar ainda mais as responsabilidades das autoridades, basta verificar que estas nem sequer podem invocar ignorância ou ausência de alternativas. Não faltaram, com efeito, avisos sobre os efeitos negativos da globalização descontrolada.
E basta recordar o desprezo irónico e desdenhoso com que as autoridades encararam propostas sérias de reforma como a célebre “taxa Tobin”, destinada a reduzir os fluxos de capitais especulativos, para avaliarmos o acréscimo de responsabilidade que recai sobre essa constelação de governos.
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O caso europeu é especialmente notável.
O Acto Único Europeu de 1987, que apontou para a realização do mercado interno comunitário e o Tratado de Maastricht em 1992, que criou as actuais instituições europeias na área da economia, foram os instrumentos que tornaram os cidadãos dos estados europeus completamente indefesos face à globalização e ao desemprego.
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Estou profundamente convicto que não se trata de invenção demagógica, mas de uma realidade palpável o facto de, no domínio económico, e desde 1992, as instituições europeias actuarem sobretudo em benefício das empresas multinacionais.
Quem conhece, por exemplo a actuação concreta da Comissão Europeia em questões económicas ou a evolução dos critérios do Tribunal de Justiça em questões de concorrência e ajudas de Estado, sabe que tem sido efectivamente assim.
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Sem um protesto sequer dos governos, que deveriam defender os interesses das respectivas actividades produtivas nacionais.
Coisas semelhantes verificaram-se por toda a parte. Mas o que torna o caso europeu especialmente repulsivo é que tudo isto foi feito – em nome do controlo da globalização!
Quando é certo que foram as instituições comunitárias a trazer o vendaval da globalização descontrolada para as nossas portas.
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Mas conforme reza o final de um velho aforismo “não se pode enganar toda a gente durante todo o tempo”. Por isso, as opiniões públicas europeias - que já se tinham manifestado negativamente em alguns referendos - à medida que a crise se desenrola, vão sedimentando a sua convicção de que têm sido profundamente enganadas.
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Talvez esta evolução seja de bom augúrio.
Será porventura a forma de voltar atrás e reencaminhar a integração europeia no sentido de criar efectivamente as instituições que permitam proteger os cidadãos dos choques da globalização.
Caminho que tem de contar com um papel mais importante das políticas definidas a nível nacional.
A forma mais insidiosa de desproteger os cidadãos no espaço europeu face ao poder das multinacionais e dos especuladores tem sido a de reduzir as autonomias dos estados membros em benefício de um inaceitável centralismo a nível europeu.
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Bastou o desencadear da crise para verificarmos que a única protecção com que os cidadãos de facto podem contar é a que é prestada pelo respectivo Estado.
Está aí uma nova realidade, que torna caduco, ainda antes de existir, o Tratado Reformador, cuja intenção era perpetuar as instituições comunitárias responsáveis pelo actual desastre económico.
Possa esta nova realidade criar as condições para uma nova Europa." (*)
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(*) - João Ferreira do Amaral - in Revista Tempo Livre, n.º 201, Fevereiro de 2009, Fundação INATEL - Lisboa - Portugal.
(Negritos da responsabilidade da Torre)
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terça-feira, 17 de março de 2009

A Lição de Kinshasa (África - República Democrática do Congo)

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... uma inesquecível lição ministrada por cento e setenta almas, alegremente - e harmoniosamente - irmanadas pela energia irreprimível do espírito humano, ali, um pouco acima de Angola, à beira do grande rio Congo, na luxuriante cidade africana de quotidianos agrestes...
Sabiam que passou a existir, pela fé, pelo engenho e pela sensibilidade desta gente admirável, uma Orquestra Sinfónica de Kinshasa? Na qual, como diz a certa altura Joséphine Matubenza, fazer música como eles a fazem é, realmente, rezar uma segunda vez.
"Nós rezamos", diz ela, "e depois da oração cantamos".
Escutem-nos aqui:
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domingo, 15 de março de 2009

Os Cuanhamas do Sul de Angola (1 - Tradições guerreiras)

"(...) Os ambós de Angola surgiram da miscigenação de um povo de caçadores nómadas - saídos, por volta do século XVII, da Donga, no Sudoeste Africano - com pastores estabelecidos entre os rios Cunene e Cubango. Desse obs­curo encontro teriam brotado as cinco tribos angolanas do grupo - Cuanhamas, os mais numerosos, e Cuamatos, Evales, Cafimas e Dombondolas -, todas aparentadas com as tribos da Ovambolândia, no Sudoeste.
Estes povos orgulhosos, de elevadíssima estatura, ocupam ainda hoje um território de planuras levemente descaídas para sul, ao correr de outeiros de contornos sua­ves e de enormes clareiras escavadas no chão arenoso - as chanas -, cingidas por manchas de vegetação onde sobressaem os mutiatis, as acácias e os espinheiros.
Na época seca as chanas revestem-se de tufos de arbustos mirrados e de mantos de capim ressequido. Quando dominam as chuvas, de Outubro a Maio, a correnteza do rio Cuvelai transpõe as margens baixas e derrama-se pela terra sequiosa, inun­dando as depressões. Numa explosão deslumbrante de odores e de verdes, as cha­nas transformam-se numa intrincada rede de lagoas, cujas águas, agitadas por turbi­lhões de peixes e de rãs, escorrem de modo quase imperceptível para sul, isolando as povoações e os homens, rumo à grande cova de Etosha, na Namíbia.

Dedicando os dias à caça, à agricultura de subsistência e, sobretudo, ao pasto­reio de numerosas manadas de gado bovino, os Ambós aguardavam com ansi­edade a chegada do tempo seco, a meio do ano, para soltarem o poderoso impulso da sua vocação guerreira. Capitaneados pelos lengas - chefes-de-guerra e conse­lheiros dos sobas -, realizavam expedições de guerrilha e saque num raio de cente­nas de quilómetros.

Ficaram sobretudo memoráveis as incursões dos Cuanhamas. Eles optavam com frequência por surtidas limitadas a oeste - na direcção do Humbe, da Camba ou do Quiteve -, e a nordeste, no país dos Ganguelas. Noutras ocasiões ou­savam levar as razias a locais tão remotos como o Quipungo e Caconda, onde os brancos saídos do mar se esforçavam por firmar posições.

Armados até aos dentes, os guerreiros viajavam protegidos por amuletos suspensos dos pesco­ços - chifres de bambi recheados de cinzas obtidas dos destemidos cora­ções de companheiros mortos em combate. Beneficiavam ainda da protecção do ondiai, um homem de virtude e magia.

O ondiai caminhava na dianteira com a sua moca enfei­tiçada, co­roada por uma pele de focinho de hiena. A moca girava no ar, apontando em todas as direcções, livrando a expedição de perigos potenciais e fazendo com que se er­guesse, quando necessário, um vento forte e rumoroso, que abafava os passos dos guerreiros.

Depois de homenagens rituais aos antepassados, as hordas caíam como maldições sobre os aldeamentos desprevenidos, espalhando o pavor e a morte. Retornavam quase sempre em triunfo aos eumbos, com ricos espólios de escravos e gado. (...)". (*)

(*) - Senhores do Sol e do Vento - Histórias Verídicas de Portugueses, Angolanos e Outros Africanos - José Bento Duarte - Editorial Estampa - Lisboa - 1999).

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quinta-feira, 12 de março de 2009

Aberturas de Grandes Livros - "El-Rei Junot" (Raul Brandão - Portugal)

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“Napoleão marcha sobre o mundo. Revolve tudo. Assola, destrói e saneia. Remexe as nações bolorentas e espessas, os povos no marasmo, as cortes de aparato: a Espanha, a Alemanha, a Itália e o Papa, tudo a soldadesca num ímpeto derruba, levando-o em cacos diante de si.
Sobre a Europa extravasa esses homens, numa perpétua agitação, a geração do Terror, e cria outras ideias, espalha outras ânsias. Por cima das ruínas e da morte paira um desmedido sonho de aflição…
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Porém a matéria só na verdade gera a matéria. O que sacode as almas é uma força espiritual, que Napoleão, colocado por acaso na sua frente, desvirtua e desnorteia. O mundo transformou-se – o homem interior é que se transformou, e só assim se compreende, primeiro a exaltação dos exércitos napoleónicos; depois as vitórias consecutivas, as hostes arcaicas em farrapos, as cortes desmanteladas, os generais derrotados, a Europa revolvida de lés a lés. (…)
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(…) São estas as personagens: a Inglaterra com o mar, as esquadras, os cofres abarrotados de oiro e um misto de ódio, de orgulho e de sonho; Bonaparte com exércitos após exércitos, levas impetuosas e exaltadas.
A Europa atónita espera, desconfiada e dividida, com as suas cortes inimigas, cheias de preconceitos e rancores, de espiões, de intrigas, de generais derrotados, de diplomatas cerimoniosos levados à ponta de baioneta, e de agentes de Pitt com os bolsos cheios de oiro, concitando obstáculos e atritos entre farrapos do cenário antigo – docéis, tronos, cerimónias, pompas.
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Isolar a ilha, separá-la do mundo e arruinar-lhe o negócio, era o plano de um; era o plano do outro reunir os escorraçados e os batidos, insuflar-lhes vida e oiro – oiro sem fim, oiro às pazadas – até aniquilar a França.
A Inglaterra há-de ser sempre o inimigo de todos os poderosos que se atrevam a sonho maior que o seu. (…)”
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El-Rei Junot - Raul Brandão (1867-1930) (Publicado por Atlântida Editora, Coimbra, Portugal, 1974).
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Presentemente editado pela Relógio d'Água, nas Obras Completas de Raul Brandão (€ 19,00).
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Também disponível na Biblioteca Nacional de Lisboa (Cota ---> L. 68159 P.)
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quarta-feira, 11 de março de 2009

Grandes Quadros (Jules Breton - França)

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Rapariga da Bretanha (1872)
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Jules Breton - França (1827-1906)
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sábado, 7 de março de 2009

"A culpa não é deles..."

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"(...) O que quero saber é o motivo pelo qual a regulação portuguesa não logrou detectar e denunciar as falcatruas que, a crer no que se tem revelado nas audições parlamentares, se passavam no BPN, como as regulações do mundo todo não conseguiram ou não quiseram denunciar as falcatruas que se passavam nas mais poderosas e aparentemente respeitáveis instituições financeiras.
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Mais: eu queria saber - se conseguir perceber - como é possível que, aparentemente, a generalidade das instituições financeiras tenham passado os últimos anos a funcionar em termos que só podem ser caracterizados como estando no limiar da burla e da ladroagem, quando não milhas adentro do território.
E queria perceber - sendo certo que é impossível - como se explica que assim continuem.
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Na revista Vanity Fair de Março, Michael Shnayerson conta como, após empocharem 700 mil milhões de dólares de dinheiro público que os salvaram da falência, os grandes bancos e seguradoras americanos, como a Merrill Lynch e a AIG, continuam a distribuir milhões em bónus às administrações e a uma parte dos seus funcionários.
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Shnayerson cita o exemplo de John Thain, CEO da Merrill Lynch, que em Dezembro de 2008, depois de vender a firma ao Banco da América por 50 mil milhões, o que pode implicar a perda de 30 mil empregos, "fez saber" que achava merecer um bonuzito de 10 milhões.
A pretensão indignou toda a gente, levando uma série de (ir)responsáveis de instituições salvas com fundos públicos a jurar que em 2009 não ia haver bónus para ninguém.
Sucede que, como o artigo demonstra, há e houve bónus, mais ou menos secretos.
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Esta total cupidez, aliada à incapacidade dos reguladores e do governo de acompanharem a atribuição de fundos com regras que impeçam tal pouca vergonha, é não só a mais eloquente explicação do desastre como o melhor retrato do sistema.
Para os financeiros americanos (e todos?) é impensável relacionar coisas tão abstractas como os prejuízos das empresas que levaram à falência e o esforço do país para as salvar com os seus muito concretos proventos.
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A culpa não é deles: habituaram-nos assim."
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Fernanda Câncio - Jornalista (in Diário de Notícias, Lisboa, Portugal - Edição de 6 de Março de 2009)
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(Negritos da responsabilidade da Torre)
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sexta-feira, 6 de março de 2009

Grandes Quadros (Vermeer - Holanda)

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Rapariga com um Brinco de Pérola
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Johannes Vermeer - Holanda - 1665
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quarta-feira, 4 de março de 2009

Grandes Quadros (Leutze - Estados Unidos)

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Washington Atravessando o Delaware (1851)
(Metropolitan Museum of Art, New York)
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Emanuel Gottlieb Leutze (1816-1868)
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terça-feira, 3 de março de 2009

segunda-feira, 2 de março de 2009

Aberturas de Grandes Livros - "Esta Noite a Liberdade" (Dominique Lapierre e Larry Collins - França e Estados Unidos)

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“Um grande povo passava um Inverno descontente.
Mergulhada em nevoeiro e melancolia, Londres, naquele primeiro de Janeiro de 1947, tremia de frio. Talvez nunca até então a capital britânica tivesse passado um dia de Ano Novo tão lúgubre. Poucas eram, naquela manhã de festa, as casas que possuíssem água quente suficiente para encher uma banheira. E eram ainda mais raros os londrinos sofredores da habitual ressaca do seu “réveillon”. O pouco whisky à venda para as festas conseguira-se ao preço de oito libras esterlinas a garrafa. Apenas alguns carros deslizavam nas ruas desertas, fantasmas fugazes de uma nação privada de gasolina.
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Envoltos nos seus sobretudos coçados e fora de moda após seis anos de guerra, ou em fardas disparatadas e gastas, alguns transeuntes apressavam-se com o pescoço encolhido nos ombros, de ar aborrecido. Nos dias de chuva, um cheiro especial invadia as ruas, e relentos de podridão e incêndio escapavam-se das ruínas espalhadas pela cidade. As docas e o bairro em volta da catedral de São Paulo exibiam ainda uma confusão de escombros. Sinistros abrigos de betão erguiam-se também nalgumas encruzilhadas, e arames farpados juncavam os canteiros de Green Park.
Esta cidade triste e martirizada era contudo a capital de um país vencedor. Dezassete meses antes, a Inglaterra ganhara a guerra mais terrível da história da humanidade. (…)
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(…) A sombria realidade que a Inglaterra encarava naquela manhã de Ano Novo fora resumida numa fase cruel do seu maior economista. “Somos um país pobre”, afirmara John Maynard Keynes aos seus compatriotas, “e temos que aprender a viver como tal”.
Todavia, os ingleses eram ricos. Um documento azul e dourado, o passaporte britânico, dava-lhes o privilégio de entrarem livremente em mais territórios do que qualquer outro cidadão de qualquer outro país do mundo. O extraordinário conjunto de possessões, de colónias, de protectorados e de condomínios que constituíam o Império Britânico permanecia intacto naquele dia 1 de Janeiro de 1947.
A existência de 563 milhões de homens – fantástico mosaico de povos, Tamuls e Chineses, Bushmen e Hotentotes do sudoeste africano, aborígenes dravidianos e Melanesianos, Australianos, Escoceses, Canadianos e tantos outros – dependia ainda das decisões destes ingleses que tremiam de frio numa Londres sem aquecimento. (…)”
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Esta Noite a Liberdade - Dominique Lapierre (n. 1931) e Larry Collins (1929-2005) (Publicado por Edições Ática, Lisboa, 1976).
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Nota - Disponível na Biblioteca Nacional de Lisboa, numa edição do Círculo de Leitores (Cota ---> H.G. 30583 V.)
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