domingo, 30 de novembro de 2008

A Inquisição (2) (Por Oliveira Martins)

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" (...) Cordões de tropa impediam que o povo invadisse, na praça, o recinto reservado ao Auto.
Havia ali, para um lado, afastadas, as pilhas de madeira, rectangulares, com o poste erguido ao centro e um banco; e no meio da praça um espaço reservado com o estrado e as tribunas.
Na da esquerda estava o rei, D. João III, piedosamente satisfeito na sua fé, com o espírito duro, mas sincero e forte; estavam a rainha e a corte; e, ao lado do monarca, o condestável com o estoque desembainhado.
Na outra, da direita, levantavam-se o trono e dossel do cardeal D. Henrique, depois rei, e agora infante inquisidor-mor, ladeado pelos membros do tribunal sagrado, nos seus bancos.
A meio do tablado ficava o altar, com frontal preto, banqueta de seda amarela, e um crucifixo ao centro. Em frente, num plinto, erguia-se o estandarte da Inquisição. (...)
E os padecentes, em linhas, ficavam de pé, voltados para o altar, para o púlpito, para o tribunal.
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Disse-se missa. O inquisidor-mor, de capa e mitra, apresentou ao rei os Evangelhos, para sobre eles jurar e defender a fé. D. João III e todos, de pé e descobertos, juraram com solenidade sincera. Depois houve sermão; e finalmente a leitura das sentenças, começando pelos crimes menores.
A adoração das imagens, questão debatida nos concílios, dava lugar a muitas faltas.
Outros iam ali por terem recusado beijar os santos dos mealheiros, com que os irmãos andavam pelas ruas pedindo esmola.
Outros por irreverências, outros por falta de cumprimento dos preceitos canónicos; muitos por coisa nenhuma; a máxima parte, vítimas de delações pérfidas ou interessadas.
Os relatores iam lendo as sentenças, os condenados gemendo, uns, e chorando; outros exultando por se verem soltos do cárcere, livres da tortura, prometendo de si para consigo serem de futuro meticulosamente hipócritas.
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Chegou-se finalmente aos condenados à morte, no fogo: eram três mulheres por bruxas, e dois homens, cristãos-novos, por judaizarem, mais um por feiticeiro.
O relator, imperturbável, leu as sentenças, onde se narravam os crimes.
Os cristãos-novos comiam pães ázimos; e um deles, quando varria a casa, chamava nomes a um crucifixo, fazia-lhe caretas, e dava-lhe tantas unhadas quantos eram os golpes de vassoura no chão.
Estes crimes vinham envolvidos em frases horrorosas e generalidades tremendas; e a corte, o clero e o povo, ao ouvirem tão grandes sacrilégios, pasmavam de ódio contra os desgraçados.
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A feitiçaria não os impressionava menos.
Cristãos-novos e bruxos, que lançavam malefícios e olhados, eram a causa das pestes, das fomes e dos naufrágios das naus da Índia.
Sobre as cabeças dos desgraçados caíam as maldições de uma população aflita. Ninguém duvidava da verdade dos crimes, que muitas testemunhas afiançavam.
O diabo aparecera a um, e ensinara-lhe as curas infernais, pelo livro de S. Cipriano. Sangrava os doentes na testa, com alfinetes. "Estou picado e enfeitiçado: Jesus! nome de Jesus! despicai-me e desenfeitiçai-me!" - dissera uma vítima a um padre da Beira.
Os diabos, para se vingarem, foram a casa do padre e quebraram-lhe toda a louça.
Um caso terrível era esse; e o povo olhava com horror para o médico de S. Cipriano, que tinha a loucura evidente na face.
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Às bruxas o diabo aparecia de dia sob a forma de um gato preto, e, de noite, de forma humana de homem pequeno; assim o dizia gravemente a sentença, com o depoimento das testemunhas.
A bruxa saía com o demónio e iam juntos a um rio, onde as outras estavam com outros demónios; e depois de se banharem tinham coito com circunstâncias lascivas e abomináveis; a sentença enumerava-as e a devassidão da corte e do povo percebia-as, comentava-as.
De volta ao sabbath, de madrugada, as bruxas entravam invisivelmente nas casas, perseguindo as famílias honestas e piedosas.
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Terminada a leitura, absolvidos os penitentes, os cristãos-novos e as bruxas foram relaxados ao braço secular para serem queimados.
O rei, a corte e o inquisidor retiraram-se; e os sinos continuavam a dobrar, pausada e funebremente.
Os carvoeiros de alabardas, os verdugos de capuzes, e os frades de escapulário e crucifixo na mão, ficaram junto dos condenados para os queimar.
O povo cercou em massa o lugar das pilhas quadrangulares de lenha, com os olhos ávidos e a cabeça cheia de cóleras contra esses réus das suas desgraças.
Todos, menos o bruxo, morreram piedosamente, garrotados, depois queimados.
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O médico de S. Cipriano, porém, tinha culpas maiores e fora condenado a ser queimado vivo.
Junto da pilha, o frade, com as mãos postas, pedia-lhe que, por Deus, se arrependesse; mas ele, com o olhar esgazeado do louco, virava a cara e zombava.
Largando a correr pela escada, subia à pilha, e, do alto, sentado no banco, fazia esgares e visagens irreverentes.
O frade batia nos peitos, a plebe rugia colérica.
Os verdugos amarraram-no ao poste e os carvoeiros acenderam a fogueira, que principiou a crepitar.
Os rapazes e as mulheres da Ribeira, salteando-o com paus e garrunchos, arrancaram-lhe um olho. Atiravam-lhe pedras, pregos, e tudo; e faziam-lhe feridas por onde escorria sangue: tinha a cabeça aberta e um beiço rasgado.
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Entretanto, a chama começava a romper por entre os toros; e ele com as mãos, estorcendo-se, dava no fogo, querendo apagá-lo; e quando via, com o olho que lhe restava, vir no ar uma pedra, fazia rodela ou escudo com a samarra, para se livrar. Do vão do outro olho escorria pela face um fio de sangue.
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Isto já durava por mais de uma hora e divertia muito o povo - agora que tinha a certeza de ver morrer o seu inimigo.
Mas o vento, que soprava rijo do poente, da banda do rio, arrastava consigo as chamas; e por não ter fumos que o afogassem, o condenado ficou três horas vivo, a torrar, agonizando, contorcendo-se, em visagens, e gritando - ai!... ai!... ai!...".
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(Oliveira Martins - História de Portugal - 1.ª ed. - 1879)
(Continuação do post de 27-Set-2008)

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Álbuns Especiais do "Cavaleiro Andante" (1)

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Álbum Especial do Cavaleiro Andante, banda desenhada publicada em Junho de 1955 pela Empresa Nacional de Publicidade (Lisboa - Portugal).
Preço: 6 escudos (cerca de 3 cêntimos de euro, em termos actuais).
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Continha, entre outras matérias, uma excelente versão de "A Pradaria", história criada em 1827 por J. Fenimore Cooper.
Cooper, autor do divulgadíssimo O Último dos Mohicanos (1826), foi um famoso escritor norte-americano (n. em 1789 - f. em 1851).
Pode ver em baixo a estátua que o homenageia, erigida em Cooperstown, New York.
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domingo, 23 de novembro de 2008

Grandes Pintores - Edvard Munch (Noruega)

O Grito (1893)
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Madonna (1894)
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O Beijo (1897)
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Dia de Primavera na Rua Karl Johan (1891)
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Rapariga Acendendo o Fogão (1883)
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Raparigas na Ponte (1889)
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Ansiedade (1896)
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Auto-Retrato com Cigarro (1895)
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Manhã (1884)
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Melancolia (1896)
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Rosa e Amélia (1893)
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Noite em Karl Johan (1892)
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Primavera (1889)
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Cavalo a Galope (1910)
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Olhos nos Olhos (1894)
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Maridalen (1881)
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Edvard Munch foi um pintor norueguês (n. 1863 – f. 1944).
Frequentou a Escola de Artes e Ofícios de Oslo, vindo a ser influenciado por Courbet e Manet.
Em Paris descobre as obras de Van Gogh e Gauguin e o seu estilo sofre grandes mudanças.
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Em 1892, o convite para expor em Berlim torna-se num momento crucial da sua carreira e da história da arte alemã. Inicia um projecto que intitula “O Friso da Vida”, a que pertence O Grito, considerada a sua obra máxima. O quadro retrata a angústia e o desespero e foi inspirado nas decepções do artista tanto no amor quanto com os seus amigos.
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Em 1896, em Paris, interessa-se pela gravura, fazendo inovações nesta técnica. Os trabalhos deste período revelam uma segurança notável.
Em 1914 inicia a execução do projecto para a decoração da Universidade de Oslo, usando uma linguagem simples, com motivos da tradição popular.
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Munch retratava as mulheres ora como sofredoras frágeis e inocentes, ora como causa de grande anseio, ciúme e desespero.
Toda a obra está impregnada pelas suas obsessões: a morte, a solidão, a melancolia, o terror das forças da natureza.

sábado, 22 de novembro de 2008

Prólogos Americanos - O Abraço

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11 de Novembro de 2008 - O Presidente eleito dos Estados Unidos da América, Barack Hussein Obama, abraça Tammy Duckworth, sobrevivente da guerra do Iraque. Ou de como, infelizmente para Tammy, o 7.º de Cavalaria chegou desta vez muito tarde...

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

terça-feira, 18 de novembro de 2008

sábado, 15 de novembro de 2008

Pintores da Península Ibérica (Portugal) - Silva Porto

Guardando o Rebanho
(Clicar na figura para aumentar)

Colheita - Ceifeiras

A Charneca de Belas ao Pôr-do-Sol

A Ceifa

No Areinho - Porto

Pequena Fiandeira Napolitana.
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António Carvalho da Silva foi um pintor português (Porto, 1850-1893), que adoptou como apelido o nome da sua cidade natal, ficando conhecido por Silva Porto.
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Estudou na Academia Portuense de Belas Artes, estagiou em Paris (1876-1877) e em Itália (1879).
Em 1879 regressou a Portugal. Aureolado de prestígio, foi convidado a ensinar na Academia de Lisboa como mestre de Paisagem.
Em 1880 realiza uma exposição de quadros paisagísticos inundados de luz, tendo D. Fernando adquirido o quadro Charneca de Belas ao Pôr-do-Sol.
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Fez parte do chamado Grupo do Leão, juntamente com António Ramalho, João Vaz, José Malhoa, Cesário Verde, Columbano e Rafael Bordalo Pinheiro.
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Entre outros galardões, recebeu a medalha de ouro da Exposição Industrial Portuguesa de 1884 e a primeira medalha do Grémio Artístico.
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A sua pintura, cheia de luz e de cor, é sobretudo inspirada na Natureza, sendo tido como um dos fundadores do naturalismo em Portugal.
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Encontra-se largamente representado no Museu do Chiado (Lisboa) e no Museu Nacional de Soares dos Reis (Porto).
Existe uma rua com o seu nome, na freguesia de Paranhos (Porto) e o Parque Silva Porto na freguesia de Benfica (Lisboa).

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Chaka e Dingane - Os Zulus e os Bóeres (África do Sul)

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"(...) É durante esta odisseia que vai produzir-se um tremendo embate en­tre os Bóeres e as tribos bantas.
Contra a opinião dos que preferiam os caminhos do Norte, al­guns milhares de pioneiros, chefiados por Piet Retief, espi­caçaram as juntas de bois rumo a leste. Tiveram o cuidado de tornear os domínios dos Xhosas, o perigo­so caldeirão onde havia mais de meio século fervi­lhavam mortíferas guer­ras de fronteira.
Efectuaram um desvio por nordeste, a gol­pes de tenacidade, atra­vés das cadeias montanhosas do Drakensberg. Foi literal­mente à força de braços que fize­ram transpor aos carroções e aos animais os obstá­culos dos maciços rocho­sos e o vazio apavorante dos abismos.
Desta maneira se fo­ram acercando, sem se darem conta, de um torvelinho humano onde se repercutiam ainda as ondas de cho­que da notável aventura expansionista dos Zulus, guiados por Chaka.
Este famoso sobera­no negro, que conduzira os destinos do seu povo, no Natal, entre 1816 e 1828, tinha forjado a partir da sua tribo insignificante uma destrutiva máquina de guerra e com ela talhara um poderoso império.
À frente de guerreiros descalços, munidos de es­cudos enormes e de zagaias curtas que obrigavam ao corpo-a-corpo, Chaka espa­lhara acções de conquista e extermínio entre os povos vizinhos. Atacou a norte, a oeste e, também, a sul, na direcção das terras onde os Xhosas prosse­guiam as suas disputas com os bóeres fronteiriços.
A consolidação do império fi­cou a dever-se à sua genialidade e à bravura dos seus guerreiros, submetidos a uma disciplina espar­tana, treinados até à exaustão e de energias espevitadas por forçados períodos de castidade.
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O rolo compressor do expansionismo zulu ocasio­nou milhares de mortos e a fuga espavorida de legiões de sobreviventes, que, no frenesi do recuo, disseminavam a devastação e o luto por onde quer que passassem. Ao redemoinho destas massas humanas deslocadas, pelejando ardorosamente pela sobrevivência, deu-se o nome de mfeca­ne. Teve como resul­tado, para além do trá­gico cortejo de vítimas, o desmorona­mento de velhos reinos e a emergência de no­vas e esperanço­sas nações.
Até a colónia portu­guesa de Moçambique, situada para norte, à beira do Índico, não se furtaria ao gi­gantesco abalo, sofrendo a invasão de um exército de zulus comandados por um dissidente de Chaka - Sochangane, ou Manicusse. Deste cabo-de-guerra africano descenderia um neto não menos famoso, Gungunhana, filho de Muzila, muito cele­brado pelos Portugueses nas suas coloridas crónicas de guerra do fim do século, em Moçambique.
Foram territórios em parte desembaraçados de gente que os Bóeres, possuídos de optimismo, cruzaram nos começos do Grande Trek. Mas tratava-se de um des­povoamento passageiro, provocado pelas fugas aos massacres. Com a paz, produ­zir-se-ia o refluxo e o consequente choque entre brancos e africanos. Também os dois mil bóeres de Piet Retief se deixaram emba­lar por doces ilusões, quando, em Outubro de 1837, transpostas enfim as penedias do Drakensberg, poisa­ram os olhos extasiados nos campos fecundos e floridos do Natal, contíguos ao Índico.


A sorte reservava-lhes, porém, uma experiência de pe­sadelo.
Souberam que algumas deze­nas de aventureiros e co­merciantes ingleses se agitavam já na costa e perceberam que tinham acabado de desembocar no coração do império zulu.
Chaka fora assas­sinado em 1828 por Dingane, seu meio-irmão. Este, molemente afundado na velha poltrona que lhe servia de trono e reconfortado pelos mimos de uma cen­tena de concubinas, dirigia de Umgungundhlovu - o Lugar do Elefante - os destinos do seu temível povo de guerreiros.
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Dingane, o Grande Elefante, perante quem os visitan­tes se rojavam de joelhos, acolheu jovialmente Piet Retief, assim que este chegou acompanhado de um comando de sessenta bóeres. O rei africano nem sequer pesta­ne­jou quando os estran­geiros lhe estenderam uma vaga pa­peleta para que ele lhe apu­sesse o seu sinal. Não lhe ia decerto pela cabeça que, com aquele displicente ra­bisco, os seus interlocuto­res se atrevessem a intitular-se proprietários de uma par­cela das suas terras. Mesmo que assim fosse, Dingane, posto de sobreaviso quanto à iminente chegada de alguns milhares de brancos, guardava dentro de si a chave que o libertaria daquela embru­lhada.
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Assim, a 6 de Fevereiro de 1838 con­vidou Piet Retief e os seus homens para ce­lebrarem o acordo com generosas liba­ções de cerveja local, enquanto os guerreiros tratavam de os homenagear com dan­ças alti­vas. Os Bóeres, de­sarmados, sorvendo com placidez o fumo dos cachimbos, se­guiam prazentei­ros as evolu­ções dos dançarinos. Isto durou até ao instante em que o dissimulado soberano, deixando tombar a máscara da cortesia, desatou aos berros: Matem os feiticeiros!
Os guerreiros zulus caíram em fúria sobre os brancos des­prevenidos, massacraram-nos até ao último e abandonaram os corpos ensan­guenta­dos à voraci­dade dos abutres.


Dingane, empolgado, tomou novas e enérgicas decisões.
Era seu propósito in­fligir aos intrusos uma lição mestra, tão aterrorizadora que os convencesse a de­bandar, de uma vez por todas, dos seus domínios. Soltou os guerreiros pelos vales e colinas do território, na peugada das famílias bóeres desacauteladas. Perto de trezentos calvinistas - homens, mulheres e crianças -, juntamente com duas centenas de servos hotentotes, foram deste modo chacinados.
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Depois da matança, e tal como calculara Dingane, alguns dos brancos decidi­ram tomar a direcção do Norte, para lá do rio Vaal, à procura de refúgios menos conturbados. A maior parte deles, po­rém, vigorosamente espicaçados pela deter­minação das mulheres, entre as quais sobressaía a viúva de Piet Retief, optaram por resistir. Isso trouxe-lhes, até quase ao final do ano, um nunca mais acabar de sobressaltos. Flagelados pelas investidas zulus, passavam dias a fio entrincheira­dos nos seus laagers.
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Os laagers consistiam numa espécie de fortalezas ambulan­tes formadas por carroções dispostos em cír­culo, com todos os interstícios vulneráveis atravancados de ar­bustos espinhosos. Os pioneiros desfe­chavam desses sólidos abrigos um fogo nutrido sobre os assal­tantes e, em ocasiões propícias, montavam a cavalo e desferiam rápidos contra-ataques.
Em Novembro de 1838, senhor de todos os trunfos, o Grande Elefante parecia ter a partida ganha. Naquelas horas de agonia os Bóeres foram vendo desaparecer os seus chefes mais carismáticos. Depois de Piet Retief calhou a vez a Uys, abatido numa emboscada com vários companheiros, e a Maritz, que sucumbiu à doença. Potgieter, que jamais concordara com o malfadado desvio para o Natal, acabou por partir com os apaniguados até à relativa segurança do Vaal.
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Enquanto Dingane se aprestava para o ataque decisivo, operou-se uma reviravolta providen­cial no des­tino daquela gente: Andries Pretorius, um abastado proprietário do Cabo que re­solvera juntar-se ao êxodo, chegou com o seu comboio de carroções às terras dos Zulus.
Robusto, lúcido e ousado, Pretorius foi eleito coman­dante dos pioneiros bóeres do Natal. Ordenou que todas as noites se formassem laagers e, bom psicó­logo, pressentindo o choque final, manipulou com astúcia o mis­ticismo reinan­te: convocou o seu meio milhar de combatentes e fê-los jurar que, em caso de triun­fo, construiriam um templo comemorativo e pas­sariam a guardar um dia anual de acção de graças. Assim fortalecidos, acolheram-se todos ao laager de sessenta carro­ções, nas vizinhanças de um estreito curso de água, e esperaram.


O ataque de Dingane sobreveio ao romper do dia 16 de Dezembro de 1838.
Milhares de zulus entoaram cânticos de guerra e lançaram-se sobre os Bóeres. Estes receberam-nos de corações abrasados de fé, com as suas preces, os seus salmos e, como é óbvio, com o fogo das carabi­nas, sublinhado pelo estampido de algumas salvas de canhão.
Uma e outra vez re­trocederam os as­saltantes, para logo retomarem a ofensiva. Os mais destemidos conseguiram trans­por a barreira de fogo e trepar aos toldos dos carro­ções, pulando para o interior do círculo defen­sivo. Aqui se feriu um selvático com­bate à zagaiada e à machadada, em que o próprio Pretorius escapou à morte por um fio.
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Três horas após o início das hostili­dades, o exército zulu achava-se exausto e em retirada. Os cadáveres de três mil guerreiros cobriam o solo, contra perdas insig­nificantes dos defensores, e as águas do riacho adquiriram por instantes a pavoro­sa tonalidade do sangue das vítimas. Por tal facto, os Bóeres aludiriam daí em di­an­te a este evento como a Batalha do Rio do Sangue.
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No arrebatamento da vitó­ria, um numeroso comando calvinista saiu em perseguição do exército inimigo des­tro­çado, fustigando-o ao longo de quilóme­tros. Dingane, com o orgulho de rastos, dei­xou aos inimigos Umgungundhlovu em cinzas, onde, não obstante, os Bóeres ar­ran­jaram maneira de recuperar os despojos de Piet Retief e o texto do acordo ce­le­brado com o Grande Elefante. Chegaria em breve o tempo de neste se cumprir a espécie de maldição que há muito pairava so­bre o destino dos soberanos zulus. Assassino do grande Chaka, que fora, por sua vez, proscrito na infância pelo pai, Dingane acabaria traído e derrotado pouco mais tarde por seu irmão Mpande, que um missionário descreveria como um verdadeiro cavalheiro banto. Posto em fuga, o Grande Elefante seria assassi­nado na Suazilândia.
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Com o momentâneo eclipse da ameaça zulu principiou a desvanecer-se o turbi­lhão do mfecane e dos morticínios a ele associados. Os Bóeres aproveitaram a maré e, em 1839, proclamaram a República do Natal, convencidos de que os por­tões da terra prometida rodavam enfim nos gonzos para lhes franquearem a en­trada. Pura quimera. Ainda mal haviam saboreado o triunfo sobre Dingane e já ti­nham de novo à sua frente, como num sonho mau, aqueles persistentes Ingleses de que anda­vam fugidos.
(...)" (*)
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(*) - (José Bento Duarte - Senhores do Sol e do Vento - Histórias Verídicas de Portugueses, Angolanos e Outros Africanos - Editorial Estampa - Lisboa - 1999)

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Eterno Feminino...

(Moscovo, Praça Vermelha. Grupo de cadetes, envergando uniformes históricos, em parada militar recente)
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(Foto: Denis Sinyakov - Reuters)

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Miriam Makeba - Calou-se a Voz de África (1932 - 2008)

N. Johanesburgo (África do Sul) em 4-Março-1932.
F. Castel Volturno (Itália) em 9-Novembro-2008.
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Podem recordá-la aqui:
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(Para voltar ao blogue depois de ouvir, clicar na seta do topo esquerdo do écran)
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domingo, 9 de novembro de 2008

A "Vetusta", de Santiago de Compostela

Librería Vetusta - Rua Nova, 31, Santiago de Compostela, Galicia.

Um universo de surpresas (boas) em livros, postais, mapas, aguarelas...

Horários um tanto impensáveis, mas úteis às conveniências de muitos...

De 2.ª a 6.ª feira: das 17 às 21h.
Sábados: da 11 às 14h. e das 17 às 21h.

Obras de História, Antropologia, Arqueologia, Arte, Direito, Economia...
... Filatelia, Filologia, Genealogia-Heráldica, Geografia, Informática, Literatura...

... Medicina, Música, Psicologia, Religião, Sociologia, Teatro...