sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Os Primeiros Americanos (1)

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"De quem foi a voz que primeiro soou nesta terra? Foi a voz do povo vermelho, que só tinha arcos e flechas..."
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"Fizeram-nos muitas promessas, mais do que me posso lembrar. Mas eles nunca as cumpriram, excepto uma: prometeram tomar a nossa terra e tomaram-na.".


"O homem branco só contou as suas melhores acções, só as piores dos índios".


"As pessoas não vendem a terra em que vivem."

"Este território é meu, cresci aqui. Os meus antepassados viveram e morreram nele - e quero permanecer nele."


"Nasci na pradaria, onde o vento sopra livre e não existe nada que interrompa a luz do sol..."


"Não quero deixar nunca este território. Todos os meus parentes jazem neste solo e, quando eu me desfizer, quero desfazer-me aqui."

"Então, porque é que nos pedem para deixar os rios, o sol e o vento, para irmos morar em casas?"


"Nasci onde não havia cercas, onde tudo respirava livremente..."


"Fizeram a tristeza chegar aos nossos acampamentos e nós investimos como os búfalos quando as suas fêmeas são atacadas".
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(Fotos de Curtis, obtidas entre 1904 e 1910).
(Citações do livro "Enterrem meu Coração na Curva do Rio", de Dee Alexander Brown - Centro do Livro Brasileiro - Edições Melhoramentos - Brasil - 1973).
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terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Aberturas de Grandes Livros - "A Última Batalha - A Queda de Berlim" (Cornelius Ryan - Estados Unidos)

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“Nas latitudes mais setentrionais, o amanhecer verifica-se muito cedo. Até mesmo quando os bombardeiros se afastavam da cidade, a leste já despontavam os primeiros raios de luz. No meio da tranquilidade da manhã, podiam ver-se grandes colunas de fumo negro a elevarem-se sobre os bairros de Pankow, Weissensee e Lichtenberg, enquanto as nuvens baixas tornavam difícil separar a suave luminosidade da aurora e os reflexos dos incêndios na cidade de Berlim destroçada pelas bombas.
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À medida que o fumo se ia dissipando vagarosamente, por entre as ruínas surgia no seu macabro esplendor a cidade mais bombardeada da Alemanha, enegrecida pela fuligem, crivada de milhares de crateras e decorada com as vigas retorcidas dos edifícios destruídos.
Tinham desaparecido numerosos quarteirões de prédios de apartamentos no coração da cidade, o mesmo sucedendo com as zonas suburbanas, completamente volatilizadas. Agora, em todo aquele caos, as largas avenidas e as ruas de outrora eram apenas simples veredas cheias de crateras que serpenteavam através de montanhas de destroços. Por toda a parte, acre após acre, só se viam, escancarados para o céu, edifícios descarnados, sem janelas e sem telhados.
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A seguir aos ataques caía do céu uma chuva muito fina de fuligem e de cinzas que polvilhava os destroços, enquanto nos enormes montões de tijolos esmigalhados e vigas de aço torcidas a única coisa que se movia eram os turbilhões de poeira que rodopiavam ao longo da vasta extensão da Unter den Linden, com as suas famosas árvores agora nuas e os rebentos das folhas queimados nos ramos.
Eram raros os bancos, livrarias ou estabelecimentos elegantes situados no famoso boulevard que não tivessem sofrido estragos; todavia, no seu extremo oeste, o mais famoso monumento de Berlim – a porta de Brandeburgo – com as suas doze colunas dóricas maciças e de altura igual a um edifício de oito andares, embora crivado de profundos golpes, ainda permanecia de pé na via triumphalis. (…)
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(…) Nessa manhã luminosa, os berlinenses dos vinte bairros da capital apareceram à luz do dia como os habitantes das cavernas neolíticas, emergindo dos túneis do metropolitano, dos abrigos situados por baixo dos edifícios públicos e das caves ou pavimentos inferiores dos prémios semidestruídos.
Fossem quais fossem as suas esperanças ou receios, as suas lealdades ou crenças políticas, todos os berlinenses compartilhavam dum sentimento comum: os que haviam sobrevivido mais uma noite estavam resolvidos a sobreviver mais um dia.
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O mesmo se podia dizer quanto à nação.
Nesse sexto ano da Segunda Guerra Mundial, a Alemanha de Hitler estava a lutar desesperadamente pela sobrevivência. O Reich que havia de durar mil anos tinha sido invadido a oeste e a leste. As forças anglo-americanas estavam a limpar toda a região ao longo do Reno, haviam atravessado o rio em Remagen e precipitavam-se já em direcção a Berlim, da qual só distavam 300 milhas. Na margem oriental do Oder, tinha-se materializado uma ameaça muito mais urgente e infinitamente mais temerosa, traduzida na presença dos exércitos russos, situados apenas a 50 milhas.

Estava-se a 21 de Março de 1945, uma quarta-feira, com a qual se iniciava a Primavera. Nessa manhã, os berlinenses ouviram através dos aparelhos de rádio de toda a cidade o último êxito em canções: Esta Primavera não terá fim. (…)”
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A Última Batalha (A Queda de Berlim) - Cornelius Ryan (1920-1974) - Publicado por Livraria Bertrand, Lisboa, 1967.
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Disponível na Biblioteca Nacional de Lisboa (Cota ----> H.G. 25078 V.)
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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Artistas de Angola - (Eleutério Sanches)

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África Antiga - Um Nobre Ashanti da Costa do Ouro (1820)

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Um nobre ashanti, Adoo Quamina, da Costa do Ouro (actual Ghana), montando o seu cavalo em 1820.
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(Fonte: A voyage to Africa including a narrative of an embassy to one of the interior kingdoms in the year 1820, London, 1821).
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domingo, 15 de fevereiro de 2009

Rip Kirby (1946-1967) (Planeta De Agostini - Espanha)

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Excelente presente da editora Planeta De Agostini: uma colecção de 12 volumes dedicados ao Rip Kirby criado pelo grande Alex Raymond.
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A colecção, publicada na Biblioteca Grandes del Cómic da editora (ao preço unitário de € 9,95), abrange as tiras diárias publicadas em jornais norte-americanos entre 1946 e 1967.
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Elegante, atlético e culto, Rip Kirby - um ex-marine, combatente na Segunda Guerra Mundial - converte-se em detective e soluciona todos os seus casos por recurso a uma poderosa inteligência.
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Os seis primeiros volumes da colecção devem-se a Alex Raymond (falecido em 1956, num acidente de automóvel).
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A partir dessa data (7.º volume da colecção) as tiras passaram para a responsabilidade de John Prentice (desenho) e Fred Dickenson (guião).
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Rip Kirby foi profusamente publicado em Portugal, sobretudo nas décadas de 50, 60 e 70 do século passado - em especial pela lendária Agência Portuguesa de Revistas (nas suas colecções Mundo de Aventuras, Tigre e Condor Popular).
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A colecção estende-se por cerca de 2.500 páginas (à volta de duzentas por volume).
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sábado, 14 de fevereiro de 2009

Aberturas de Grandes Livros - "Moby Dick" (Herman Melville - Estados Unidos)

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“Tratem-me por Ismael.
Há alguns anos – não interessa quantos – achando-me com pouco ou nenhum dinheiro na carteira, e sem qualquer interesse particular que me prendesse à terra firme, apeteceu-me voltar a navegar e tornar a ver o mundo das águas.
É uma maneira que eu tenho de afugentar o tédio e de normalizar a circulação.
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Sempre que sinto um sabor a fel na boca; sempre que a minha alma se transforma num Novembro brumoso e húmido; sempre que dou por mim a parar diante de agências funerárias e a marchar na esteira dos funerais que cruzam o meu caminho; e, principalmente, quando a neurastenia se apodera de mim de tal modo que preciso de todo o meu bom senso para não começar a arrancar os chapéus de todos os transeuntes que encontro na rua – percebo então que chegou a altura de voltar para o mar, tão cedo quanto possível.
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É uma forma de fugir ao suicídio. Onde, com um gesto filosófico, Catão se lança sobre a espada, eu, tranquilamente, meto-me a bordo.
E não há nisto nada de extraordinário. Embora inconscientemente, quase todos os homens sentem, numa altura ou noutra da vida, a mesma atracção pelo Oceano.
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Vejam agora o que sucede com a vossa Manhathan, rodeada de docas como uma ilha do Índico cercada pela restinga de coral – o comércio envolve-a com a sua alta ressaca. À direita e à esquerda as ruas conduzem ao litoral. No extremo limite da cidade baixa encontra-se a Bateria, cujos nobres contrafortes são lavados pelas vagas e refrescados por brisas que poucas horas antes ainda sopravam no alto-mar. Observem a multidão que ali se junta para contemplar as águas.
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Dêem uma volta pela cidade numa sonolenta tarde de domingo. Vão de Corlears Hook para Coenties Slip, e daí, pelo Whitehall, dirijam-se para o Norte.
Que encontram?
Postados como sentinelas em toda a periferia da cidade, milhares e milhares de mortais contemplam, hipnotizados, o oceano.
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Uns apoiam-se às estacas; outros sentam-se na beira dos molhes; outros namoram o arcaboiço dos navios que vêm da China; alguns sobem até ao topo dos mastros para desfrutar uma perspectiva marinha ainda mais ampla.
É todavia gente ligada à terra, gente que passa os dias da semana entre quatro paredes de cal e gesso – amarrada aos escritórios, colada aos bancos, debruçada sobre as escrivaninhas.
Então porque se encontra aqui?
Já não existem os belos prados verdes?
Que força os arrasta para este lugar? (…)”
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Moby Dick - Herman Melville (1819-1891) - Publicado por Editorial Estúdios Cor, Lisboa, 1962.
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Informação adicional: obra disponível, actualmente, em edição da Relógio D'Água, Lisboa (€ 24,00)
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Também acessível na Biblioteca Nacional de Lisboa - (Cota ---> L. 17157 V.)
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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Grandes Quadros (Alonso Coello - Espanha)

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A Infanta Isabel Clara Eugénia com Magdalena Ruiz
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(Alonso Coello -Espanha - Século XVI)
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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

O caso Dreyfus - ou a incómoda probabilidade da inocência: "J'accuse..."

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"Há 111 anos, a 13 de Janeiro de 1898, foi publicada a mais grandiosa peça jornalística de todos os tempos. Escrita como carta aberta ao presidente de França, é um apelo indignado em nome de um inocente injustamente condenado, libelo contra um sistema judicial corrupto e uma opinião pública contaminada pela manipulação da verdade e pelos seus preconceitos (o condenado era judeu) através de uma campanha mediática "abominável".
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Num estilo que cruza o jornalismo e o manifesto, descreve a forma como um homem foi desonrado, julgado e condenado a prisão perpétua com base em provas falsas que, sendo consideradas "secretas", nem sequer lhe foram reveladas, e demonstra como o verdadeiro culpado foi absolvido por juízes cientes da sua culpa.
Tem como título J'accuse...! (Eu acuso...!), e é uma defesa empolgada e empolgante da verdade e da justiça.
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O seu autor, Émile Zola, sabia ao escrever o risco que corria - aliás, escreveu jogando nesse risco, o de ser acusado de desrespeito e difamação e de poder fazer no seu julgamento a demonstração do que afirmava.
Zola conseguiu o que queria: virar a França a favor do inocente condenado (Dreyfus) - mesmo se à custa de reacções violentas contra ele e contra Dreyfus, incluindo motins anti-judaicos - e reabrir o respectivo processo, mas também ser julgado, três escassas semanas após a publicação do artigo.
Foi condenado à pena máxima no caso, um ano de cadeia, a que escapou fugindo para o estrangeiro.

Zola voltaria a França para assistir à reabertura do processo Dreyfus, no qual este foi, incrivelmente, condenado de novo. Seria no entanto "perdoado" e acabaria ilibado em 1906, reintegrado e promovido no exército que o expulsara.
Zola, arruinado pela defesa de Dreyfus, tinha morrido há quatro anos, sem ver satisfeita a sua exigência de justiça.
Na verdade, a justiça nunca foi realmente feita: ninguém - nem os oficiais do exército que cozinharam a sua "culpa", nem os juízes e procuradores que o condenaram sonegando-lhe as provas, nem aqueles que a propagaram sem se esforçarem por conhecer a verdade - foi julgado pelo martírio de Dreyfus.
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As forças contra as quais Zola se ergueu, "fraco e desarmado" (como disse Anatole France no seu elogio fúnebre), nunca foram derrotadas - apenas o necessário para, naquele caso, lavarem a face, revendo a decisão que condenara um inocente.
Fraco consolo.
O caso Dreyfus, como muitos outros antes e depois dele, mostra o lado negro do poder do sistema judicial.
Quando um sistema criado para certificar a procura e o triunfo da verdade despreza a verdade e funciona como se estivesse acima das leis por cujo cumprimento lhe cumpre zelar, instrumentalizando o extraordinário poder que lhe é conferido, não há Estado de Direito.
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Sem Estado de Direito, não há grande chance para a democracia, até porque não há para aí Zolas aos pontapés.
O que há aos pontapés é gente que, quiçá imaginando-se da estirpe do autor de J'accuse, se compraz em funcionar como guarda avançada dessa instrumentalização da verdade.
"O meu dever é falar, não quero ser cúmplice", escreveu Zola.
É sempre boa altura para lhe honrar o repto." (*)
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(*) Fernanda Câncio - Diário de Notícias, Lisboa, Portugal - 30-Janeiro-2009

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Grandes Quadros (Renoir - França)

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O Almoço dos Remadores
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(Renoir - França - 1881)
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domingo, 8 de fevereiro de 2009

África Antiga - As Mulheres-Guerreiras do Daomé

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Constituíam, no século XIX, um corpo de élite do exército do reino do Daomé (actual Benim).
Entre outras missões militares, competia-lhes a protecção do rei.
A imagem acima representa Seh-Dong-Hong-Beh, uma das suas comandantes, por volta de 1850. Numa das acções, ela chefiou 6.000 mulheres contra os guerreiros Egba da fortaleza de Abeokuta.
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Escolhidas na infância, não se casavam (com excepção das que fossem escolhidas para esposas do rei). Submetiam-se a treino duríssimo e viviam à parte. Combatentes ferozes, eram praticamente imunes ao medo e à dor.
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Conta-se que a sua iniciação implicava obrigatoriamente a decapitação de um inimigo e a consequente ingestão do seu sangue.
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Para além das tribos africanas inimigas, enfrentaram bravamente o poder colonial francês, em finais do século XIX. Isso não evitou, contudo, que o rei Gbehanzin (1889-1894) fosse feito prisioneiro e deportado para a Martinica, sendo o Daomé anexado pelos Franceses.
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(Fonte, até meados do séc. XIX: Frederick E. Forbes: Daomé e os Daomeanos - Relato de duas missões ao Daomé em 1849 e 1850 - Londres - 1851). (Período posterior: arquivos da Torre).
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sábado, 7 de fevereiro de 2009

Aberturas de Grandes Livros - "A Guerra de África em 1895" (António Ennes - Portugal)

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“Saímos de Lisboa, no Sud-Express, a 8 de Dezembro, no fim de um cintilante dia em que o sol emprestara galas e alegrias primaveris à festa da padroeira do reino, e a 12 à noite largámos de Marselha no Iraouaddy, das Méssageries Maritimes, navegando mansamente dentro duma imensa redoma de luar azulado.
Por cima da casaria da cidade, escura e ponteada de luzinhas, faiscava a branca Vénus; o ar estava macio e límpido, o mar chapinhava compassadamente no costado do navio. Mas o Iraouaddy contrastava com aquele cenário de bonança e paz, porque levava o enorme bojo cheio de guerra.
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Connosco, que íamos abrir uma campanha em Moçambique, tinham embarcado oficiais e soldados franceses, incumbidos dos primeiros preparativos da expedição a Madagáscar; o alteroso navio era, pois, um repto mandado pela Europa à África, e muitos dos seus passageiros, arautos ou mantenedores desse repto, devem ter olhado ansiosos, ao distanciarem-se de terra, para o negro vulto sobranceiro de Notre-Dâme-de-la-Garde, pedindo nesse olhar de despedida à Mãe de misericórdia que os guardasse dos perigos ignotos que iam afrontar.
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Quantos terão sido ouvidos? Quantos estarão hoje vivos, desses nossos joviais companheiros, que se desenfastiavam do mar improvisando cafés-concertos, em que um escotilhão servia de palco, sobre o qual os veteranos requeimados do Tonquim vozeavam hinos patrióticos, e os gaiatos de Paris promovidos a guerreiros sublinhavam cançonetas escabrosas?
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Foram corteses connosco, essas predestinadas vítimas da biliosa e da disenteria. No dia de Ano Bom, já no mar das Índias, deram um espectáculo de gala no convés enfeitado a capricho, e o cortinado, corrido a meia nau, que fazia fundo à cena, era formado pelo estandarte tricolor tendo suspensas à direita a bandeira portuguesa e à esquerda a da Rússia.
Champagne em honra de Portugal, trocaram connosco votos efusivos pela fortuna das armas que todos íamos levar ao mundo negro, e dois dias depois, em Mayotte, quando passámos para bordo da Afonso de Albuquerque, apinharam-se nas amuradas para se despedir de nós agitando os kepis, acenando com os lenços, gritando saudações. Bon voyage! Bonne chance! (…)”.
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A Guerra de África em 1895 - António Ennes (1848-1901) (Publicado por Edições Gama, Lisboa, 1945)
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Aos interessados: foi recentemente reeditado pela Prefácio, Lisboa (€ 32,00).
Também disponível na Biblioteca Nacional de Lisboa (Cota ---> H.G. 17660 V.)