domingo, 29 de julho de 2007

(Papéis do Império Espanhol) - Pizarro e a Conquista do Peru (1.ª parte)



















Retratos de Pizarro e Atahualpa, o Inca.

A conquista do Império Inca (Peru) pelos espanhóis de Francisco Pizarro, em meados do século XVI, representa um dos mais impressionantes episódios do longo processo de colonização lançado à escala mundial pelos povos ibéricos. É um quadro dramático e sangrento, onde convergem a ingenuidade, a cobiça, a brutalidade e, talvez como síntese de tudo, o desconhecimento ou o desprezo essenciais acerca dos valores do outro - que tão grandes tragédias produziram nestes históricos encontros de povos distintos.

Em 1843, William Hickling Prescott (nascido a 4 de Março de 1796, em Salem, Massachusetts) escreveu e publicou em Nova Iorque uma espantosa "Conquista do Peru", que o tempo entretanto transformou, com justiça, num clássico respeitado. É dessa obra memorável, religiosamente preservada na Torre, que hoje se extrai o relato da parte culminante desse infeliz encontro. (Tradução e adaptação do Cavaleiro da Torre)

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"Dissiparam-se as sombras da noite e o sol brilhou na manhã do dia imediato, o mais memorável nos anais do Peru. Era sábado, 16 de Novembro de 1532. O som agudo das trombetas chamou os espanhóis às armas ao romper da alva, e Pizarro, dando-lhes conta em breves palavras do seu plano de ataque, tomou as disposições necessárias.
A praça era defendida em três lados por filas de pequenos edifícios, compostos por espaçosos salões providos de portas largas. Nelas colocou a cavalaria repartida em duas divisões, uma às ordens de seu irmão Hernando e outra sob o comando de Soto. Pôs a infantaria noutro edifício, reservando-se a ele próprio vinte homens seleccionados para acudir com eles onde se tornasse necessário. Pedro de Candia, acompanhado de alguns homens, ficou com a artilharia.

A todos se ordenou que permanecessem em seus postos até à chegada do Inca (Atahualpa). Quando este entrasse na praça deviam manter-se escondidos e atentos até que soasse o sinal, que seria um tiro de arcabuz; então deveriam sair dos edifícios com grandes gritos de guerra, caindo de espada em punho sobre os peruanos e apoderando-se da pessoa do Inca. Depois cuidou o chefe espanhol de que as armas das suas tropas permanecessem em bom estado e de que as rédeas dos cavalos levassem campainhas para que aumentasse com o seu ruído a perturbação dos índios. Distribuíram-se também pelas tropas abundantes provisões de boca para que nada faltasse ao bom êxito da empresa.
Adoptadas estas disposições, os eclesiáticos que seguiam na expedição celebraram uma missa com grande solenidade, rogando ao Deus das batalhas que estendesse o seu escudo protector sobre os soldados que iam pelejar para alargar os limites do império da Cruz; e todos com grande entusiasmo cantaram o Exurge Domine ("Levanta-te, Senhor, e julga a Tua própria causa").
Parecia uma reunião de mártires dispostos a dar as vidas em defesa da fé, e não um licencioso bando de aventureiros preparando um dos mais atrozes actos de perfídia recordados pela História.
Sem embargo, fossem quais fossem os defeitos dos cavaleiros castelhanos, eles não possuíam o da hipocrisia. Estavam perfeitamente convencidos de que pelejavam pela cruz, e esta convicção, ainda mais exaltada naquele momento, não lhes deixava espaço para pensarem noutros motivos eventualmente menos nobres. Os soldados de Pizarro, deste modo inflamados de ardor religioso, esperavam impacientes a chegada do Inca; e o seu chefe viu com satisfação que eles não faltariam, na hora crítica, com aquilo que deviam ao seu capitão e a si mesmos.
Já ia adiantado o dia quando se observaram movimentos no campo peruano, onde se realizavam grandes preparativos para se acercarem dos cristãos com toda a ostentação e cerimónia. Recebeu-se uma mensagem de Atahualpa, o Inca, informando o chefe espanhol de que iria visitá-lo armado, com os seus guerreiros, tal como os espanhóis tinham ido ao seu acampamento na noite anterior. A notícia não era muito agradável para Pizarro, ainda que não tivesse motivos para esperar o contrário. Mas opor-se ao propósito de Atahualpa faria com que este desconfiasse dos seus desígnios. Manifestou-lhe portanto a sua satisfação, assegurando ao Inca que, viesse ele como viesse, ele, Pizarro, recebê-lo-ia como amigo e irmão.
Já era meio-dia quando a comitiva dos índios se pôs em marcha, ocupando larga extensão da calçada. À frente vinha uma multidão de servos, cuja incumbência parecia consistir em limpar o caminho de qualquer vestígio de sujidade. Acima da tropa sobressaía o Inca, levado de liteira aos ombros dos seus principais nobres, enquanto outros da mesma categoria marchavam de ambos os lados, ostentando ornamentos tão brilhantes em suas pessoas que, segundo o dito de um dos conquistadores, reluziam como o sol. Mas a maior parte das tropas do Inca estavam formadas pelos campos, de um e de outro lado do caminho, ou espalhadas pelos prados extensos até perder de vista.

A real comitiva fez alto quando chegou a cerca de meia milha da cidade, e Pizarro viu com surpresa que Atahualpa se aprestava para mandar erguer as suas tendas, como se quisesse montar ali o seu acampamento. Logo chegou um mensageiro para anunciar aos espanhóis que o Inca permaneceria durante aquela noite no sítio onde se havia detido, e que na manhã seguinte faria a sua entrada na cidade.
Esta notícia desagradou muito a Pizarro, que compartilhava da impaciência generalizada da sua gente ao ver a lentidão com que se movimentavam os peruanos. As tropas mantinham-se em armas desde o amanhecer, as de cavalaria montadas em seus cavalos, as de infantaria nos seus postos, aguardando em silêncio a chegada do Inca. Reinava uma profunda calma em toda a cidade, somente interrompida, de quando em quando, pelo grito da sentinela que do ponto mais elevado anunciava os movimentos do exército índio. Pizarro tinha consciência de que não há nada mais perigoso para a disposição combativa e a constância de ânimo do soldado do que a inacção prolongada numa situação crítica como aquela; e temia que se evaporasse o ardor das suas tropas, sucedendo-lhe aquela sensação nervosa, natural até nos espíritos dos mais destemidos em tais instantes de crise, e que se não é temor anda lá por perto. Respondeu então rogando a Atahualpa que mudasse de propósito, acrescentando que tinha tudo preparado para o receber e obsequiar e que o esperava para cear naquela mesma noite.

Esta mensagem fez com que o Inca mudasse de intenções. Desarmando as tendas mandou retomar a marcha, avisando primeiro a Pizarro de que iria deixar naquele ponto a maior parte dos seus guerreiros e de que entraria na praça apenas acompanhado de alguns deles, pois preferia passar a noite em Caxamalca. Ao mesmo tempo ordenou que se preparasse alojamento para ele e para a sua comitiva num dos grandes edifícios de pedra da cidade, o qual, por ter a figura de uma serpente esculpida na parede, era conhecido como A Casa da Serpente. Nenhuma notícia poderia ter sido mais agradável para os espanhóis do que esta. Parecia que o monarca índio ansiava por precipitar-se em direcção ao laço que se lhe tinha preparado. O fanático comandante não pôde deixar de ver nisto o dedo da Providência. (...) Atahualpa, por seu turno, procedia cheio de confiança e de boa-fé. Ele era detentor de um poder tão absoluto no seu império que jamais poderia suspeitar de um ataque à sua pessoa. Talvez não pudesse imaginar que um pequeno grupo de homens, reunidos em Caxamalca, tivesse a audácia de pensar em apoderar-se de um poderoso monarca no meio do seu próprio exército. Ele não conhecia o carácter espanhol.

Pouco faltava para o pôr-do-sol quando a vanguarda da comitiva real transpôs as portas da cidade. À frente vinham as centenas de servos incumbidos da limpeza do percurso e de entoar cânticos de triunfo que aos ouvidos dos conquistadores, segundo um deles, soavam como canções do inferno. Depois marchavam outras companhias de índios de diferentes classes, cobertos de indumentárias variadas. Alguns cobriam-se de vistosos tecidos brancos, coloridos como as casas de xadrez. Outros seguiam todos de branco, empunhando martelos e maças de prata e cobre. Sobressaindo entre os seus vassalos via-se o Inca Atahualpa, no cimo de umas andas em que havia uma espécie de trono de ouro maciço, de inestimável valor. O palanquim, guarnecido de chapas de ouro e prata, apresentava-se coberto das brilhantes plumas dos pássaros tropicais. Os adornos do monarca eram muito mais ricos do que os da noite precedente. Pendia do seu pescoço um colar de esmeraldas de brilho e tamanho extraordinários. O aspecto do Inca era grave e majestoso; e do alto mirava a multidão com o ar tranquilo de um homem acostumado a mandar.
Ao entrarem as primeiras filas da procissão na vasta praça (que, segundo um antigo cronista, era muito maior do que qualquer outra em Espanha), a multidão apartou-se à direita e à esquerda de maneira a deixar caminho livre à comitiva real. Tudo se fez com ordem admirável. Permitiu-se ao monarca atravessar a praça em silêncio e nem um único espanhol se deixou avistar. Logo que entraram cinco ou seis mil homens, Atahualpa mandou fazer alto e, lançando em todas as direcções uns olhares cheios de curiosidade, perguntou: Onde estão os estrangeiros?
Naquele momento, frei Vicente de Valverde, religioso dominicano, capelão de Pizarro, e mais tarde bispo de Cuzco, apareceu com o seu Breviário, ou, segundo dizem outros, com a Bíblia numa mão e um crucifixo na outra. Aproximando-se do Inca disse-lhe que vinha por ordem do seu chefe explicar-lhe as doutrinas da verdadeira fé, objectivo com o qual os espanhóis tinham chegado ao país a partir de tão longe.
Depois passou a explicar-lhe o mais claramente que pôde o mistério da Santíssima Trindade e, referindo-se em seguida à criação do Homem, falou da sua queda, da sua redenção por Jesus Cristo, da crucificação e da ascensão do Salvador aos céus, depois de haver deixado o apóstolo Pedro por seu vigário na terra. Contou-lhe como os poderes concedidos por Jesus Cristo ao seu vigário haviam sido transmitidos aos sucessores daquele apóstolo, homens sábios e virtuosos que, sob o título de "papas", exerciam autoridade sobre todos os tronos e potentados da terra.
Manifestou-lhe que um dos últimos papas havia incumbido o imperador espanhol, o monarca mais poderoso do mundo, de conquistar e converter os naturais daquele hemisfério ocidental; e que o seu general, Francisco Pizarro, havia chegado para cumprir tão importante missão. Terminou pedindo-lhe que desistisse dos erros da sua fé e abraçasse a dos cristãos, a única que lhe podia salvar a alma. E que se reconhecesse tributário do imperador Carlos V, o qual em todo o caso o auxiliaria e protegeria como a um leal vassalo.

Pode duvidar-se de que Atahualpa, o Inca, tivesse entendido algum dos curiosos argumentos com que o religioso pretendeu estabelecer uma relação entre Pizarro e São Pedro. Mas é indiscutível que compreendeu perfeitamente que a finalidade do discurso consistia em persuadi-lo de que devia renunciar ao seu poder e reconhecer a supremacia de outro. Cintilaram os olhos do monarca índio ao ripostar: Não quero ser tributário de nenhum homem, eu sou mais importante do que qualquer príncipe da terra. O vosso imperador pode ser um grande príncipe, não duvido disso, pois verifico que conseguiu enviar os seus vassalos de tão longe, através dos mares, e por isso mesmo desejo tratá-lo como irmão. Quanto ao papa de que me falas, ele não deve estar bom para tratar de dar reinos que não lhe pertencem. Quanto à minha religião, não pretendo desistir dela. O vosso Deus, segundo dizes, foi condenado à morte pelos mesmos homens que tinha criado. Mas o meu (acrescentou, apontando a sua divindade que então se escondia por trás dos montes) o meu vive ainda nos céus e é dali que vela pelos seus filhos. Depois perguntou a Valverde com que autoridade lhe dizia aquelas coisas, ao que o frade respondeu exibindo-lhe o livro que tinha na mão. Atahualpa pegou no livro, percorreu algumas páginas e, sem dúvida irritado pelo insulto que havia recebido, atirou-o ao chão, para longe de si, exclamando: Diz aos teus companheiros que me darão conta das suas acções nos meus domínios, e que não me irei embora sem ter obtido plena satisfação dos agravos que me fizeram. O frade, altamente escandalizado pelo ultraje feito ao Livro Sagrado, apanhou-o do chão e correu a informar Pizarro do que o Inca tinha feito, exclamando ao mesmo tempo: Não vedes que enquanto estamos aqui perdendo tempo a falar com esse cão cheio de soberba, os campos vão-se enchendo de índios. Ide-vos a ele, que eu vos absolvo.

Pizarro compreendeu que havia chegado a hora. Agitou uma bandeira branca no ar, que era o sinal combinado. Logo soou o tiro fatal e, então, saindo o capitão e os seus oficiais para a praça, lançaram o antigo grito de guerra: Santiago! A eles!, o qual foi respondido pelo grito de combate de todos os espanhóis que se achavam na cidade, os quais saíram impetuosamente dos grandes salões em que se achavam escondidos e invadiram a praça com a cavalaria e a infantaria em coluna cerrada, arrojando-se contra a multidão de índios. Estes, colhidos de surpresa, atordoados pelo estrondo da artilharia e dos arcabuzes, cegos pelo fumo que em colunas sulfurosas se espalhava pela praça, encheram-se de terror e não sabiam por onde fugir para evitar o fim que adivinhavam próximo. Nobres e plebeus caíram sob as patas dos cavalos, cujos donos distribuíam golpes à direita e à esquerda sem poupar ninguém. As suas espadas, rebrilhantes através da densa nuvem de fumo, lançavam o desalento nos corações dos desditosos índios, que testemunhavam pela primeira vez as terríveis manobras da cavalaria. Foi assim que não opuseram resistência, nem tão pouco possuíam armas para o fazer. Não tinham possibilidade de escapar, porque a entrada da praça se achava obstruída pelos corpos dos que tinham perecido durante a vã tentativa de fuga. E tal era a agonia dos vivos ante o terrível ataque, que uma multidão de índios, em seus esforços convulsivos, rompeu através de um muro de pedras e barro seco no qual abriram uma brecha de mais de cem passos, pela qual se escaparam para o campo, perseguidos todavia pela cavalaria que, galgando por sobre os escombros do muro derrubado, caiu sobre os fugitivos - matando os que pôde e dispersando os outros em todas as direcções.

O monarca índio, aturdido e cercado, viu cair em seu redor os seus mais fiéis vassalos sem compreender o que se estava a passar. A liteira em que se fazia transportar andava de um lado para o outro consoante os agressores acometiam por aqui ou por ali. E ele contemplava aquele espectáculo de desolação como um marinheiro solitário que, acossado na sua barca pelos elementos furiosos, vê brilhar os relâmpagos e soar os trovões com a convicção de que nada pode fazer para evitar a sua sorte. Os espanhóis, por fim, cansados da sua obra de destruição e vendo que aumentavam as sombras da noite, temeram que a sua régia presa se lhes escapasse depois de tão grandes esforços; e alguns cavaleiros tentaram desesperadamente concluir de vez a tarefa, tirando a vida a Atahualpa. Mas Pizarro, que estava por perto, gritou bem alto: Que se guarde de tocar no Inca quem tenha estima pela própria vida! E, estendendo o braço para protegê-lo, foi ferido na mão por um dos seus soldados, ferida essa que foi a única sofrida pelos espanhóis durante o ataque. Então a peleja redobrou de fúria em torno da régia liteira, a qual se sacudia cada vez mais até que, mortos muitos dos nobres que a sustinham, o Inca correu o risco de tombar brutalmente no solo. Pizarro e alguns dos seus acudiram a ampará-lo nos braços, evitando a queda. As insígnias imperiais foram imediatamente arrancadas a Atahualpa e o desgraçado monarca foi transferido para um edifício próximo onde ficou apertadamente vigiado.

Cessou então toda a tentativa de resistência. A notícia da captura do Inca espalhou-se pela cidade e pelos campos, dissolvendo-se o encanto que poderia manter unidos os peruanos. Cada um pensou somente na própria salvação. Soou também o alarme entre os soldados índios acampados nas imediações, os quais, ao saber da fatal notícia, deitaram a fugir por todos os lados, perseguidos pelos espanhóis que, no arrebatamento do triunfo, se mostraram sem misericórdia. Por fim a noite, mais piedosa do que os homens, estendeu um manto protector sobre os fugitivos, e as tropas dispersas de Pizarro reuniram-se outra vez, ao toque das trombetas, na praça sangrenta de Caxamalca."

[Continua em: 4-Agosto-2007 (2.ª parte); 8-Set-2007 (3.ª parte); 3-Nov-2007 (4.ª e última parte)]

(William H. Prescott - History of the Conquest of Peru, with a Preliminar View of the Civilization of the Incas - New York - 1843)

(Ecos do Século XIX) - Carregue-lhe, Senhor Ministro da Fazenda!


Alberto Pimentel viveu entre 1849 e 1925.
Dedicou-se ao romance, ao teatro, à história, ao ensaio, à poesia, à intervenção política.
Esgrimia com pena afiadíssima e certeira.
O País, claro, era outro, os homens eram outros, as aflições, as injustiças e as desigualdades eram outras.
Eram?
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"Mas isto é um país delicioso, que não precisa de governo para coisa nenhuma! Isto é um país que a si mesmo se governa com tanta alegria como juízo! E quando os povos são alegres, são felizes. Viva Deus! Mas que importa o déficit de 6.000 contos! Até lhe podemos dar licença de ser de 7.000 como a expedição dos bravos do Mindelo ou de 10.000 como os soldados de Artaxerxes.

Oh! que delicioso país!, oh! que grande pena que eu teria se, em vez de haver nascido em Portugal, fosse francês, e tivesse agora a entristecer-me o espírito a medonha trapalhada do istmo do Panamá! Mas que vi eu que pudesse justificar este veemente solilóquio?

Ah! sabem o que eu vi? Duzentas, trezentas carruagens, brilhantes de vernizes e de brasões, tiradas por cavalos magníficos, governadas por cocheiros encadernados em boas librés, subir a Avenida, descer a Avenida, tornar a subir, tornar a descer, passar, voltar, a trote moderado, para que a gente pudesse ver à vontade as caras felizes, resplendorosas das pessoas que essas centenas de carruagens conduziam.

Ah! ele é isto!, disse eu com os meus botões. Então não é realmente preciso que todos façam o sacrifício de apertar os cordões à bolsa para salvar o País?! Não há necessidade de que o Estado faça uma emissão de papel-moeda, nem é necessário tributar os filhos varões? Não tem razão o Comércio do Porto para se retrair, nem os Bancos motivo justificado para pedirem mais do que um auxílio moral?! É certo que não temos por cá Panamás, nem outros istmos escandalosos, mas que, pelo contrário, navegamos em mar de rosas, com vento fresco?

Pois bem! Senhor Ministro da Fazenda, carregue-lhe na mola, que isto ainda tem muito que dar; aperte o fiado, que isto ainda pode render muito. E não trate de outra coisa, Senhor Ministro da Fazenda, senão de restaurar a debilidade do Tesouro, porque decretos, portarias e regulamentos não são cá precisos.

Isto é um país que se governa por si mesmo, principalmente ao domingo. Aqui há ainda muita vida, muito miolo, muita matéria colectável.
Carregue-lhe, Senhor Ministro da Fazenda!

O Governo que faça uma experiência. Cerceie mais os juros das inscrições, aumente as décimas, reduza os ordenados dos funcionários a 50 por cento e verá que, logo no domingo seguinte, à mesma hora, à hora aristocrática, quatro da tarde, duzentas carruagens sobem a Avenida, descem a Avenida, passam para cima, passam para baixo, passam e repassam cheias de pessoas ricas, de pessoas felizes, cheias de contribuintes contentes como umas páscoas.

E deixem chegar a Lisboa os deputados sem subsídio. Vê-los-ão de carruagem aos três em cada banco - única economia que tenho visto fazer agora aos que pagam contribuição sumptuária - alegres, bem dispostos, de violetas ao peito, de charuto na boca, passeando na Avenida o seu único diploma ou o seu duplicado de diploma, sem sequer se lembrarem do subsídio que Deus lá tem, vai para dois meses.

Isto é que é!, e o mais são Panamás, misérias da França e dos outros países pobres. As libras não fazem cá falta, as pautas não estragaram nada, as reduções e deduções ainda não fizeram uma vítima.
Aqui há massa, aqui há miolo.
Carregue-lhe, Senhor Ministro da Fazenda, que é o que o país precisa!"
(Alberto Pimentel - Vida de Lisboa - Parceria António Maria Pereira, 1900)

sábado, 28 de julho de 2007

Hereros de Angola - (Os Cuvales)

















"Durante o século XVI, os Hereros, pastores negros que viviam na região dos Grandes Lagos, no Leste de África, voltaram costas aos solos gastos do que havia sido até essa altura a sua pátria. Deram então começo com o seu gado a uma extensa viagem para sudoeste, em busca de pastos e sobrevivência.
Segundo o que se presume ter sido um dos seus itinerários, irromperam pelo que viria a constituir, muitos anos mais tarde, a fronteira oriental de Angola. Rumando a ocidente, atravessaram o coração do Bié, contornaram por norte os domínios das tribos nhanecas-humbes e desceram enfim do planalto em direcção ao mar, um pouco abaixo da actual Benguela.
Achavam-se agora numa faixa de território espartilhada entre as vagas do Atlântico e as cadeias montanhosas da Chela. Era uma imensidão escalvada e pedregosa, crestada de mil sóis, com pouco mais de uma centena de quilómetros de largo nalguns pontos. A vegetação, definhada e triste, animava-se a espaços com manchas de arbustos e arvoredos ralos. Para os lados do mar desdobrava-se um cordão arenoso de enseadas e baías, divididas por arribas de um dourado vivo, confinantes com o deserto do Namibe. Na parcela mais meridional deste mundo inóspito estendiam-se grandes dunas movediças, a que as ventanias salgadas arrancavam turbilhões espessos que encobriam a luz solar (...)
Secos, altivos e ferozmente independentes, os Cuvales chegaram ao território com as suas mulheres de invulgar beleza - os olhos amendoados e cintilantes, o sorriso enigmático, a cabeça coberta pelo gracioso chapéu de pele de carneiro - e procederam sem delongas à conquista das áreas mais fecundas. (...)
Senhores de uma nova pátria, desembaraçados de qualquer oposição séria, os Cuvales, tal como os restantes hereros, disseminaram pelo território a sua lei (...)."

(José Bento Duarte - Senhores do Sol e do Vento - Histórias Verídicas de Portugueses, Angolanos e Outros Africanos - Editorial Estampa - Lisboa, 1999)

Belezas de Angola - (Raparigas Muílas)





































Arte de Angola










































(Ecos do Império Luso) - Deserto, Fim de Tarde...

Deserto do Namibe, sul da África, repartido por Angola e pela Namíbia.
Parte do mundo onde os Portugueses gastaram séculos, orçamentos, vidas, ilusões...

Galiza e Portugal nos Inícios do Terceiro Milénio (ou As Ironias da História)

Do Jornal de Notícias (4 de Junho de 2007):

Galiza deixa o Norte para trás

Os indicadores económicos mais recentes não deixam margem para dúvidas, a Galiza atravessa o período mais próspero da sua história e promete, até, superar todos os índices de crescimento de Espanha. A produtividade dispara, impulsionada pelos sectores da indústria e serviços.

O contraste com a crise que se vive na Região Norte de Portugal é evidente. Dois exemplos: o salário médio galego já vai nos 1240 euros, o dobro da Região Norte, que se fica pelos 635 euros. A taxa de desemprego da Galiza desceu para o nível mais baixo dos últimos 25 anos, enquanto no Norte continua a subir e a bater recordes pela negativa.
"O Norte de Portugal e a Galiza estão a viver dois ciclos completamente diferentes. Enquanto aqui se viveu um ciclo de recessão e de estagnação económica que perpassou pelo país a partir de 2001, a Galiza viveu o ciclo de crescimento de que a Espanha gozou nos últimos três anos", explica o presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N), Carlos Lage, evidenciando que a prosperidade galega de hoje resulta de "boas opções em matéria de política macro-económica e de despesa pública", aplicadas ao território espanhol no seu todo.

O mais recente relatório sobre a conjuntura económica divulgado pela Junta da Galiza confere o cenário de franca expansão económica. "Ao longo de 2006, a economia galega evoluiu muito favoravelmente. A taxa de crescimento do PIB atingiu 4,1%, superando a do conjunto da economia espanhola (3,9%)", relata o documento, onde consta, também, que rompendo tendências anteriores, o sector da indústria é o que apresenta maior dinamismo.
"A produção industrial registou uma sensível recuperação, com uma variação média durante 2006 em relação ao ano anterior de 7,7%, o que, além de dobrar a média espanhola (3,7%), constitui o nível mais alto de sempre", lê-se no relatório. (...)

A Galiza está com uma pujança económica, política, cultural e com uma capacidade de afirmação muito grande. Já não é aquela Galiza que a Rosalia de Castro cantava, um território pobre, de emigrantes, subalterno", explica Lage, vincando que os "progressos extraordinários" dos vizinhos galegos não passam despercebidos. Outro sinal da prosperidade galega é o facto de a taxa de desemprego, sempre elevada e que há muito trazia os galegos com o coração nas mãos, ter caído de 9,9% (2005) para, pela primeira vez no último quarto de século, os 8,5%.

Carlos Lage entende que, associada a outros factores, esta reabsorção do desemprego, que "era massivo", indica que a Galiza "passa pelo seu pequeno milagre económico", num evidente desfasamento face ao Norte de Portugal.
Lage acrescenta que, apesar das vincadas desigualdades, Portugal beneficia dos bons ventos que sopram do outro lado da fronteira.
"O galego tem hoje um maior poder de compra e isso também é bom para o Norte. Vê-se muito galego que frequenta as nossas cidades, restaurantes e equipamentos culturais", sustenta, referindo também que "o mercado galego é fundamental para a exportações do Norte de Portugal e até do país".

Uma das grandes surpresas que porventura deixaram boquiabertos analistas e estudiosos que trabalham em Lisboa foi ter percebido que a Galiza é o quinto mercado para as exportações portuguesas", diz Lage, concluindo que a situação galega proporciona "esperança" que o mesmo aconteça no Norte de Portugal. "O pêndulo vai e vem. É possível que entremos num ciclo económico ascendente e possamos recuperar", nomeadamente se a Região Norte adquirir "mais autonomia política e administrativa". Uma das vias para o "progresso e o êxito".
Automóveis na vanguarda

O sector automóvel garante todos os anos à Galiza receitas de milhões de euros, estimula o emprego e o crescimento do PIB. Uma indústria que não pára de crescer e que tem cada vez mais peso na economia local. Segundo dados oficiais do Governo Regional, o "cluster" da indústria automóvel inclui mais de 70 empresas, que representam uma facturação anual superior a 2600 milhões de euros. No que toca a componentes, a fábrica da Citroën (grupo PSA) de Vigo absorve 36% do total da produção das várias empresas da região, 21% destinam-se a outras unidades de Espanha e os restante 43% seguem para exportação.

Os postos de trabalho que a indústria automóvel emprega na Galiza ronda os 20 mil. Destes, metade respeita ao Centro de Vigo do grupo PSA e o restante às fábricas de componentes. O progresso desta indústria na Galiza há muito que tem reflexos na economia portuguesa, com a implantação de um grande número de fábricas de componentes para automóveis, principalmente na Região Norte.

"Vigo é uma cidade de trabalho" (José Pastor, empresário português na Galiza).

O clima de prosperidade que transpira da Galiza captou, há sete anos, a atenção do fotógrafo português José Pastor, 50 anos, que desde essa altura se divide entre Viana do Castelo e Vigo, onde criou, com a desenhadora de moda galega Rita Vidal, uma empresa de fotografia de moda e de publicidade. Admite que a opção pelo mercado do outro lado da fronteira aconteceu "por intuição", mas hoje em dia Pastor apresenta muitas razões racionais para a justificar.

Um livro com imagens suas, intitulado "Vigo, cidade de trabalho", resume-as de uma penada "Os galegos sabem que é pelo trabalho que ficarão grandes", conta o fotógrafo. "Nunca trabalhei tanto na minha vida. Os ritmos de trabalho são totalmente distintos, os tempos, a qualidade que é pedida, tudo é diferente".

José Pastor critica a "falta de alma" do português e não se cansa de elogiar o espírito aberto, o empreendedorismo e a capacidade de trabalho galegos. Confessa que devido à "concorrência feroz" que caracteriza qualquer mercado na Galiza a sua implantação não foi fácil.
"Os galegos falam grosso e buzinam muito e pensamos que é por nós sermos portugueses, mas não. É assim entre eles. Concorrem entre si, porque o galego está habituado a lutar pelas coisas. As empresas trabalham para estar à frente umas das outras em qualidade, embora de forma leal".
Pastor acrescenta que ainda há "duas Galizas": "Uma que é quase uma extensão do nosso país, que pensa que nós, como eles, não temos nada. Outra, que se afasta de Portugal, mais cosmopolita, urbana, inovadora, criativa, empreendedora… E essa é cada vez mais a Galiza de hoje".

"Hoje sou um médico português" (Carlos Salgado, galego)

Carlos Salgado, médico galego em Portugal.Carlos Salgado, 50 anos, clínico de medicina familiar, natural de Ourense, trocou a sua residência na cidade de Santiago de Compostela por Tui, para poder viver - com a mulher, enfermeira, e os seus três filhos - mais próximo de Ponte de Lima, onde exerce a profissão há sete anos.
Salgado integrou a leva de médicos espanhóis que rumou a Portugal na última década à procura de melhores condições de trabalho. "Naquela altura havia muitas dificuldades de trabalho na Galiza e víamos Portugal como uma oportunidade. Era um mercado que nos criava grande expectativa", conta o médico. A tentativa de encontrar "estabilidade" fê-lo arriscar uma mudança que acabou por se revelar positiva.

"Hoje em dia não sou um médico espanhol, sou um médico português", afirma, frisando "Passo mais tempo em Portugal que na Galiza". De resto, as semelhanças entre a terra que o viu nascer e aquela onde actualmente se sente "perfeitamente integrado" não serão assim tantas. "Sou galego de pura cepa. Se tiver de escolher, escolho a Galiza, mas se há algo parecido com a Galiza neste mundo é Portugal. Ali só não temos tanto sarrabulho", brinca.

Carlos Salgado, coordenador da Urgência do Hospital de Ponte de Lima, faz questão de lembrar que a afluência de profissionais de saúde espanhóis ao Norte de Portugal foi vantajosa para os médicos que, como ele, finalmente encontraram condições de trabalho dignas, mas também para a população portuguesa. "Quando cheguei a Ponte de Lima havia 10 mil utentes sem médico de família. Hoje isso já não acontece, também graças aos médicos espanhóis", refere.
(Ana Peixoto Fernandes in Jornal de Notícias de 4 de Junho de 2007)

(Ecos do Século XIX) - O Galego em Lisboa




I - O Galego em Lisboa (por: Princesa Rattazzi)


A Princesa Rattazzi (1831-1902), como era designada, foi publicista, romancista, poetisa, autora também de textos dramáticos e tradutora, mas não entrou certamente para a galeria dos autores literários de grande, médio ou pequeno relevo. Todavia, em 1879 escreveu um livro ("Portugal de Relance"), que desencadeou uma verdadeira tempestade em Portugal, na qual intervieram, entre muitos outros, Camilo Castelo Branco, Antero de Quental e Ramalho Ortigão. Espelho da sociedade portuguesa do século XIX, nele ainda hoje se reflecte arrebatadamente o país.




"Em todas as esquinas de Lisboa deparam-se-nos moços de fretes e recados e aguadeiros, oriundos da Galiza. Os seus trabalhos aqui correspondem aos dos auvernianos e saboianos em Paris.

São montanheses robustos, pacientes, corajosos, que não se recusam a nenhum trabalho penoso a troco de algumas moedas de cobre, aumentando assim o seu pequeno tesouro, que vão mandando para o torrão natal com o fim de comprarem algumas jeiras de terra.

Gozam da fama de honestos, merecidamente adquirida; muitos têm o encargo de cobrarem somas importantes para os patrões, e é um facto extraordinário queixar-se alguém da probidade do galego.

Laboriosos e honrados, estão, ainda assim, sob a completa dependência dos Portugueses. Basta a sua qualidade de espanhóis para serem asperamente tratados pelas pessoas que os empregam. É um galego!, dizem. Isto é: um ente grosseiro, desprezível, que não merece consideração nem delicadeza de espécie alguma.

Um português compra uma ninharia qualquer, um objecto pequeníssimo: não querendo dar-se ao trabalho de o levar, chama um galego, entrega-lhe o embrulho - que pesa às vezes três gramas -, e é seguido pelo moço até ao seu domicílio.

Assim pratica ele um acto de soberania e de supremacia - e tudo isto a troco de 30 ou 40 réis! Só quem está em muito más circunstâncias é que não goza de tão modesto prazer.

Não há para um português injúria mais grosseira do que compará-lo a um galego!"
(Maria Rattazzi - Portugal de Relance - 1879)

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II - O Galego em Lisboa (por: Alfredo Saramago)

"(...) Galegos são mesmo os naturais da Galiza, na Lisboa antiga era nome dado a moços de fretes, recados, e moços de esquina (o que quer que tal signifique...).

Venho a descobrir, com esgar triste e repelente, que em sentido figurativo, o dicionário refere o uso de galegos para pessoas ordinárias, fracas, de pequeno valor.
Creio estar perdido há muito este valor do termo.
Em geral o som da palavra coloca um sorriso na face. Do outro lado do oceano, porém, a palavra adquiriu sentidos diversos. Não vou verificar, refiro só o que recordo. Recordo que é adjectivo aplicado a pessoas que trabalham muito (como aliás também sucedia em Portugal, (...)embora geralmente poucos jovens o saibam) (...)

(...) Os senhores da água, os galegos, merecem uma nota que os separe dos que aparecem sempre na sua companhia, como negros, mulatos, mouros, etc... Por duas razões: porque em finais do século XVIII já eram 60 000, número considerável em relação à população total de Lisboa, e porque a sua acção foi importante na história da alimentação da cidade, tão importante que essa acção chegou aos nossos dias transmitindo usos que se transformaram em emblema da cidade como, por exemplo, as populares "iscas com elas".

Era gente forte, muito robusta, preparada para trabalhos pesados, que tinham como característica principal serem muito económicos. Não se metiam em brigas, e nunca eram tidos como culpados de qualquer roubo ou crime.

Eram orgulhosos e desembaraçados e raramente ofereciam os seus préstimos, aguardavam que alguém os pedisse. Os galegos em Lisboa eram vendedores de água, moços de frete de corda ao ombro, moços de lojas e armazéns, criados de hospedarias e casas particulares, cocheiros, trintanários, varredores de ruas e empregados das tabernas e casas de pasto. Foi nesta actividade, e na de aguadeiro, que se tornaram conhecidos e que se enraizaram na cidade.

Trabalhavam muito, viviam economicamente e, depois de juntar algum dinheiro, partiam para as suas terras e compravam um terreno.

Em 1801 houve uma tentativa de os expulsar por causa da guerra, mas o Intendente Geral da Polícia avisou que, expulsando-os, deixava de haver quem servisse a cidade. Foram deixados em paz e continuaram.

Em relação aos criados portugueses, mais subservientes, os galegos eram mais orgulhosos, mais limpos, mais fiéis e mais sóbrios. Quando chovia e a lama deixava as ruas da cidade em estado lastimável, eram eles que carregavam as pessoas. Os que vendiam água iam encher as suas barricas decoradas aos chafarizes e depois apregoavam a "áááágua freeesca, frisquinha, quem quer beber áugua freeesca?". Vendiam cada copo de água a 5 réis. [...]

(Alfredo Saramago, Para Uma História da Alimentação de Lisboa e Seu Termo)
(Blogue Quiromancias - 22 deAgosto de 2006)

Lugares da Península - A Caminho de Granada

...Entretanto, mais poderosos que as polémicas, os lugares continuam, a terra permanece, a beleza e a sensibilidade ocupam triunfalmente esta bela Península multinacional em que temos a sorte de viver.
Do blogue Língua de Mariposa, uma viagem fascinada e inesquecível da brasileira Nora Borges:

"Quando soube que iria visitar Granada, eu sabia muito pouco sobre a cidade, mas já tinha em mente três coisas muito importantes para ver.
A primeira era a Alhambra, a cidade-fortaleza do último reino nazarí em Espanha, o monumento mais visitado do país.
A segunda era estar em Fuentevaqueros e na casa de Garcia Lorca.
E a terceira era conhecer a Capela Real da Catedral de Granada onde estão os restos mortais de Juana, la Loca.

Na época eu havia acabado de escrever alguns posts sobre ela e estava encantada em poder estar na mesma cidade onde a rainha havia desejado, inutilmente, enterrar o seu amado Felipe, el Hermoso. Talvez eu traga também para cá os posts sobre Juana. Vou pensar. Eu gostei tanto de escrevê-los!
Pero… há que respeitar os ensinamentos de Kavafis e aproveitar a viagem, antes de alcançar qualquer destino.
Aproveitei cada segundo da viagem de Madrid até Granada. É belíssima! E como eu sabia que passaria pela Rota de Quixote, não tinha pressa alguma em chegar. Admirei com calma a vegetação, os vinhedos espalhadas pelos dois lados da estrada, as bodegas de vinho, os moinhos de vento.
Para ir à Andaluzia desde Madrid é necessário atravessar Castilha La Mancha. E, como todos sabem, por aqui estiveram em espetaculares aventuras, Don Quixote e Sancho Pança, na fértil e prodigiosa imaginação de Miguel de Cervantes .
Na minha era como se os famosos personagens tivessem existido de verdade. Não canso de afirmá-lo, porque é assim que me sinto. Sempre. Para mim é como se tivessem feito parte da verdadeira história do lugar. Ali a fantasia e a realidade se entrelaçam de tal forma que eu podia ver sombras na colina, mais além do castelo e dos moinhos… e parecia escutar um murmúrio no ar que dizia: " En algun lugar de La Mancha, de cujo nombre no quiero acordar..." Me emocionei... soprei, quis ficar ali. Por que temos tanta pressa em chegar se há momentos tão especiais para deixar-se estar?
Deixei-me estar, imaginando ver e ouvir o cavaleiro andante, o louco e sonhador fidalgo suspirando por sua amada Dulcinea e lutando contra os moinhos de vento como se fossem perigosos gigantes enfeitiçados pela negromancia de seus inimigos invisíveis!
Prometi a mim mesma voltar ali para estar um dia inteiro, talvez dois. Há uma programação turística que leva pessoas de Madrid até essas paragens. Os moinhos foram recuperados, há restaurantes e pousadas lindas. Vale a pena!
Sugiro que venham... e deixem-se estar entre os caminhos por onde Don Quixote cavalgou com Rocinante e com o inseparável escudeiro e amigo Sancho. Sugiro que, "mientras tanto", se puderem, escutem as músicas de El Hombre de La Mancha… deixem que lhes falem ao coração.
E então compreenderão que não há pressa alguma em sair dali...
Entre Castilha La Mancha e Andaluzia, há uma estreita e perigosa passagem entre as montanhas de Sierra Morena. Gostei do nome. A passagem é a única possível para viajantes em carro partindo de Madrid. Vale o medo da estrada-serpente pela grande beleza de costear o Desfiladeiro de Despeñaperros. O nome é meio estranho, mas descobri que o signicado real vem da época das guerras entre moros e cristãos, em torno dos anos 1200. Esta passagem dificultava o avanço dos árabes para a região e quando estes perdiam as batalhas eram chamados de perros ( cães ) e executados sem apelação, sendo atirados nas profundas gretas entres os enormes rochedos.
Por ali há um bar e restaurante chamado Casa Pepe. É um rincão interessante, pois guarda muitas fotos, recortes de jornais e referências à época franquista espanhola. O dono é um dos fãs mais fiéis de Franco e de seu regime fascista "desde que nasceu".É tão espalhafatoso que o lugar foi ficando famoso dentro e fora da Espanha. " Se houvesse um prémio ao local mais "kitsch" do país e de vocação mais fascista ele ganharia a medalha de ouro." Garante o jornal espanhol El Mundo. É um lugar para descer do carro e tomar um café ou uma cerveja, tirar umas fotos ou comprar alguma "recordação" de sua passagem, se é que interressa ao passante. Ele vende bandeiras, queijos com a cara do Caudillo (???... para meter a faca, é?), dedais com os símbolos da Falange, soldadinhos de chumbo. Mesmo que atualmente seja "politicamente incorreto", eu parei. Gosto de ver tudo.
A partir do desfiladeiro a paisagem muda completamente. E começam os grandes campos de olivos, famosos pelo bom azeite que produzem. Reconheci um cheiro no ar que invadiu minhas narinas e trouxe da memória lembranças de infância. Era um cheiro igualzinho ao do vinhoto da cana de açúcar nordestina. Pensei em Lorca e seus cantos. Nos poemas que cheiravam à Granada em plena Nova York.
" Mi Pueblo: Quando eu era menino vivia em um povoadozinho silencioso e perfumado da vega de Granada. Tudo o que nele ocorria e todos seus sentires passam hoje por mim velados pela nostalgia da infância e pelo tempo. Eu quero dizer o que sentia de sua vida e de suas lendas. Eu quero expressar o que passou por mim através de outro temperamento. Eu anseio referir as distantes modulações de meu outro coração"
Quisera ser poeta também para escrever o que contam minhas raízes! Elas guardam as memórias gravadas pelos cinco sentidos, por onde quer que eu vá.
Pois sim...antes de entrar em Granada fui ver o pueblo onde nasceu Federico Garcia Lorca, cruzando um caminho sombreado e lindo de chopos.
Mas Fuentevaqueros me pareceu uma cidade fantasma. E era.
Naquela tarde, às quase 5 da tarde, não havia uma alma nas ruas... nem um jovem de bicicleta, nem uma criança, nem um velho sentando solitário em algum banco público. Nada... Apenas o sol causticante sobre as casas de janelas pequenas, cobertas por cortinas estampadas. Havia também cortinas nas portas. Com certeza para que o ar pudesse circular sem trazer as moscas, nem perderem suas intimidades. A gente podia apenas imaginar a vida por trás das cortinas...um costume herdado dos árabes e também muito utilizado nas quentes cidades do interior nordestino.
A Casa Museu é o número 4 da rua García Lorca. E estava fechada.Desta vez, com porta de madeira, sem as cortinas que indicam vida, por mais escondidas que estejam. Era a hora final da siesta espanhola e nem a sorveteria estava aberta. Suspirei de sede e decepção. Mas não desisti. Finalmente encontrei um pequeno cartaz que dizia: Horários de visita : 5:00h, 6:00h e 7:00h da tarde. Uff ! Faltavam apenas três minutos para as cinco!
E, "às 5 en punto de la tarde" (uma referência a um dos seus poemas mais conhecidos) a porta se abriu e um homem apareceu perguntando se queríamos ver o museu. Compramos as entradas e como num passe de mágica, apareceram mais doze pessoas. Onde estavam eu não sei. Soube depois que só atendem 15 de cada vez. Éramos 14...A porta se cerrou à nossas costas e o calor do sol desapareceu.
Como todas as casas da Andaluzia, a Casa de Lorca tem um pátio e um poço. E toda ela rescende a jasmim e frescor. Vi suas pinturas de criança, seu quarto e seu berço, a cozinha e seus utensílios... um piano...Só ali eu soube que ele também tocava piano e compunha belas canções.
A casa é muito simples. Vale pelo sabor de estar dentro da história do grande poeta. Não esperem um museu de verdade... ela não o é.
Na parte de cima, no antigo celeiro de grãos, havia uma pequena exposição, que varia de tempos em tempos. Coube-me a do momento, sobre as cartas e fotos que o poeta trocou com sua grande amiga, Anna Maria Dalí, irmã do pintor surrealista espanhol, Salvador Dalí.
De cara, dei com o quadro que eu adoro e que conheci no Museu Rainha Sofia, em Madrid. Era como encontrar uma velha amiga minha. Inclusive já utilizei-a num dos posts da história para estar aqui.Chama-se Muchacha en La Ventana.
Que delícia é viver devagar e observar pequenos detalhes que fazem as coisas mais belas!"
Ps. Este post é uma adaptação de antigos arquivos do Cicatrizes da Mirada.
Posted by Nora Borges on setembro 5, 2006 2:06 PM
(Do blogue: Língua de Mariposa)

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Saramago, o Iberismo e a Opinião de um Espanhol




Chegou à Torre a opinião de um espanhol, que devemos a Água Lisa (o blogue de João Tunes):

..................
Interessante para a polémica, que vai brava, sobre o Saramago e o seu iberismo, conhecer a opinião de um espanhol. Por exemplo, a do companheiro “popular maiorquino”, Daniel:

"No discutiremos su calidad literaria, aunque podríamos.
Yo solo fui capaz de leer, con gran esfuerzo "La Caverna" y "La Balsa de Piedra", esa prosa farragosa y pesada.
Con "Ensayo sobre la ceguera" ya no pude.
Leer a Saramago es como tragar un pedazo de pan seco que no acaba nunca de bajar por la garganta.
Pero le dieron el premio Nobel, y habrá quien disfrute con sus obras. En fin, si solo se dedicara a escribir, no pasaría nada. Para gustos, colores.
Sí es más discutible su calidad como profeta.
Iberia ya existe desde hace muchos siglos, dividida en dos estados: Portugal y España.
Y puede que desde su retiro canario, alejado del mundanal ruido, haya olvidado los problemas internos que sufre España.
De otro modo no se explicarían sus ejercicios geográficos de salón tan fuera de lugar.
Saramago se equivoca, o busca protagonismo, quién sabe.

Sus palabras parecen venir del resentimiento más que de las convicciones.
Y creo que en Portugal tiene pocos amigos."
(Publicado por João Tunes)

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Iberismo (Defesa de José Saramago)



Ferreira Fernandes, sempre conciso e directo, no Diário de Notícias de hoje:

"LEVANTÁ-LO DO CHÃO? ELE NÃO ESTÁ AÍ


Saramago foi acusado de tudo, até de traidor. Porque disse que amanhã vamos ser Espanha. Nem disse que gostava que assim fosse, disse como quem diz o inevitável: "Amanhã a Terra acaba." Vamos insultar os cientistas que garantem isso?
Não uivarei com os lobos. Saramago tem mais de 80 anos e continua a trabalhar. Ele paga os impostos em Portugal, podendo não o fazer. Eu, que vivo em Portugal, não cuspo para a sopa.
Outra coisa, ele tem uma profissão útil: escreve (não vende, por exemplo, pit bulls). E escreve em português. Num país que diz tanto "a minha pátria é a língua portuguesa", é contraditório com ser traidor. E escreve bem português: não discuto se é ou não grande escritor, digo que não escreve "çamarra". Logo, não lesa a pátria (a língua).
Ah!, e ele ganhou o Nobel de Literatura. Ao alcance de qualquer um, eu sei, mas não é o mesmo que ser administrador em fábrica do sogro. Ou é? E ainda: ele tem 80 anos e ama. Gostava de ver o caixote do lixo de quem tanto o despreza. "

Iberismo (Ibéria: capital Lisboa)





Transposto de O António Maria:


Ibéria: capital Lisboa


"Não sou profeta, mas Portugal acabará por integrar-se na Espanha" - José Saramago in Diário de Notícias online, 15.07.2007



Não fora o homem estar eterna e agradecidamente enamorado de uma linda sevilhana chamada Pilar del Rio, que muitíssima importância teve para o êxito internacional do escritor ribatejano, e o assunto do seu reiterado iberismo mereceria, de facto, extenso debate, em vez da urticária que atacou imediatamente alguns arautos profissionais da portugalidade. No entanto, o "sentido de oportunidade" da sua entrevista ao Diário de Notícias, fazendo-a coincidir com a visita do rei de Espanha a Portugal no âmbito da presidência portuguesa da União Europeia, teve o esperado condão de excitar os espíritos fracos de ambos os lados da fronteira.

O El País excita-se sempre nestas ocasiões e descobre, espantado, que Portugal existe (e continua a ser apetecível), e o Manuel Alegre (que parece ter-se esquecido dos seus mais recentes compromissos com o movimento de cidadãos que desencadeou, e sobretudo com parte importante da base militante e simpatizante do PS) fez previsivelmente ouvir a sua voz adamastórica: "Ele (Saramago) tem a responsabilidade de ter ganho o Nobel da Literatura com a língua portuguesa".


Saramago regressa às "portadas" dos jornais e televisões, e à netosfera, com uma questão típica do século 19: o iberismo. Homens de uma bem mais notável craveira intelectual que Saramago, refiro-me a Miguel de Unamuno, Antero de Quental, Teófilo Braga e António Sérgio, ou mesmo a escritores seus contemporâneos, como Miguel Torga, António Lobo Antunes e Eduardo Lourenço, sonharam ou sonham igualmente com formas mais ou menos evoluídas de iberismo. O já desaparecido José Rodrigues Miguéis, num dos seus deliciosos bilhetes postais publicados no extinto Diário Popular, falava, mais limitadamente, de uma nova quimera que baptizou com o nome Portugalícia.


Em suma, se durante tantos séculos fomos aliados dos ingleses, para nos defendermos dos castelhanos, depois da vergonhosa Conferência de Berlim (1884-1885) e do ultimato inglês a Portugal, rejeitando o Mapa cor-de-rosa (com que Portugal pretendia assegurar uma boa presença na partilha colonial do continente africano então em curso pelas principais potências europeias), tal ideal estratégico chegara irremediavelmente ao fim. Por outro lado, a decadência mais geral e profunda dos povos peninsulares, verberada por Miguel de Unamuno, tornar-se-ia uma realidade cada vez mais pesada de consequências, tanto para os povos ibéricos como para os dois estados que os protagonizam.

A Espanha deixou entrar Napoleão no seu território a pretexto de obrigar Portugal a cumprir o bloqueio contra os ingleses, a decadente corte lusitana, em consequência desta invasão francesa, fugiu para o Brasil. Mais tarde, a derrota espanhola de 1898, na disputa com os Estados Unidos pelo controlo do continente americano, mergulharia este país num declínio económico e político de que só sairia após a morte de Franco. Perdidos os impérios coloniais espanhol e português, findas as ditaduras oportunistas que emergiram da crise finissecular em ambos os países, criada a União Europeia, nada mais natural do que repensar as relações entre os vários povos ibéricos, entre as várias nações históricas da península e entre os dois estados que há muitos séculos protagonizam as suas alegrias e as suas tristezas.

Tudo isto pode e deve ser feito, com tempo, com cautela, com transparência e sobretudo com elasticidade. Mas daí a alimentarem-se ilusões sobre uma nova união ibérica vai um passo de gigante demasiado improvável. A menos que a capital dessa união seja Lisboa, claro!Post scriptum: Há um argumento falacioso, muito bem montado por alguns estrategas do iberismo castelhano, expresso aliás num recente artigo de Santiago Petschen, que convém desmontar a tempo de evitar excessivos optimismos face à utopia de dissolver o secular bicefalismo geo-estratégico da jangada ibérica. Petschen resume-o de forma fina e sedutora:

"Há alguns anos, depois de uma exposição que li no Instituto de Defesa Nacional de Lisboa, num português macarrónico, dialoguei com os militares sobre as relações entre os espanhóis e os portugueses e surgiram algumas queixas. Perguntei então: estão de mal com os galegos? A resposta imediata foi: não! Estão de mal com os andaluzes? Também não. Mal com os catalães? De maneira nenhuma. Mal com os bascos? Absolutamente, não. E continuei: os estremenhos, os aragoneses, inclusive os manchegos e os madrilenos. Para com todos os mencionados mostraram os dialogantes a sua simpatia. Só apareceu um cliché, resquício de irredutibilidade, o dos castelhanos velhos. Disse-lhes então: os senhores não têm nada a temer. Portugal e Castela a Velha contam com um número parecido de quilómetros quadrados. Mas sobre a mesma extensão encontram-se, em Portugal, dez milhões de habitantes e em Castela a Velha pouco mais de dois milhões. A estatística, tão favorável a Portugal, produziu no auditório desconhecedor do dado uma surpresa. Dissipou-se, com isto, uma percepção errónea." - "O iberismo", Santiago Petschen, Prof. catedrático de Relações Internacionais na Univ. Complutense de Madrid, in DN online
.


Como é evidente, o problema do poder não se mede hoje em dia pelo critério demográfico, particularmente se estão em causa escalas tão exíguas. O que conta hoje e no futuro próximo são as grandes concentrações urbanas (Madrid, Lisboa-Porto, Barcelona-Valencia) e os sectores-regiões económico-financeiros, logísticos, tecnológicos, de serviços e político-militares, que as mesmas representam e controlam. Neste sentido, seria imperdoável tolerar que a ingenuidade prevalecesse sobre o realismo dos jogos de estratégia em curso. Madrid pretende hegemonizar radialmente a península ibérica - e para isso, tudo tem feito, no sentido de transformar a capital espanhola numa super-metrópole política e financeira. Lisboa, com o Porto e Barcelona (e Bilbao), não estarão jamais dispostos a sucumbir a esta estratégia, e por isso continuarão a desenvolver esforços para consolidar, sob todos os pontos de vista, os aneis atlântico e mediterrânico, de que a sobrevivência estratégica da península afinal depende.


A União Europeia irá passar nas próximas décadas por duras provas à sua consistência estratégica e à sua governabilidade interna, sobretudo por causa das questões energéticas, ambientais, mas também das que respeitam à imediata questão do alargamento. Deverão a Turquia e Marrocos integrar-se na União Europeia, como pretende a Alemanha e vários estados da União (entre eles, Portugal e Espanha), ou, pelo contrário, formar com o resto do Magrebe uma União Mediterrânica, como quer Sarkozi? Se os EUA atacarem o Irão, e a Rússia sair em defesa deste, que fará a Europa? Qual Europa? Portugal é um estado independente há 868 anos; a Espanha é um reino unificado e independente há 538 anos. Vamos pois deixar, para já, as coisas como estão, e um dia, quando a Europa for o que promete, voltemos então a discutir a organização política da ibéria. "

Iberismo - Carta Aberta a José Saramago (Fernando Venâncio)



Recolheu-se no espaço de liberdade da Torre, contíguo à barbacã, e divulga-se agora às caras e caros, com a vénia devida a Fernando Venâncio, a seguinte


CARTA ABERTA A JOSÉ SARAMAGO
Do DIÁRIO DE NOTÍCIAS de hoje


Muy señor mío,

Me perdonará Usted mi pobre castellano, pero desde anteayer me entero de la urgencia de praticarlo. Al "Diário de Notícias" de Lisboa predijo Usted esto: "Acabaremos por integrar-nos" en España.
Preguntado por el periodista João Céu e Silva si nuestro país seria entonces "uma província de Espanha" (le sigo citando en nuestro antiguo idioma), Usted contestó: "Seria isso. Já temos a Andaluzia, a Catalunha, o País Basco,a Galiza, Castilla La Mancha e tínhamos Portugal".
Claro, nos asegura, podremos conservar nuestra lengua, nuestros costumbres, y así mismo creo yo nuestro fado, pero (no lo dijo, uno entiende) nos gobernaría el jefe de estado madrileño del momento. Y aunque diga Usted que no es profeta, no hay que olvidar su proverbial modestia. En fin, para gente sencilla como yo, sus palabras son un caritativo aviso del destino.
Pues, señor, no y no. Usted, el más famoso de mis compatriotas, se permite en público unos juegos muy guapos de futurología. Pero se los guarde para sus libros, los cuales están perdiendo el suspense de antaño.
Créame, el real futuro de un Portugal integrado en España lo conocemos ya muy de cerca. Está visible en la Galicia de hoy, donde la lengua dominante, y los derechos dominantes, y los partidos dominantes, son los de Madrid. Esto no es futurología, sino lo qué uno ve. Si quiere verlo.
No creo que sea su caso, Don José. Me contaran que, hace poco, visitó Usted Galicia invitado por el Pen Club. Le rogaran que hiciera su discurso en Portugués. Todos podrían entenderle, sin problema, si hablara en nuestra hermosa variedad de gallego.

Usted - como otras veces ya en Galicia - recusó y habló en Español.

Muchas gracias en realidad. Ahora sabemos como hablarán, en la Provincia española de Portugal, los futuros traidores.

Fernando Venâncio - Amsterdam, 17 de Julio de 2007

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Entrevista de José Saramago - Portugal, Espanha e o Iberismo

Caras e caros:
Na Torre não se professam as ideias de José Saramago quanto ao tema (um iberismo conceptualmente entendido como tendência para a integração política plena de Portugal no todo peninsular, com a consequente liquidação da independência nacional).
Foi um tema já aqui aflorado noutra perspectiva (rever 8 de Julho) e será um tema a que tornaremos mais cedo do que tarde.
Na Torre, porém, muito se estima a liberdade de caminhos, de escolha e de expressão, pelo que se opta hoje por reproduzir, na íntegra, a entrevista concedida pelo Prémio Nobel português a João Céu e Silva, do Diário de Notícias, no passado dia 15 de Julho.
...............

"Este foi o regresso mais longo de José Saramago a Portugal desde que a polémica que envolveu a candidatura do seu livro O Evangelho Segundo Jesus Cristo ao Prémio Literário Europeu o levou para um "exílio" na ilha espanhola de Lanzarote. A atribuição do Prémio Nobel parece tê-lo feito esquecer essas mágoas, mas não amoleceu a sua visão da sociedade e da História, que continua a ser polémica. Como se pode ver nesta entrevista.
Durante dois dias, o Nobel da Literatura português sentou-se no sofá e analisou o estado do mundo. Na única entrevista que concedeu durante a temporada passada na sua casa de Lisboa, falou muito de política, mais de literatura e também da vida e da morte. Pelo meio ficou o anúncio da criação da fundação com o seu nome e a revelação de que está a escrever um novo livro.
Este regresso a Portugal é um perdão?
O país não me fez mal algum, não confundamos, nem há nenhuma reconciliação porque não houve nenhum corte. O que aconteceu foi com um governo de um partido que já não é governo, com um senhor chamado Sousa Lara e outro de nome Santana Lopes. Claro que as responsabilidades estendem-se ao governo, a quem eu pedi o favor de fazer qualquer coisa mas não fez nada, e resolvi ir embora. Quando foi do Prémio Nobel, dei uma volta pelo país porque toda a gente me queria ver, até pessoas que não lêem apareceram! E desde então tenho vindo com muita frequência a Lisboa.

Vive num país que pouco a pouco toma conta da economia portuguesa. Não o incomoda?
Acho que é uma situação natural. Qual é o futuro de Portugal nesta península? Não vale a pena armar-me em profeta, mas acho que acabaremos por integrar-nos.
Política, económica ou culturalmente?
Culturalmente, não, a Catalunha tem a sua própria cultura, que é ao mesmo tempo comum ao resto da Espanha, tal como a dos bascos e a galega, nós não nos converteríamos em espanhóis. Quando olhamos para a Península Ibérica o que é que vemos? Observamos um conjunto, que não está partido em bocados e que é um todo que está composto de nacionalidades, e em alguns casos de línguas diferentes, mas que tem vivido mais ou menos em paz.
Integrados o que é que aconteceria?
Não deixaríamos de falar português, não deixaríamos de escrever na nossa língua e certamente com dez milhões de habitantes teríamos tudo a ganhar em desenvolvimento nesse tipo de aproximação e de integração territorial, administrativa e estrutural. Quanto à queixa que tantas vezes ouço sobre a economia espanhola estar a ocupar Portugal, não me lembro de alguma vez termos reclamado de outras economias como as dos Estados Unidos ou da Inglaterra, que também ocuparam o país. Ninguém se queixou, mas como desta vez é o castelhano que vencemos em Aljubarrota que vem por aí com empresas em vez de armas...
Seria, então, mais uma província de Espanha?
Seria isso. Já temos a Andaluzia, a Catalunha, o País Basco, a Galiza, Castilla la Mancha e tínhamos Portugal. Provavelmente [Espanha] teria de mudar de nome e passar a chamar-se Ibéria. Se Espanha ofende os nossos brios, era uma questão a negociar. O Ceilão não se chama agora Sri Lanka, muitos países da Ásia mudaram de nome e a União Soviética não passou a Federação Russa? Mas algumas das províncias espanholas também querem ser independentes! A única independência real que se pede é a do País Basco e mesmo assim ninguém acredita.
E os portugueses aceitariam a integração?
Acho que sim, desde que isso fosse explicado, não é uma cedência nem acabar com um país, continuaria de outra maneira. Repito que não se deixaria de falar, de pensar e sentir em português. Seríamos aqui aquilo que os catalães querem ser e estão a ser na Catalunha.
E como é que seria esse governo da Ibéria?
Não iríamos ser governados por espanhóis, haveria representantes dos partidos de ambos os países, que teriam representação num parlamento único com todas as forças políticas da Ibéria, e tal como em Espanha, onde cada autonomia tem o seu parlamento próprio, nós também o teríamos.
Os espanhóis olham-no como um deles?
Há duas Espanhas neste caso. Evidentemente, tratam-me como se fosse um deles, mas com as finanças espanholas ando numa guerra há, pelo menos, quatro anos porque querem que pague lá os impostos e consideram que lhes devo uma grande quantidade de dinheiro. Eu recusei-me a pagar e o meu argumento é extremamente simples, não pago duas vezes o que já paguei uma. Se há duplicação de impostos, então que o governo espanhol se entenda com o português e decidam. Eu tenho cá a minha casa e a minha residência fiscal sempre foi em Lisboa, ou seja, não há dúvidas de que estou numa situação de plena legalidade. Quanto aos impostos, e é por aí que também se vê o patriotismo, pago-os pontualmente em Portugal. Nunca pus o meu dinheiro num paraíso fiscal e repugna-me pensar que há quem o faça. O meu dinheiro é para aquilo que o Governo entender que serve.
Mas não pode negar que o olham como um deus...
Não diria tanto...

Mesmo sendo a crítica espanhola tão positiva em relação à sua obra?
Também já foi uma ou outra vez um pouco negativa - talvez devido às minhas posições políticas e ideológicas - mas de um modo geral tenho uma excelente crítica em toda a parte, como é o caso dos EUA, onde é quase unânime na apreciação da minha obra."

terça-feira, 24 de julho de 2007

O Retrato do rei D. João II de Portugal (por Oliveira Martins)


"Dizia o príncipe que tempos havia para usar de coruja, tempos para voar como falcão (...). Os tempos de coruja tinham acabado, porque não carecia mais de pactuar com as tontices do pai; rei agora (1481), seria o falcão. Mas, para ser verdadeiramente rei, teria de vestir ainda muitas vezes o hábito de ave nocturna, até ver por terra o poder dessa fidalguia que os erros do pai tinham ensoberbado.
Isto, porém, não satisfazia ainda as suas largas ambições. O homem, como Isabel de Castela o designava com espanto, mirava mais longe. A possibilidade de vir a sentar-se, ele ou os seus herdeiros, no trono de uma Espanha unida, afagara-lhe o espírito em moço, e chegou a esperar (antes de Toro) realizá-la. Depois, rechaçado, mas não desesperado, fez de coruja em 1479, contando voar de falcão no momento oportuno.
Nem paravam aí as suas ambições: lembrava-se do falecido infante D. Henrique, e dos vastos planos, abandonados, que tinham fervido naquele cérebro. A sua monarquia dilatava-se da Espanha à Índia: e com a Península da Europa, com a África, a Índia, o encantado reino do Preste João, sonhou a monarquia de Filipe II...
Era sóbrio, severo, detestava o luxo - que proibiu. A sua corte apresentava o que quer que fosse de fúnebre e austero, sempre agradável a portugueses. A sua figura, também, nada tinha de imponente, nem de graciosa. Os hábitos de coruja davam-lhe mais carácter do que os de falcão: às duas aves, porém, pedia a cor que punha em tudo, o negro. De maravilhoso engenho, subida agudeza, de memória viva e esperta, faltavam-lhe porém os dotes exteriores. Não tinha elegância, nem no corpo nem no dizer: arrastava as palavras, falava a custo e com uma voz fanhosa. Era alvo, mas com umas veias de sangue que o faziam ser muy temido.
Inspirava medo sem infundir amor. Aos 37 anos já tinha cãs na barba e nos cabelos; só nessa idade deixou de ser abstémio. A força muscular, dote necessário aos príncipes dos bons tempos, tornava-o célebre: cortava com um golpe de espada três e quatro tochas de cera reunidas. A natureza não o ajudava, decerto. E também, na sua educação de príncipe, deixava de obedecer à regra de Maquivel: Não é necessário ser-se dotado de todas as qualidades, mas é indispensável afectá-las; possuí-las e servir-se delas pode chegar a ser perigoso: fingi-las é sempre útil. Seja-se fiel, clemente, humano, religioso e íntegro; mas de modo que, senhor de si, se possa e saiba fazer todo o contrário, quando a isso o caso obrigue.
D. João não era, nem clemente, nem humano, e não julgava necessário ao seu papel fingi-lo. Isso fazia com que muitos o detestassem, o que era um mal, fazendo com que, se a maior parte o temia, ninguém o amasse, o que se tornava pior ainda. A perspicácia e a autoridade não eram nele bastantes para que soubesse envolvê-las numa simulada bonomia, porque doçura ou humanidade não as havia na sua alma. Não hesitava perante o assassinato, à italiana, mas tinha a fraqueza portuguesa de confessar como isso se praticava."
(Oliveira Martins - "História de Portugal" - Guimarães Editores - 17.ª Ed. - 1977)