sábado, 4 de agosto de 2007

(Manuel Alegre) - Ser ou Não Ser

Qualquer coisa está podre no Reino da Dinamarca.
Se os novos partem e ficam só os velhos
e se do sangue as mãos trazem a marcas
e os fantasmas regressam e há homens de joelhos
qualquer coisa está podre no Reino da Dinamarca.

Apodreceu o sol dentro de nós
apodreceu o vento em nossos braços.
Porque há sombras na sombra dos teus passos
há silêncios de morte em cada voz.

Ofélia-Pátria jaz branca de amor.
Entre salgueiros passa flutuando.
E anda Hamlet em nós por ela perguntando
entre ser e não ser firmeza indecisão.

Até quando? Até quando?
Já de esperar se desespera.
E o tempo foge
e mais do que a esperança leva o puro ardor.

Porque um só tempo é o nosso.
E o tempo é hoje.
Ah se não ser é submissão
ser é revolta.

Se a Dinamarca é para nós uma prisão
e Elsenor se tornou a capital da dor
ser é roubar à dor as próprias armas
e com elas vencer estes fantasmas
que andam à solta em Elsenor.
(Manuel Alegre)

(Manuel Alegre) - Abaixo el-rei Sebastião

É preciso enterrar el-rei Sebastião
é preciso dizer a toda a gente
que o Desejado já não pode vir.
É preciso quebrar na ideia e na canção
a guitarra fantástica e doente
que alguém trouxe de Alcácer Quibir.

Eu digo que está morto.
Deixai em paz el-rei Sebastião
deixai-o no desastre e na loucura.
Sem precisarmos de sair o porto
temos aqui à mão a terra da aventura.

Vós que trazeis por dentro de cada gesto
uma cansada humilhação
deixai falar na vossa voz a voz do vento
cantai em tom de grito e de protesto
matai dentro de vós el-rei Sebastião.

Quem vai tocar a rebate os sinos de Portugal?
Poeta: é tempo de um punhal
por dentro da canção.
Que é preciso bater em quem nos bate
é preciso enterrar el-rei Sebastião.

(Manuel Alegre)

(Papéis do Império Espanhol) - Pizarro e a Conquista do Peru (2.ª Parte)















O Inca (Atahualpa)
e Pizarro impondo a sua lei
perante Deus e os homens.





(Extracto da obra de William H. Prescott - Tradução e adaptação do Cavaleiro da Torre) (Veja a 1.ª parte em 29 de Julho)

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"Do número de mortos fala-se, como é costume, com grande discrição. O secretário de Pizarro diz que morreram dois mil índios. Um descendente dos Incas calcula o número de mortos em dez mil. A verdade deve achar-se, provavelmente, entre estes extremos. A matança foi incessante, pois nenhum obstáculo se lhe opôs. Sem embargo, ainda que o morticínio atingisse tais proporções foi também de curta duração, pois desenrolou-se no tempo que medeia entre o princípio e o fim do crepúsculo, que nos trópicos não excede meia hora. Período curto, de facto, mas suficiente para que nele se decidisse a sorte do Peru e caísse a dinastia dos Incas.

Naquela noite, Pizarro cumpriu a promessa que havia feito ao Inca de cear com ele. O banquete foi servido numa das quadras que confinavam com a grande praça, teatro da acção de horas antes, e que continuava pejada de cadáveres de vassalos do Inca. Sentaram o monarca cativo diante do seu vencedor. Ele parecia não compreender a extensão da sua desgraça; ou, se a compreendeu, manifestou um ânimo surpreendente. "Estas são as vicissitudes da guerra", disse. Se dermos crédito aos relatos dos espanhóis, ele manifestou a sua admiração pela forma como eles tinham conseguido aprisioná-lo no meio da sua gente. Acrescentou que tinha tido notícia dos movimentos dos brancos desde o instante em que desembarcaram, mas que, pela insignificância das tropas estrangeiras, menosprezara a sua força, convicto de que com o seu exército, muito superior em número, teria podido esmagá-las, em caso de necessidade, vencendo-as à sua chegada a Caxamalca. Explicou que quisera verificar por si próprio que espécie de homens eram aqueles - e por isso os havia deixado cruzar as montanhas - e que pensara escolher os melhores para o seu serviço, apoderando-se das suas armas maravilhosas e dos cavalos, dando morte aos restantes.
É possível que tal fosse o propósito de Atahualpa. Assim se explicaria que ele não tivesse ocupado as passagens nas montanhas, que lhe teriam proporcionado excelentes pontos de defesa. Mas já não é crível que um príncipe tão astuto como ele parece ter sido - segundo o testemunho generalizado dos conquistadores - revelasse desta maneira tão franca as suas intenções ocultas. As conversas com o Inca foram mantidas através do intérprete Felipillo, assim chamado porque havia optado por nome cristão, um jovem que segundo as evidências não tinha boa vontade para com Atahualpa e cujas traduções eram facilmente acolhidas pelos conquistadores, desejosos de arranjar pretextos para as suas sangrentas represálias.

Atahualpa contava naquela altura trinta anos de idade. Era bem constituído e mais robusto do que a maioria dos seus súbditos. A sua fronte era ampla e o seu rosto poderia ter-se considerado formoso se os olhos sanguinolentos não emprestassem às suas feições, no dizer dos espanhóis, uma expressão feroz. Era desembaraçado nas conversas, grave em suas maneiras, duro até à severidade com os vassalos, embora se mostrasse afável com os espanhóis.
Pizarro tratou com muita consideração o seu régio cativo e procurou aligeirar, já que a não podia apagar, a tristeza que a despeito da sua aparente resignação se pressentia no monarca. Aconselhou-o a que não se deixasse abater pelos reveses, porque sorte idêntica à sua haviam sofrido todos os príncipes que tinham oposto resistência aos brancos. Comunicou-lhe que estes tinham chegado àquele país para proclamarem o Evangelho, a religião de Jesus Cristo, e que não era de estranhar a sua vitória, pois que eram protegidos pelo escudo de Deus. Disse-lhe, ainda, que os céus tinham permitido a sua humilhação por ele se ter mostrado hostil para com os recém-chegados e pelo ultraje que havia praticado para com o Livro Sagrado. Mas Pizarro suplicou ao vencido que tivesse ânimo e que confiasse nele, pois os espanhóis eram uma raça generosa e que somente faziam guerra aos que se lhes opunham, mostrando-se clementes para os que se lhes submetiam.

Na manhã seguinte, o primeiro cuidado do chefe espanhol foi mandar limpar a cidade, utilizando-se dos prisioneiros para dar sepultura condigna às vítimas do massacre. Antes do meio-dia chegou uma multidão de índios, homens e mulheres, e, entre estas, muitas das esposas e criadas do Inca. Os espanhóis continuavam a não deparar com resistência, porque os guerreiros peruanos, ainda que superiores em número, haviam perdido o ânimo no momento em que tomaram conhecimento da captura do seu senhor. Também não tinham quem os guiasse, pois não reconheciam outra autoridade que não fosse a do Filho do Sol; e pareciam paralisados por uma espécie de estranho feitiço nas proximidades da sua prisão, mirando com temor supersticioso aqueles brancos que tinham tido a audácia de levar a cabo tão grande façanha.
O número de prisioneiros índios era tão grande que alguns dos conquistadores foram de opinião que se deveria matá-los a todos, ou, pelo menos, cortar-lhes as mãos, para que não se entregassem a actos de violência e para infundir terror a toda a nação. Esta proposta veio sem dúvida da soldadesca mais baixa e feroz, mas o simples facto de ter sido possível evidencia a classe de gente que compunha a força de Pizarro. Este rechaçou a ideia, tão impolítica como cruel, e devolveu os índios aos seus lugares de origem, assegurando-lhes que a nenhum se faria dano enquanto não oferecessem resistência aos brancos. Os conquistadores ficaram no entanto com bastantes deles ao seu serviço e abasteceram-se com tal abundância que o menos importante dos soldados possuía tantos criados como um nobre rico e gastador.

Atahualpa, o Inca, não tardou a descortinar um apetite oculto sob as manifestações de zelo religioso dos seus vencedores. Consistia este numa insaciável sede de ouro, da qual pensou aproveitar-se para conseguir a liberdade. Com esta esperança, e apelando à cobiça dos captores, disse um dia a Pizarro que, se o libertasse da prisão, ele, Inca, comprometia-se a cobrir de ouro o chão do aposento em que se encontravam. Os que se achavam presentes escutaram-no com sorrisos incrédulos. Mas Atahualpa, vendo-se sem resposta, acrescentou enfaticamente que não somente cobriria o chão como encheria o quarto até que o ouro chegasse à sua altura. E, pondo-se em bicos de pés, fez com a mão um sinal na parede, o mais alto que pôde.
Assombraram-se os circunstantes, considerando estas promessas como a louca jactância de um homem que, para recuperar a liberdade, não media o sentido das palavras. Mas Pizarro ficou pensativo, pois tudo o que vira e ouvira à medida que se internava no país confirmava as maravilhosas notícias acerca das riquezas do Peru. Acedeu portanto à oferta de Atahualpa e, traçando uma linha vermelha na parede, à altura que o Inca havia indicado, mandou que um escrivão anotasse os termos do acordo. O aposento era de uns dezassete por vinte e dois pés, e a linha traçada na parede marcava uma altura de nove pés. Também se combinou que se enchesse duas vezes de prata o quarto imediato, de dimensões mais reduzidas, pedindo o Inca dois meses para cumprir o contrato. A seguir despachou correios até Cuzco e até às principais cidades do reino com ordens para se trazerem sem perda de tempo a Caxamalca todos os ornamentos e utensílios de ouro das residências reais, dos templos e dos demais edifícios públicos.

Atahualpa continuou entretanto a viver com os espanhóis, tratado com o respeito devido à sua categoria e gozando do espaço de liberdade compatível com a segurança da sua pessoa. Ainda que lhe fosse vedado sair à rua, podia passear-se pelos aposentos da sua habitação, sob a vigilância zelosa de uma guarda que conhecia demasiado bem o valor do cativo para permitir-se qualquer negligência. Concedeu-se também ao Inca a companhia das suas mulheres favoritas, e Pizarro teve o cuidado de ordenar que não fosse perturbado o segredo das intimidades domésticas. Os seus vassalos tinham livre acesso ao soberano, que todos os dias recebia visitas de índios nobres que lhe ofereciam presentes e lhe manifestavam o desgosto que lhes causava a sua desgraça. Nessas ocasiões, até os vassalos de maior condição não chegavam à sua presença sem primeiro descalçarem as sandálias. Os espanhóis testemunhavam com curiosidade estes actos de homenagem, ou, até, de humilhação servil, acolhidos pelo Inca com um ar de completa indiferença, como se se tratasse de actos corriqueiros. E ficavam impressionados com o carácter de um príncipe que, mesmo naquelas condições, era capaz de inspirar tais sentimentos de respeito aos súbditos.
Pizarro não desprezou a oportunidade que se lhe oferecia para comunicar as verdades da revelação ao prisioneiro, e tanto ele como o seu capelão Valverde trabalharam nesta boa obra. Atahualpa escutava-os com serenidade e aparente atenção. Nada pareceu comovê-lo mais do que o argumento com que o chefe militar terminou o seu discurso, a saber, que não podia ser verdadeiro o deus que o Inca adorava, pois tinha consentido que ele caísse nas mãos dos seus inimigos. O infeliz monarca reconheceu a força do argumento, dizendo que, de facto, a sua divindade o tinha abandonado no momento em que mais necessitava do seu amparo.
Várias semanas haviam decorrido desde que Atahualpa despachara os seus emissários em busca do ouro e da prata prometidos aos espanhóis pelo seu resgate. Porém, as distâncias eram grandes e os mensageiros regressavam lentamente, trazendo na maior parte peças maciças de prata, algumas de duas ou três arrobas de peso. Apesar disso, em poucos dias chegou um valor equivalente a trinta ou quarenta mil pesos de ouro e a cinquenta ou sessenta mil pesos de prata. Brilhavam de cobiça os olhos dos conquistadores ao contemplarem os reluzentes montões do tesouro que os índios traziam às costas, e que depois de cuidadosamente pesado e anotado era colocado em depósito sob forte custódia.
Então começaram a acreditar que se cumpririam as magníficas promessas do Inca. Mas, à medida que a sua cobiça se aguçava ao verem diante de si aquela fortuna que mal poderiam ter imaginado, aumentavam as suas exigências impacientes, não fazendo caso das distâncias e das dificuldades dos caminhos, e censurando vivamente a demora com que se executavam as ordens reais. Chegaram a suspeitar de que Atahualpa tivesse inventado o pretexto do seu resgate apenas com o propósito de estabelecer contacto com os vassalos mais distantes e que a demora fosse calculada com o objectivo de assegurar a execução de planos secretos. Circulavam rumores de sublevação entre os peruanos e manifestavam-se entre os espanhóis receios de um ataque repentino e generalizado aos seus acampamentos. As suas recentes riquezas faziam-nos redobrar de cautelas. Eles tremiam como o avarento no meio dos seus tesouros.
Pizarro pôs Atahualpa ao corrente destes rumores. O Inca reagiu com indignação, assegurando que nenhum dos súbditos se atreveria a desobedecer-lhe. Pizarro continuou a dispensar-lhe as maiores atenções. Ensinaram-lhe o jogo dos dados e, mais difícil, o do xadrez, no qual o prisioneiro chegou a tornar-se hábil, entretendo com ele o tédio do cativeiro. Quanto aos vassalos, mantinha-se dentro do possível a cerimónia que lhe era devida. Era servido pelas esposas e pelas mulheres do seu harém. Na antecâmara estacionavam alguns nobres índios, que nunca chegavam à sua presença sem serem chamados. O serviço da sua mesa era de ouro e prata, e o seu traje, que mudava amiúde, era de lã de vicunha, tão fina que parecia seda. Na cabeça usava o Llautau, espécie de turbante de tecido muito delicado, dobrado em pregas de diversas cores brilhantes. A imagem da soberania continuava a ser importante para ele, ainda que já não tivesse correspondência na realidade. Ninguém podia usar vestuário ou utensílio que tivesse pertencido a um soberano do Peru. Quando este os rejeitava, eram cuidadosamente depositados numa caixa apropriada e depois incinerados com ela. Constituiria um sacrilégio permitir uma utilização vulgar àquilo que o contacto com o Inca havia tornado sagrado.
Em meados de Fevereiro de 1533 ocorreu algo que mudou a situação dos espanhóis e teve uma influência desfavorável na sorte do Inca. Tratou-se da chegada a Caxamalca de reforços comandados por Almagro. Os soldados de Pizarro saíram a receber os companheiros e os dois capitães abraçaram-se entre demonstrações de cordialidade. Resolveram esquecer as desavenças passadas e declararam-se dispostos a auxiliar-se mutuamente na brilhante carreira que a conquista daquele império lhes oferecia.
Havia uma pessoa em Caxamalca em quem a aparição dos novos soldados espanhóis produzia uma impressão diferente. Era Atahualpa, o qual não somente viu nos recém-chegados outra nuvem de gafanhotos que ia devorar o seu país, como pressentiu nesta multiplicação dos seus inimigos uma diminuição das probabilidades de recuperar e manter a liberdade. Uma outra circunstância, insignificante em si mesma, mas à qual a superstição dava uma importância formidável, ocorreu também por estes dias. Alguns soldados viram no céu uma espécie de meteoro ou cometa e vieram dizê-lo a Atahualpa. O Inca observou o fenómeno durante alguns minutos e depois, com ar desconsolado, exclamou que se havia avistado o mesmo sinal nos céus pouco antes da morte de seu pai, Huayna Capac.
A partir daquele dia apoderou-se dele uma profunda tristeza, com o pressentimento de uma próxima desgraça. (Continua)
(William H. Prescott - History of the Conquest of Peru, with a Preliminar View of the Civilization of the Incas - New York - 1843)

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

(Sophia de Mello Breyner Andresen) - As Pessoas Sensíveis

As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas
O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não:"Com o suor dos outros ganharás o pão".
Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito
Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

(Olegário Mariano) - Foi um dia de kremesse...

Foi um dia de kremesse.
Depois de rezá três prece
Pra que os santo me ajudasse,
Deus quis que nós se encontrasse
Pra que nós dois se queresse,
Pra que nós dois se gostasse.
Inté os sinos dizia
Na matriz da freguezia
Que embora o tempo corresse,
Que embora o tempo passasse,
Que nós sempre se queresse,
Que nós sempre se gostasse.
Um dia, na feira, eu disse
Com a voz cheia de meiguice
Nos teus ouvido, bem doce:
Rosinha si eu te falasse...
Si eu te beijasse na face...
Tu me dás-se um beijo?
- Dou-se.
E toda a vez que nos vemo,
A um só tempo perguntemo
Tu a mim, eu a vancê:
Quando é que nós se casemo,
Nós que tanto se queremo,
Pro que esperamos pro quê?
Vancê não falou comigo
E eu com vancê, pro castigo,
Deixei de falá também,
Mas, no decorrê dos dia,
Vancê mais bem me queria
E eu mais te queria bem.
- Cabôco, vancê não presta,
Vancê tem ruga na testa,
Veneno no coração.
- Rosinha, vancê me xinga,
Morde a surucucutinga,
Mas fica o rasto no chão.

E de uma vez, (bem me lembro!)
Resto de safra... Dezembro...
Os carro afundando o chão.
Veio um home da cidade
E ao curuné Zé Trindade
Foi pedi a sua mão.
Peguei no meu cravinote
Dei quatro ou cinco pinote
Burricido como o quê,
Jurgando, antes não jurgasse,
Que tu de mim não gostasse,
Quando eu só amo a vancê.
Esperei outra kremesse
Que o seu vigário viesse
Pra que nós dois se casasse.
Mas Deus não quis que assim sesse
Pro mais que nós se queresse
Pro mais que nós se gostasse.

(Manuel Bandeira) - Irene no Céu




Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.
Imagino Irene entrando no céu:
- Licença, meu branco!
E São Pedro, bonachão:
- Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.


(Manuel Bandeira) - Carta-Poema a Um Prefeito

Excelentíssimo Prefeito
Senhor Hildebrando de Góis,
Permiti que, rendido o preito
A que fazeis jus por quem sois,
Um poeta já sexagenário,
Que não tem outra aspiração
Senão viver de seu salário
Na sua limpa solidão,
Peça vistoria e visita
A este pátio para onde dá
O apartamento que ele habita
No Castelo há dois anos já.
É um pátio, mas é via pública,
E estando ainda por calçar,
Faz a vergonha da República
Junto à Avenida Beira-Mar!
Indiferentes ao capricho
Das posturas municipais,
A ele jogam todo o seu lixo
Os moradores sem quintais.
Que imundície!
Tripas de peixe,
Cascas de fruta e ovo,
papéis...
Não é natural que me queixe?
Meu Prefeito, vinde e vereis!
Quando chove, o chão vira lama:
São atoleiros, lodaçais,
Que disputam a palma à fama
Das velhas maremas letais!
A um distinto amigo europeu
Disse eu: - Não é no Paraguai
Que fica o Grande Chaco,
este é o Grande Chaco!
Senão, olhai!
Excelentíssimo Prefeito
Hildebrando Araújo de Góis
A quem humilde rendo preito,
Por serdes vós, senhor, quem sois!
Mandai calçar a via pública
Que, sendo um vasto lagamar,
Faz a vergonha da República
Junto à Avenida Beira-Mar!

Manuel Bandeira (Recife, 19 de Abril de 1886 - Rio de Janeiro, 13 de Outubro de 1968) foi um poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura e tradutor brasileiro.
Considera-se que Bandeira faça parte da geração de 22 da literatura moderna brasileira.
Juntamente com escritores como João Cabral de Melo Neto, Paulo Freire, Gilberto Freyre e José Condé, representa o que há de melhor na produção literária do estado de Pernambuco. (Wikipédia).

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

(Imagens do Verão Português) - Pistas Campestres


Avelar, Aguda, Almofala, Maçãs de D. Maria, caminhos de sol e de sombra, ao romper de Agosto, com um fiozinho de água teimosa a escapulir-se sinuoso por entre os segredos da floresta amiga.
Mais perto, mais perto...