domingo, 25 de maio de 2008

Genial George Gershwin: "Summertime"


Uma das mais belas canções que alguma vez se compuseram.
Digna de que uma tripulação de astronautas um dia a transporte para a deixar depositada, em homenagem ao génio humano, num qualquer recanto longínquo do cosmos - algures numa galáxia muito, muito distante...
Extraída de "Porgy and Bess", do inesquecível George Gershwin.
Soprano: Cecily Nall.
(The Point Chamber Orchestra)
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Angola Eterna - (Na Pintura de Neves e Sousa) (3)

Sanzala do Galangue
Varrer das Cinzas, Luanda
Pesca da Tuqueia - Anharas Inundadas pelo Zambeze (Moxico)
Mata do Dundo

Matebas do Cuamato

Mulola ao Entardecer

Pacaça
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(De uma exposição da Sanzalangola)

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Eterna Edith Piaf (1915-1963) - Non, Je Ne Regrette Rien...















Aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=Q3Kvu6Kgp88
(Depois, para voltar ao blogue, vá ao topo esquerdo do seu écran e clique na seta da esquerda)
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Non, rien de rien
Non, je ne regrette rien
Ni le bien qu'on m'a fait, ni le mal
Tout ça m'est bien égal
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Non, rien de rien
Non, je ne regrette rien
C'est payé, balayé, oublié
Je me fous du passé
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Avec mes souvenirs
J'ai allumé le feu
Mes chagrins, mes plaisirs
Je n'ai plus besoin d'eux
Balayés mes amours
Avec leurs trémolos
Balayés pour toujours
Je repars à zéro
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Non ! Rien de rien ...
Non ! Je ne regrette rien ...
Ni le bien, qu'on m'a fait
Ni le mal, tout ça m'est bien égal !
Non ! Rien de rien ...Non !
Je ne regrette rien ...
Car ma vie, car mes joies
Aujourd'hui, ça commence avec toi !
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(Paroles de Michel Vaucaire - Musique de Charles Dumont)

Baptista-Bastos - Onde Está o Lado Certo?

"(...) Vivemos, desde a década de 80, um novo período de sufocação, que se manifesta em vários sectores: desemprego, emigração, esvaziamento ideológico e ausência da política, economia, justiça, cultura, educação.
Há, hoje, dificuldade em escolher o que se julga ser o lado certo onde se deve estar.
E essa dificuldade serve de pretexto para as mais vis renúncias, e de condescendência para com sórdidas traições.
Inculcaram-nos a ideia de que Portugal é inviável e de que somos um povo de madraços.
Como já poucos lêem o que deve ser lido, a afirmação fez fé.
Mas não corresponde à verdade.
Recomendo aos meus dilectos alguns autores antagonistas da absurda tese: Vitorino de Magalhães Godinho, José Mattoso, Luís de Albuquerque, António Borges Coelho e, até, António José Saraiva.
Todos interpelam o País, criticam-no porque o amam, e ensinam-nos que o passado altera-se de todas as vezes que o lemos e interrogamos.
O lado certo está, creio-o bem, quando recusamos a indiferença e não admitimos a resignação."
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(Excerto de uma crónica de Baptista-Bastos no "Diário de Notícias" de 21 de Maio de 2008)
(Foto de Alba Luna)

domingo, 18 de maio de 2008

Velha Poesia Árabe na Península Ibérica (X) - (Al-Mutamid) - A Amada

Ó minha eleita sem par
de entre toda a humanidade:
estrela! lua a brilhar!
haste erguida e escorreita
gazelita no olhar.
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Da flor tu és o alento
és a brisa perfumada,
minha dona, meu sustento,
e grilheta bem-amada.
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Cego ficaria e surdo
para que fosses resgatada,
chama-me que logo acudo.
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Diz: quando será curada
a ardência do meu coração
com o fresco toque dos dentes
que na tua boca estão?
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(Al-Mutamid - n. Beja em 1o40; m. Marrocos em 1095)

sábado, 17 de maio de 2008

Homenagem a Mário Viegas (1948-1996) - "Manifesto Anti-Dantas"

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Lisboa. Corria o ano de 1972, nos tempos quase finais da guerra colonial portuguesa. Era ele aspirante-a-oficial-miliciano quando pela primeira vez o descobri, na sala de aulas de um quartel de Lisboa, empoleirado numa daquelas mesas enormes de tampo esverdeado, debitando poemas vibrantes para uma classe de cadetes extasiados.
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Era suposto que ele nos transmitisse uns quaisquer segredos vitais sobre logística, sobre depósitos de víveres, sobre tabelas alimentícias, sobre transportes em zonas de conflito.
Quem teria sido o distraído, ou o ingénuo, que se lembrou de fazer do Mário Viegas um instrutor de guerra? Como seria de prever por quem o conhecesse minimamente, jamais se preocupou com o que pretendiam dele os senhores do quartel. Ele era o mais arredio que imaginar se possa de qualquer vestígio de ordem castrense. Assim, nas provas por que era responsável, toda a gente copiava, alegre e impunemente, rumo a classificações de brilho.
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Ficou-me dele a lembrança da simpatia, da solidariedade, da rebeldia, do comentário pronto, solto e corrosivo sobre os ridículos e as injustiças do mundo. E ficou-me também a recordação (terá ficado em todos nós) da espantosa capacidade de declamação com que, do cimo daquelas grandes mesas de tampo verde, nos ofertava poema atrás de poema.
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Como sucedeu, certa vez, com esse inesquecível Manifesto Anti-Dantas, de Almada Negreiros, que ele arremessava em altas vozes aos "Dantas" que, na sua opinião, deambulavam por aquele mundo cinzento.
E que serve, ainda hoje, a todos os "Dantas" que andam nefastamente por aí (por muito injusto que isso possa ser para a memória do homem de sensibilidade e talento que foi, de facto, o "autêntico" Júlio Dantas da cultura portuguesa).
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Pode ouvir em:
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http://www.youtube.com/watch?v=CSRC6-XgSHo
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Mário Viegas segundo outros:
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Mário Viegas (1948-1996) é considerado um dos melhores actores portugueses da sua geração. Tendo iniciado a sua carreira aos quinze anos de idade, deixou-nos consideráveis e extraordinários testemunhos do seu amor pela arte, assim como do seu esforço, sem dúvida bem sucedido, para fazer um trabalho de qualidade.
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"Era um poeta, um homem que dizia poesia de uma forma admirável. Era um grande actor e encenador e teve sempre uma liberdade de espírito e um poder criativo extraordinário. Quem não se lembra da tão recente e espantosa criação, continuamente renovada, que foi o espectáculo «Europa não! Portugal nunca!!»?
Mário Viegas sempre deu o seu testemunho sobre a vida social e política e, além de criador, foi um homem muito inserido no seu tempo, que deixa uma grande obra." (Dr. Jorge Sampaio, Presidente da República, citado in A Capital, 1 de Abril de 1996).
Mário Viegas, encenador, actor, declamador de raro talento, interiorizou a poesia como poucos. Improvisou textos extraordinários, deu a conhecer autores, disse o que tinha a dizer de Portugal e do mundo. Fez da sua vida um poema de luta pelas ideias.
Com radical desprezo pelo poder, foi Rei das Berlengas e amante de Beckett, dos palcos, das palavras, do vinho e da verdade.
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Entre o Teatro, a Poesia (intitulava-se "recitador"), o Cinema, a Televisão e a actividade política e cultural, os 47 anos de vida de Mário Viegas geraram riso e choro, amores e ódios.
Homem profundamente culto e consciente do mundo em que vivia, o espectador recorda-o como Artista, mas também pela sua permanente atitude de critico implacável e pelo seu característico estilo de humor.
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"1 Abril de 1996. Mário Viegas morreu. Era um cómico que levava dentro de si uma tragédia. Não me refiro à implacável doença que o matou, mas a um sentimento dramático da existência que só os distraídos e superficiais não eram capazes de perceber, embora ele o deixasse subir à tona da expressão às vezes angustiada do olhar e ao ricto sempre sardónico e amargo da boca. Fazia rir, mas não ria. Pouca gente em Portugal tem valido tanto."
José Saramago (in Cadernos de Lanzarote)
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Nas suas primeiras férias de Natal, após ter ingressado no Colégio Internato Pio XII, em Lisboa, e ter passado o primeiro semestre longe de casa, Mário Viegas anunciou aos pais: "Matriculei-me no Conservatório".
Em meados dos anos 60, num país em plena guerra colonial e governado por uma ditadura já bolorenta, uma declaração destas poderia parecer bombástica. Não foi o caso. António Mário Lopes Pereira Viegas, que na altura era ainda o António, filho varão de uma linhagem de farmacêuticos do lado paterno, não ouviu nenhuma reprimenda.
O pai disse-lhe que esta era uma decisão dele.
A mãe exclamou: "Eu ficaria admirada se não tivesses tomado esta decisão".
O teatro era o caminho mais que natural para quem, no seu diário, aos treze anos de idade, escrevia que o seu sonho era ser actor. Naquela noite de Natal, António ainda ouviu da mãe: "Que faças o melhor".
As palavras revelaram-se quase proféticas. Raul Solnado - o único que poderia ocupar, na história do teatro português contemporâneo, o lugar do filho de Francisco e Mariana Viegas - sempre disse: "Ele é o melhor actor da nossa geração".
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Espírita por convicção, apesar da educação católica, Mário Viegas sempre acreditou nos desígnios da sua família. No seu livro auto-photo-biográfico, com apenas duzentos exemplares editados, conta a história da sua família, tanto do lado do pai como da mãe.
Mário Viegas, que morreu há cinco anos, dizia ser a encarnação do seu trisavô paterno, o famoso actor Francisco Leoni, fundador do Teatro da Trindade.
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Do lado da mãe, a história é mais comprida. O seu tio, António Cardoso Lopes Júnior, foi o fundador da famosa revista de banda desenhada "O Mosquito", pioneira em Portugal.
A sua mãe, Mariana, aos dezoito anos, foi convidada pelo irmão para dirigir o suplemento feminino da revista, denominado "A Formiga". Assinava como Tia Nita e chegava a dar aconselhamento às muitas cartas de raparigas que chegavam à redacção. Pela sua tenra idade, nunca se deu a conhecer.
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Com esta tradição de família e um ambiente propício, era natural que Mário Viegas já brincasse aos quatro anos de idade com os fantoches que a mãe lhe dera. Não era criança para brincar de carrinhos e passava os dias a ler, fechado no quarto e a ensaiar as vozes das personagens que imaginava.
Inventou o Teatro ABC, criava as personagens e desenhava os cartazes das peças de escrevia, espalhando-os pela casa. Já aos dez anos de idade, não havia festa ou sarau em Santarém que não fosse convidado para apresentar o seu teatro, sempre auxiliado pela sua irmã mais velha, Hélia Viegas.
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Nos seus 47 anos de vida, Mário Viegas fundou várias companhias de teatro - entre elas a "sua" Companhia do Chiado -, contracenou com Maria do Céu Guerra, fez inúmeras sessões públicas com Zeca Afonso e outros cantores de resistência, trabalhou com Carlos Avilez e encenou peças de vários autores, com especial ênfase para a obra de Samuel Beckett.
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No cinema, encarnou "Kilas, o Mau da Fita" (um dos filmes portugueses mais vistos de sempre), trabalhou com Manoel de Oliveira e contracenou com Marcelo Mastroianni e Victoria Abril.
Na televisão, atingiu grande popularidade com o programa "Palavras Ditas", entre 1978 e 1982. Ao longo da sua vida, gravou catorze discos de poesia, onde declamou mais de 200 versos de Almada Negreiros, Alexandre O'Neill, Pablo Neruda, Ruy Belo, entre muitos outros.
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Nos seus últimos anos de vida, Mário Viegas não parou de surpreender. Autor de seus próprios textos, concebeu "Europa, Não! Portugal Nunca!!", um espectáculo em forma de conferência de imprensa onde personifica um pseudocandidato à Presidência da República.
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Levou tão a sério a sua preocupação com o estado geral do País, que participou nas eleições legislativas de 1995 como candidato independente pela UDP. Um ano antes, era galardoado por Mário Soares, então Presidente da República, com a Ordem do Infante D. Henrique.
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Dois meses antes da sua morte, a 1 de Abril de 1996, Mário Viegas entregou o seu espólio pessoal a sua sobrinha, com quem viveu os seus três últimos anos de vida. Ana Viegas é a filha que o actor não teve, nas palavras de sua mãe. Pressentindo o fim da sua vida, ensinou à sobrinha o que fazer com o material que acumulou, deixando instruções por escrito. Nos quadros de que tanto gostava, escreveu por detrás: "Este quadro custou tanto, se um dia venderem, não se deixem morder", conta a mãe Mariana.
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Mesmo vivendo em Lisboa, Mário Viegas vinha sempre aos fins-de-semana à casa de família, pois "tinha saudades do seu quarto de garoto".
Este quarto, onde ainda estão as suas almofadas, os seus quadros, os seus livros, é hoje o lugar em que a sua mãe gosta de sentar para escrever, à mesma secretária onde o filho criou as suas peças na infância. Foi neste lugar que escreveu a "última carta ao filho", que será o prefácio do catálogo da exposição que o Museu Nacional do Teatro está a preparar sobre a vida do filho famoso."
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(Alexandre Cavalcante)
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Pintores da Península Ibérica (Portugal) - Roque Gameiro (2) - Ilustrações para "As Pupilas do Senhor Reitor"







quinta-feira, 15 de maio de 2008

Esmeralda



De Maria José Nogueira Pinto, um artigo de hoje no Diário de Notícias.

A Torre apoia e aplaude.


Esmeralda

Sempre que vejo o nome da criança nos jornais sinto um aperto mitral, uma mistura de angústia e vergonha.
Esmeralda tornou-se conhecida pela sua má fortuna desde que, vista como uma res nullius, foi dada ao pai biológico por um juiz que pensou ser um qualquer deus, ao ver nesse pai faltoso um seu filho pródigo e por isso merecedor de extrema benevolência para com a sua consciência, forçada e tardia, dos deveres da paternidade.
Desde então, Esmeralda tornou-se uma criança-objecto que agora mandam ir para ali, que agora mandam ir para acolá, que agora, afinal, mandam esperar mais um bocadinho.
Os pais afectivos, que são afinal os pais do coração, viraram a sua vida do avesso para poupar Esmeralda às consequências de uma sentença mal dada e lutam por ela, que se não pode defender, contra aqueles que, supostamente e em nome do Estado, deviam pôr o seu interesse e bem-estar acima de tudo.
Tantos anos depois de se ter conseguido despertar as consciências para os direitos das crianças privadas de um meio familiar adequado, de se ter levado a cabo esforços legislativos para conseguir uma Lei da Adopção que combinasse segurança e celeridade, de se ter verbalizado a preocupação do número crescente de crianças institucionalizadas é inquietante que uma coisa destas possa ainda acontecer.

Dir-me-ão que o juiz não estava familiarizado com a matéria, que nem todos o tribunais têm juízes que dominem a filosofia e os princípios que presidem ao enquadramento jurídico dos menores.

E eu pergunto, que culpa tem a Esmeralda por o seu caso ter ido parar ao Tribunal da Sertã? Vamos, por esse facto, consagrar uma tão iníqua quanto comprometedora desigualdade de oportunidades?

Convém lembrar que o casal de acolhimento era, também, um casal adoptante, já que, pouco antes da fatídica decisão de atribuir o poder paternal ao pai biológico, os competentes serviços da Segurança Social tinham iniciado o processo de confiança judicial com vista à adopção de Esmeralda.

Este casal tinha, pois, sido avaliado e considerado idóneo, ao mesmo tempo que a mãe biológica reconhecia ser este o melhor destino para a filha.

Não se previa que um pai ausente, forçado a ver a sua paternidade reconhecida por via judicial, que nunca manifestara interesse pela criança, que nunca cuidara, ao que se sabe, da companheira durante a gravidez, que as deixara entregues à sua sorte viesse a ser considerado por um juiz como o pai ideal.

E porque estas questões são muito sérias e complexas, ouviram-se, e bem, os especialistas, psicólogos, pedopsiquiatras, técnicos de Serviço Social que, em uníssono, alertaram para os riscos que tal decisão acarretaria para a criança.

Porque foi tudo, então, inútil?

Este caso gera necessariamente um sentimento de profunda inquietação: pela alea na decisão judicial; pelo desencontro entre os serviços da Segurança Social e os tribunais que, nestes casos, deviam andar de braço dado; porque em Portugal aumenta o abandono e a institucionalização das crianças e o modo como funcionam os tribunais é decisivo para minimizar os danos emergentes. Que expectativas podem elas ter?

Mas o mais grave é o facto de ser possível, a quem está investido de poder público para o fazer, decidir sobre a vida de uma criança sem ter em devida conta dois princípios fundamentais: o seu melhor interesse e o respeito pelo seu tempo útil. É que nenhuma sentença pode atropelar, mesmo que seja por uma interpretação muito restrita, aquilo que é o objectivo principal do legislador: dar à criança o futuro a que tem direito e não submetê-la a experiências ou a tentativas que, com grande probabilidade, a magoarão irremediavelmente.

Não há por que dar uma oportunidade a um pai inexistente se, para isso, se retira à criança a sua única oportunidade.

E, sobretudo, não há por que gastar quatro dos seis anos de vida da Esmeralda, dois terços da sua existência, numa série de más práticas.

Vejo com expectativa que o Tribunal de Torres Novas deu seguimento aos pedidos de alteração do poder paternal.

Oxalá, agora, chamem o Rei Salomão.

sábado, 10 de maio de 2008

A Grande Música de Isaac Albéniz (Espanha) - "Astúrias"


A passagem do tempo mais não fez do que robustecer as lendas que correm sobre a vida de Isaac Albéniz (1860-1909), um dos mais brilhantes compositores espanhóis, autor da zarzuela Pepita Jiménez e de Ibéria, a sua obra-prima.
A precoce genialidade e as histórias fantásticas que se lhe atribuem fizeram dele uma figura enigmática.
Isaac Albéniz nasceu em Camprodón, Catalunha, em 29 de Maio de 1860. Menino prodígio, deu o primeiro concerto aos quatro anos. Aos sete foi-lhe recusada a admissão no Conservatório de Paris, pela pouca idade, acabando matriculado no Conservatório de Madrid.
Fugiu de casa e acabou por se esconder num navio com destino à América Central para escapar à perseguição dos pais. De lá foi para os Estados Unidos, onde ganhou a vida tocando em público.
Voltou para a Europa, onde conseguiu entrar, em 1874, para o Conservatório de Leipzig, Alemanha, como aluno de Jodassohn e Reinecke.
Voltou depois a Espanha, recebendo do rei uma bolsa que lhe permitiu continuar os estudos no Conservatório de Bruxelas.
Em 1878 recebeu lições de Liszt, cuja influência se fez sentir na técnica das suas peças mais importantes para piano.
Depois de acompanhar Rubinstein
numa excursão artística pela Europa e América, em 1880, ganhando grande reputação como pianista, foi ensinar em Barcelona.
Em 1883 casou-se com Rosina Jordana e, em 1885, voltou para Madrid.
Em 1893 Albéniz estabeleceu-se em Paris, decidido a aperfeiçoar cada vez mais a sua técnica de compositor, recomeçando a trabalhar com d'Indy e Dukas, e assimilando os processos impressionistas de Debusssy e Ravel.
Em 1898 apareceram-lhe os primeiros sintomas da doença de Bright (problema renal), da qual viria a morrer, em Cambo-les-Bains, nos Pirinéus, em 18 de maio de 1909.
Pianista famoso, Albéniz foi, como compositor, um dos que iniciaram na Espanha a criação de um estilo musical nacional, baseado nos ritmos e motivos populares. Influenciou, por exemplo, a obra de Manuel de Falla.
Como outros jovens compositores espanhóis da época, seguiu Felipe Pedrell (1841-1922) no culto de uma arte musical genuinamente espanhola.
O poema sinfónico Catalunha (1899) e a colecção de peças para piano Ibéria (1906-1909) são as suas obras mais características.
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John Williams, o virtuoso australiano de guitarra clássica, faz-nos, com "Astúrias", uma demonstração da genialidade criativa de Isaac Albéniz.
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quarta-feira, 7 de maio de 2008

(Daniel Filipe) - Em Teu Macio Olhar...

Em teu macio olhar
repousa o meu.
E na face polida,
assim formada,
se reflecte e recria
o próprio céu.
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(Daniel Filipe) (Cabo Verde - 1925-1964)

sábado, 3 de maio de 2008

(Pietro Mascagni) - "Intermezzo" de "Cavalleria Rusticana"

Nesta noite de sábado, após as emoções da primeira parte da nossa viagem pelas antigas ferrovias do Sul de Angola, uma virtuosíssima interpretação oriental do "Intermezzo".
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(Pietro Mascagni - Compositor italiano - 1863-1945)

Memória - Fantásticas "Garratts"! - As Antigas Viagens de Comboio de Moçâmedes a Sá da Bandeira (Sul de Angola)

 
"Garratt" - mítica locomotiva das grandes distâncias africanas!
Lembro com nitidez o instante da minha infância em que vi uma pela primeira vez - semelhante à que aqui vos deixo. Parada e poderosa nos carris de uma estação ferroviária do Sul de Angola, luzindo com um brilho baço de limpeza recente, soprando da chaminé baixa fumos enegrecidos e espessos, esguichando dos flancos um vapor esbranquiçado e impaciente - "fschhhhh..." . A pedir viagens, apeadeiros, descobertas - "fschhhhh...". Fiquei mudo e extático, esmagado na minha pequenez pela presença imóvel mas fremente do monstro. Sentia-me ao mesmo tempo intimidado e encantado pela novidade, acostumado que estava às maquinazinhas quase de brinquedo que haviam percorrido, até então, os carris de bitola estreita entretanto substituídos por outros mais largos para poderem acolher os gigantes de ferro recém-chegados
 
Aconteceu na cidadezinha de Moçâmedes (hoje Namibe), urbe tranquila e doirada, de arvoredos dispersos pelas ruas direitas, traçadas, a régua e esquadro, entre os areais do deserto e uma baía de águas azuis e translúcidas.
 
 
De um lado da cidade ficava o deserto profundo, povoado de animais furtivos e de uma multidão de "Welwitschia Mirabilis", plantas rastejantes que sempre me fizeram evocar legiões de caranguejos vegetais a fugirem, açodados, da presença perigosa dos intrusos. Para Gastão Sousa Dias (1), sempre com o justo verbo, a "welwitschia" é " a planta filha do deserto, que, na sua forma e contextura estranhas, parece querer significar toda a aridez, todas as torturas da sede , todo o horror da adaptação a um meio hostil".


 
Do outro lado, apertando o casario e o deserto num abraço de frescuras atlânticas, a espaçosa baía com o moderno porto de mar, onde acostavam os paquetes imponentes das Companhias de Navegação portuguesas (a Colonial e a Nacional). O Uíge, o Infante Dom Henrique, o Moçambique, o Pátria, o Império, o Angola, tantos outros... De vez em quando atracavam vapores estrangeiros ou vasos de guerra de canhões sossegados e recolhidos, pois ali não havia, nem chegou a haver, nesses tempos lusitanos, qualquer novidade bélica.
A tripulação de um navio japonês que por ali passou um dia deixou como lembrança à estação de rádio local (Rádio Clube de Moçâmedes - R. C. M.) um disco de música romântica do seu país, de 45 r. p. m. E, meses a fio, soaram na baía e nas dunas vizinhas, por cima das "welwitschias" e das casuarinas, as estrofes doridas e exóticas de um cançonetista nipónico destroçado por terríveis males de amor. Entre a população comovida ninguém percebeu jamais, de ciência certa, de que sofria o japonês. Suspeitavam, apenas - pelo tom melado, pelas fracturas de voz, pelas bruscas interjeições... E, suspeitando, todos gostavam de o ouvir. O R. C. M. fazia-lhes a vontade. Até que o disco-lembrança fatalmente se riscou e o infeliz apaixonado se calou de vez.


 
Este era o edifício da estação ferroviária de Moçâmedes (aqui no seu estado actual). Naquele tempo ele resplandecia ao sol do mar e do deserto, no seu ocre imaculado, marginado de faixas arroxeadas. As portas centrais, de topos arredondados, davam acesso às bilheteiras e à gare. Defronte da estação começava a "Avenida" (onde terminavam os muros do velho campo de futebol). A "Avenida" era um espaço extenso, que cortava a cidade de norte a sul, com os seus canteiros de flores multicoloridas, tanques de água, buganvílias e palmeiras.
Aqui passeavam, nas tardes de domingo, com sedutores vagares, ranchinhos perfumados de jovens meninas, cruzando olhares fugidios com os pretendentes, em cenas discretas que as correspondentes famílias (a mãe, o pai, os avós, os manos mais velhos) patrulhavam a prudente distância. Das arvorezinhas baixas da "Avenida" pendiam instalações sonoras, de cujos altifalantes escorriam incessantemente os êxitos musicais da época - de Amália Rodrigues, de Tristão da Silva, de Alberto Ribeiro, de Maria Clara. Ouvia-se a Casa Portuguesa, o Nem às Paredes Confesso, a Canção do Cigano, a Fonte das Sete Bicas. E soavam ainda tangos plangentes e requebrados, trazendo aos crepúsculos sul-angolanos uma inusitada e muito romântica sugestão argentina. Foi nesses primeiros anos que tomei conhecimento, sem saber a quem pertencia, daquela voz castigada e roufenha a chorar por "mi Buenos Aires querido". Só muito depois soube tratar-se do desditoso Carlos Gardel. Que assim embalou, a milhares de quilómetros, e muitos anos depois de partir, o começo de muitos e tórridos amores moçamedenses.
Era por aqui que ficava, então, a estação ferroviária da cidade. E foi por detrás desta vetusta fachada que me encontrei, na minha infância, e nos termos acima descritos, com a minha primeira "Garratt".

 
 
As "Garrats" apareciam na parte de trás da estação para movimentarem comboios extensos - de passageiros, de mercadorias ou mistos - entre Moçâmedes (Namibe) e Sá da Bandeira (Lubango). Não tardei a descobrir que as guardavam em enormes oficinas próximas da estação. Sentava-me num muro que dava para as instalações ferroviárias e desse poiso privilegiado vigiava-lhes durante horas as manobras, as idas e vindas daqueles monstros de belas linhas.





As locomotivas ficavam a aquecer, acumulando vapores e energias, durante as horas que antecediam as grandes viagens pelas planuras e montanhas do Sul de Angola.





Punham-nas em ordem, recuperavam-lhes mazelas de estiradas anteriores, limpavam-nas, acarinhavam-nas. Elas possuíam três corpos distintos, o que as tornava extraordinariamente manobráveis nas apertadas passagens das montanhas africanas. O maquinista seguia no corpo do meio. No da retaguarda recolhia-se o combustível (lenha, carvão). No da frente, fruto das fornalhas incandescentes, acumulava-se a tremenda pressão do vapor que as fazia poderosas e imparáveis.


 
Chegado o grande momento abandonavam o refúgio para irem "formar comboio". Resfolegando - fschhhhh... - alinhavam diante da estação com as carruagens e os vagões. Sempre resfolegando - fschhhhh... - aprontavam-se para o primeiro avanço depois de recolherem tripulações e passageiros. Despedidas derradeiras. E o último aviso-chamada da "Garratt", o apito imperativo e forte, que soaria amiúde durante as centenas de quilómetros da viagem.



De súbito, com ruídos sincopados e fortes, a máquina punha-se em movimento. Tchan-tchan-tchan... - Tchan-tchan-tchan... - Tchan-tchan-tchan... Cilindros, êmbolos, pistões, bielas, eixos das rodas, tudo trabalhando em perfeita sincronia numa nuvem rumorosa de vapor branco, emprestando vida e movimento àquele corpo imenso de metal escuro. A princípio lentamente, com uma espécie de preguiça mecânica, logo depois com outro balanço, a seguir preparando-se para as grandes velocidades do caminho. Fu-ca-tchi...- fu-ca-tchi... - fu-ca-tchi... Lubango, aqui vamos nós.


 

Na despedida de Moçâmedes, a "Garratt" tinha de transpor a ponte do Bero, nas "Hortas", um oásis de verdes intensos abençoado pelas cheias periódicas do rio.
"Nestas paragens os rios mantêm-se secos na maior parte do tempo. Porém (...), dá-se nos primeiros meses do ano uma ex­traordinária metamorfose, quando os ventos empurram até ao planalto as gordas nuvens fuliginosas das chuvas torrenciais. As águas despenham-se então para oeste ao longo das vertentes da Chela, alagam as depressões das terras baixas e origi­nam enxurradas tumultuosas ao correr das nervuras fluviais que procuram o oceano. No fim das chuvas subsiste durante algum tempo a correnteza mansa, pouco rumo­rosa, de vários rios, que deslizam através do deserto por leitos de areia macia, or­lados, aqui e ali, por canaviais e arbustos rejuvenescidos (...).
As águas não tardam a sumir-se, engolidas pelo solo poroso e ávido. Em inúmeros locais, porém, conservam-se vastos lençóis de águas subterrâneas, que se podem alcançar com es­cavações su­perficiais. Formam-se também depósitos abundantes de detritos or­gânicos, arrasta­dos pelas cheias. São adubos preciosos, que favorecem o verdejar repentino de plantas nutritivas, excelentes para o gado e para a multidão de herbí­voros selva­gens que por ali se movimentam." (2)


"A vinda periódica das águas explica a persistência da vida nesses lugares toca­dos por uma espécie de irreali­dade magnética, feita de dias luminosos e chamejan­tes que, na época própria, se submergem em mantos vaporosos de cacimbo impe­netrável.
Este é um mundo impregnado de aromas intensos e envolventes, despren­didos de um misto de madei­ras secas, lodos antigos, maresias penetrantes, capins calcinados e fumosidades longínquas transportadas nas abas do vento desde povo­ados escondidos. Terá sido em parte aquele magnetismo, aliado à possibilidade da vida, o poderoso instiga­dor da atracção que levou os invasores hereros, primeiro, e os conquistadores portugueses, mais tarde, a tenazes acções de fixação nesses er­mos de sol e sede." (2)

 



Primeiras paragens: o Saco (onde mais tarde se construiria um porto gigantesco para escoamento do minério de Cassinga) e o Giraul. Forcejando, forcejando, a máquina galga depois milha sobre milha, na paisagem escalvada.
E apita, apita, no seu aceleradíssimo e imparável fu-ca-tchi...- fu-ca-tchi...- fu-ca-tchi... E apita de novo.Que som este! Quem alguma vez ouviu o chamamento de uma "Garratt" jamais o poderá esquecer. É um silvo simultaneamente rouco, estridente e lancinante. É um grito de coisa viva e pensante, não de máquina inerte e bruta. Tanto pode soar a queixume como a brado de triunfo, tanto é apelo como despedida, tanto traduz alegria como raiva. A voz vibrante de uma "Garratt" é um dos sons mais inebriantes e comoventes que se podem escutar.





Já se vêem as penedias vizinhas da Raposeira, que anunciam as do Caraculo. "O terreno tem a violência bárbara dum inferno escalvado. A marginar a linha, pedregulhos sobre pedregulhos parecem construções ciclópicas executadas por mãos ciclópicas. De vez em quando surgem grandes morros pelados, de pedra lisa, duma fealdade nua e parda - semelhando, nas suas formas estranhas, bossas de camelos ou dorsos de tartarugas." (3)


 

Agora procuram-se as terras do Luso, do Cuto do Munhino. Numa carruagem ouve-se um acordeão de estudantes (será o Nelson, de Moçâmedes?), soam as sentenças solenes do Carlos, "O Mosca", estalam gargalhadas desprendidas e jovens. Fala-se com súbita gravidade da presença numerosa de leões na zona, sobretudo no Cuto, que é o quilómetro 101. Por sobre tudo isto, o fu-ca-tchi ... fu-ca-tchi da "Garratt", o odor intenso da sua fumarada, a magia da nossa África (4).




"Horas e horas o comboio arfa pelo deserto despido; as paragens, não tendo particularidade que as caracterize, são conhecidas pela numeração quilométrica; e o som do êmbolo, matraqueando rudemente, é o único ruído que acorda o silêncio morno e abafado do areal infinito." (1)


 

Rios secos, águas ocultas, vida fervilhando em redor...
Fu-ca-tchi... - Fu-ca-tchi...- Fu-ca-tchi... (4)


 
 
"Errando pelo interior desértico ou semidesértico, meteram por cami­nhos que iam subindo devagar ao longo de ravinas, planuras e montes cónicos iso­lados." (2)


 
 
Aqui e ali, vidas fugidias de guelengues, espantados pelo silvo da "Garratt", confundidos com o seu bafo escuro...


 

Já se deixou para trás o Munhengo, logo depois Assunção, vieram a seguir as Gargantas (a Grande e a Pequena). A "Garratt" progride em grande velocidade, acerca-se da sua maior adversária antes de chegar ao destino.


 

"Agora o terreno agita-se um pouco. Pequenas ondulações sucedem-se. E à nossa frente, lá ao longe, elevam-se os degraus da serra da Chela, negros e verticais, singularmente recortados no céu (...) Entre eles destaca-se o Morro Maluco (Cha-Malundo), cuja conformação é realmente caprichosa, recurvado como uma garra." (1) (4)


 
É agora, só mais um esforço! Sopra a "Garratt" afanosa, silva, matraqueia, devora espaços - desejosa do maior dos combates...

 
E, de repente, ao quilómetro 186, a barreira esmagadora da Serra da Chela, o grande obstáculo que separa a "Garratt" de Sá da Bandeira (Lubango)!
Aos pés da montanha imponente, o casario raso, colorido e ameno da bela Vila Arriaga (Bibala).
Lá no cimo, como um rasgão trágico, o corte mítico da Tundavala.
"De súbito, depararam com as escarpas da Chela, cujas cristas rompem os céus a mais de dois mil e trezentos me­tros de altitude. A partir do cume, esta regi­ão, planáltica, baixa aos poucos para leste até formar a bacia do Cunene, o lendário rio que, descrevendo uma curva des­comunal, abraça todo o Sudoeste an­golano até ao mar. Foi junto ao sopé desses im­ponentes paredões que os pastores detiveram o passo num primeiro momento." (2) (4)
Foi aqui também que a "Garratt" se deteve, a ganhar forças e balanço.
Daqui a uns minutos, será a última batalha da minha máquina indomável.


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(1) Gastão Sousa Dias - África Portentosa - Seara Nova - Lisboa - 1928.
(2) José Bento Duarte - Senhores do Sol e do Vento - Editorial Estampa - Lisboa - 1999
(3) José Maria d'Eça de Queiroz - Seara dos Tempos - Edição do autor - Sem data
(4) Esta foto, como algumas mais desta viagem (sobretudo as da Bibala e da Chela), são de Okawa Ryuko, que já temos citado e voltamos a recomendar vivamente. Blogue: Angola: Huíla Namibe Kunene Luanda.

 

quinta-feira, 1 de maio de 2008

(Sophia de Mello Breyner Andresen) - Navegações

Vi as águas, os cabos, vi as ilhas
E o longo baloiçar dos coqueirais
Vi lagunas azuis como safiras
Rápidas aves furtivos animais
Vi prodígios espantos maravilhas
Vi homens nus bailando nos areais
E ouvi o fundo som de suas falas
Que já nenhum de nós entendeu mais
Vi ferros e vi setas e vi lanças
Oiro também à flor das ondas finas
E o diverso fulgor de outros metais
Vi pérolas e conchas e corais
Desertos fontes trémulas campinas
Vi o rosto de Eurydice das neblinas
Vi o frescor das coisas naturais
Só do Preste João não vi sinais.
.
As ordens que levava não cumpri
E assim contando tudo quanto vi
Não sei se tudo errei ou descobri.
.
(Sophia de Mello Breyner Andresen - Poetisa portuguesa (1919-2004) (in Navegações VII)

(António Gedeão) - Poema do Fecho Éclair

Filipe II tinha um colar de oiro,
tinha um colar de oiro com pedras rubis.
Cingia a cintura com cinto de coiro,
com fivela de oiro,
olho de perdiz.
.
Comia num prato
de prata lavrada
girafa trufada,
rissóis de serpente.
O copo era um gomo
que em flor desabrocha,
de cristal de rocha
do mais transparente.
.
Andava nas salas
forradas de Arrás,
com panos por cima,
pela frente e por trás.
Tapetes flamengos,
Combates de galos,
alões e podengos,
falcões e cavalos.
.
Dormia na cama
de prata maciça
com dossel de lhama
de franja roliça.
Na mesa do canto
vermelho damasco,
e a tíbia de um santo
guardada num frasco.
.
Foi dono da Terra
foi senhor do Mundo,
nada lhe faltava
Filipe Segundo.
.
Tinha oiro e prata,
pedras nunca vistas,
safiras, topázios,
rubis, ametistas.
Tinha tudo, tudo,
sem peso nem conta,
bragas de veludo,
peliças de lontra.
Um homem tão grande
tem tudo o que quer.
.
O que ele não tinha
era um fecho éclair.
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(António Gedeão - Poeta português - 1906-1997)
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Poeta, professor e historiador da ciência portuguesa. António Gedeão, pseudónimo de Rómulo de Carvalho, concluiu, no Porto, o curso de Ciências Físico-Químicas, exercendo depois a actividade de docente.
Teve um papel importante na divulgação de temas científicos, colaborando em revistas da especialidade e organizando obras no campo da história das ciências e das instituições, como A Actividade Pedagógica da Academia das Ciências de Lisboa nos Séculos XVIII e XIX.
Publicou ainda outros estudos, como História da Fundação do Colégio Real dos Nobres de Lisboa (1959), O Sentido Científico em Bocage (1965) e Relações entre Portugal e a Rússia no Século XVIII (1979).
Revelou-se como poeta apenas em 1956, com a obra Movimento Perpétuo.
A esta viriam juntar-se outras obras, como Teatro do Mundo (1958), Máquina de Fogo (1961), Poema para Galileu (1964), Linhas de Força (1967) e ainda Poemas Póstumos (1983) e Novos Poemas Póstumos (1990).
Na sua poesia, reunida também em Poesias Completas (1964), as fontes de inspiração são heterogéneas e equilibradas de modo original pelo homem que, com um rigor científico, nos comunica o sofrimento alheio, ou a constatação da solidão humana, muitas vezes com surpreendente ironia.
Alguns dos seus textos poéticos foram aproveitados para músicas de intervenção política.
Em 1963 publicou a peça de teatro RTX 78/24 (1963) e dez anos depois a sua primeira obra de ficção, A Poltrona e Outras Novelas (1973).
Na data do seu nonagésimo aniversário, António Gedeão foi alvo de uma homenagem nacional, tendo sido condecorado com a Grã-Cruz da Ordem de Sant'iago de Espada.